A primeira ceia





Tudo pronto. Mesa posta. Não se esquecera de nenhum detalhe. Era a mesma composição do primeiro encontro - um jantar leve e romântico. "Agora é só esperar a campainha" – pensou. Verificou mais uma vez aquela mesa tão rica em detalhes. Antes de sentar-se, apanhou o controle remoto do som, apagou a luz central, deixando as arandelas acesas iluminando os quadros que compunham a parede branca da sala. Sentou-se em sua poltrona de couro próximo à janela e, ali de frente para a porta, permanecera com olhos fixos naquele objeto inanimado.

O tempo não passa – angústia. A hora não chega - nervosismo. Vai até a cozinha e enche uma taça de vinho, preferiu aquele já aberto, pois ficaria deselegante abrir o que estava à mesa.

Não queria, mas era impossível não pensar por que chegara àquela situação. Sempre vivera sozinho, nunca gostou de dividir o seu espaço por muito tempo. Não tinha empregada, para não esbarrar com a mesma pessoa todos os dias. Sempre trocara de diaristas pelo mesmo motivo. Impossível não pensar no que estava por acontecer. Fazia perguntas como se esperasse respostas vindas do além: ¨Tá arrependido?¨ ¨Quer desistir?¨ ¨¨Será que vale a pena? Mas as respostas não chegavam, o silêncio daquele ambiente só era quebrado com passos e barulhos de chaves abrindo portas dos outros apartamentos.

Oito horas! Inicio de uma espera verdadeira, os segundos, os minuto seriam contabilizados, agora, como atraso. Dez minutos de aflição e um sobressalto – assusta-se com o toque suave da campainha desvirginando o silêncio estabelecido na sala.

Levanta, olha ao seu redor, esquece-se de acionar o aparelho de som e com o controle remoto em sua mão abre a porta. Uma silhueta feminina surge à sua frente. Seu corpo gelado pelo nervosismo é aquecido pelo calor transmitido pelo beijo ardente daquela que tanto esperava.

Surpresa pelo ambiente acolhedor, não pergunta para ele o motivo daquele jantar no meio da semana, fugindo à rotina de ambos. Entre conversas e sorrisos seus olhos se encontram revelando um amor verdadeiro; uma cumplicidade nunca vista.

No meio daquela cena perfeita, surge entre um arranjo de flores do campo um brilho. Os olhos dela estão tão brilhantes quanto o anel encontrado, diz sim para o pedido daquele que sempre pensara que era feliz vivendo isolado.

E, ele, nunca mais ficará sozinho.


Paulo Francisco

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