Cinza



Ele acordou. Num espreguiçar lento como o de um felino, esticou-se e permaneceu paralisado, por alguns segundos na cama olhando fixo o teto que lhe cobria a cabeça. Como num passo de mágica, notou uma mancha intrusa a desenhar algo na cobertura de madeira e, que aos poucos, fora criando forma.

A simples mancha, transformara-se numa imagem feminina; a nitidez da imagem lembrava-lhe uma tela pintada por um artista apaixonado. Aquela linda figura de mulher parecia-lhe sorrir e, confuso, retribui o sorriso, como se ela fosse esperada por ele.

O homem naquela cama, numa posição quase fetal, deixara-se levar pela mancha mágica e, sem o menor receio, estudou cada milímetro daquele rosto sedutor que o transportou, por alguns instantes, para um tempo desconhecido.

Já sentado numa posição infantil, com as pernas entrelaçadas, percebera que ela já não mais lhe sorria, porém permanecia com um rosto angelical. Ele passou as mãos em seu rosto, como se quisesse ter a certeza de estar acordado e, de olhos bem abertos, presenciou a transformação das cores vivas daquela imagem por uma cor acinzentada e, num impulso, ficara de joelhos na cama bagunçada e pôde notar, com mais clareza, que a cor sombria vista antes, era na verdade, o cinza-prateado de seus cabelos cobrindo parcialmente o rosto daquela mulher.

Ela que antes sorria, agora, passava uma certa angústia num olhar sofrido e esse sentimento impregnou o corpo daquele observador. De pé, sobre os lençóis brancos e amarrotados, que antes lhe cobriam o corpo, tentava de maneira vã, alcançar o inalcançável com suas mãos estendidas como se estivessem a implorar, inutilmente, ao desconhecido que o deixasse tocá-la por um instante.

Permanecera ali, paralisado, vendo de forma mágica aquela figura desaparecer da mesma forma que surgira: lenta, suave e silenciosamente.

A angústia deixada por ela se transformara num sentimento tão conhecido por ele – a saudade – e, ainda em pé sobre os brancos lençóis, o homem sentira que não estava sozinho e ao virar-se depara-se com um corpo enrugado, cinza, ocupando o seu lugar.

Paulo Francisco

2 comentários:

nelma ladeira disse...

Olá boa noite! Lindíssimo poema parabéns! As vezes nós deixamos pra trás alguém ou algo muito importante!E quando paramos para pensar o tempo passou,então vem a saudade,e muitas vezes não temos mais tempo! Amei beijinhos.

Não me perder em minha vida disse...

Tenho me perdido na vida. E pouco tempo tenho dedicado ao escrever e ao ler no virtual.... o que é uma pena