Bota justa





Estava chovendo. A noite chegara fria e molhada em Friburgo. Mesmo assim, três amigos confabulavam num canto do auditório, como sairiam daquele ambiente de estudo para visitar uma feira de promoções, que acontecia naquela cidade. Uma das participantes, moradora local, ouvindo a conversa do trio se ofereceu, de imediato, a levá-los de carro. Uma maneira, também, de sair daquele hotel por algumas horas.

A feira tinha de tudo, desde carros fantásticos a cabelos sintéticos para aplique – um horror. A moça sempre passou uma certa tranquilidade. Ser calma é uma de suas características, talvez a principal. Como uma boa anfitriã, segue os colegas indecisos e duros. Até que, de repente, depara-se com uma peça de vestuário num dos stands e esquece, por completo, os seus visitantes. Paralisada, hipnotizada pela peça, não consegue dar mais um passo.

Percebendo o tal fascínio da moça, os três resolvem visitar a feira separados, deixando-a em companhia de seu objeto de desejo – uma bota de couro. Combinaram o local e a hora que se encontrariam e partiram para a peregrinação promocional.

De stand em stand, os três chegaram ao local do encontro e perceberam que a gata–da-bota não se encontrava. Resolveram, então, depois de um certo tempo de espera, voltar a tal loja do objeto de desejo da felina. Chegando lá, uma cena chamou atenção dos três: um certo tumulto ao redor. da moça... mas, puderam perceber, também, que ela estava a sorrir; era um sorriso seco; um sorriso baixinho; um sorriso como a dona - Calmo. Os colegas, curiosos, sem entender o que estava acontecendo, aproximam-se e veem uma cena inusitada - A bota estava entalada em sua perna.

O vendedor de branco estava rosa. A perna dela entre as suas que, dependendo do ângulo, dava margem para interpretações diversas e o homem, coitado, numa força descomunal, tentando a qualquer custo arrancar aquela peça do corpo da moça. O pobre coitado puxava daqui, puxava dali e nada - a bota continuava lá, presa, fixa em sua perna. O homem de rosa já estava vermelho e, não demorou em ficar num bordô tricolor.

A moça continuava calma, com seu sorriso tranquilo à espera de uma solução. Olhava para os amigos e sorria. A sua calma chegava a ser irritante.

A gerente, já nervosa com o que estava acontecendo, não somente dentro da loja, mas também com o que estava acontecendo fora dela – um verdadeiro alvoroço. Decide, então, acabar com aquela cena constrangedora, e, com uma imensa tesoura, resolve num impulso, tirar o calçado daquela perna de qualquer maneira.

Enquanto isso, os clientes que ali chegavam, esqueciam-se de suas compras e engrossavam o coro: “Tira! tira! tira!” que se instalou em frente à loja. A atração da feira não era mais o Professor de dança de salão, pois todos que ali estavam se exibindo foram parar do outro lado, confirmando ao dançarino que ele fora derrotado por uma bota. Já não se ouvia a voz do locutor no alto-falante, tamanha algazarra.

Aquele que tentava de uma forma ou de outra saber o que realmente estava acontecendo, ouvia respostas das mais desencontradas: ¨Uma mulher resolveu tirar a roupa no meio da loja¨; ¨Duas mulheres estão brigando por causa de único par de botas de um determinado modelo¨... a pobre moça, foi chamada de louca, bêbada, amante e vários outros adjetivos que não seria de bom tom expressar.

De dentro da loja, ouvia-se, além da palavra de ordem, Tira! outras tão engraçadas como:

_ Coitada! Tá desmaiada. É?

_ Amante! Tem mais é que levar porrada mesmo! Essa frase foi de uma senhora baixinha e gordinha, quase uma caricatura da vovó do desenho animado.

O bêbado tentou falar:

- Eu também quero... se... se..va .iii.. ti ti rarrrr... a ro (u) pa... eu...quero ver.

Com a tesoura na mão, a gerente, já espumando de raiva, resolve cortar a bota para salvaguardar a integridade da perna da cliente. E com um corte próximo ao zíper, pronto, a linda perna ficara livre daquele objeto de couro e, como num final de um show de Rock, todos, ali presente, aplaudem, gritam, assoviam e da mesma forma que apareceram, desapareceram.

A moça, calmamente, escolhe um outro par de botas e, sem calçá-lo paga e sai sorrindo como se nada tivesse acontecido.


Paulo Francisco

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