Flash






Chove lá fora. Sentado na poltrona do ônibus a caminho do trabalho, disperso em seus pensamentos, o homem olha as paisagens repetidas de todos os dias, quando uma figura intrusa, aparece como um flash prateado a sua frente.
A imagem leva-o para um tempo lírico; um tempo em que a inocência fazia parte de sua vida.
Vê seus verdes anos, quando as pernas tremiam na presença de uma figura feminina; vê um garoto que adorava escrever sobre um amor que ainda não experimentara; vê o amor não concretizado, a paixão solitária como uma folha ao vento sem direção.
Quando volta daquele transe, percebe que não crescera tanto assim, pois seu coração bombeia jatos fortes de sangue para todos os órgãos vitais de seu corpo. Está fervendo. Coloca a mão disfarçadamente no rosto - como se não quisesse ser flagrado naquele estado febril.
Disperso, não mais pela paisagem da janela, mas pelo sentimento invasor. Seu corpo dói, suas mãos tremem e um clarão cor de prata surge diante de seus olhos. Uma imagem feminina aparece, as mãos dela afagam seu rosto e os seus lábios se movimentam, mas não consegue ouvi-la, não consegue tocá-la. Seu corpo está pesado, paralisado, indefeso diante da imagem da mulher. Ela segura suas mãos e como um passo de mágica, passa-lhe uma energia, deixando-o novamente em transe.
O homem é transportado para um tempo impreciso.
Ainda zonzo, tenta reconhecer o lugar inutilmente.
Surge um novo clarão. Um clarão amarelo, cor de ouro e como se tivesse saído de dentro da cor, um homem lhe sorri. A imagem masculina estica suas mãos e as coloca em sua testa. Ele, sem poder se movimentar, percebe as mãos ásperas, calejadas como as de um trabalhador braçal.
Confuso, tenta falar, mas sua voz não sai. O homem, percebendo sua aflição, coloca as pontas dos dedos em seus lábios impedindo-lhe de tal esforço e em seguida pressiona-lhe o peito e ele, sem poder fazer nenhum movimento, recebe daquelas mãos ásperas um calor nada igual. Não queima, não arde, é um calor agradável um pouco mais que o calor de seu próprio corpo. Em seguida, a imagem some junto com a cor.
Por alguns segundos, tudo fica calmo. Nenhum som, nenhuma imagem. Tudo a sua volta está incolor.
Fumaças, de todas as cores, preenchem aquele ambiente. Todos os tons de azul, vermelho e amarelo. Ao ver a fumaça de cores dançando a sua frente, ele tem uma sensação agradável e surgem entre as cores, crianças: meninos e meninas, de todos os tamanhos, de todas as raças. Olha espantado para aquela miragem e percebe que elas, estão distantes – são lembranças de seu passado.
Depois de certo tempo, a fumaça colorida evapora e tudo fica como antes – silencioso e incolor.
Olhos fechados. Ele quer sair daquela situação de delírio. Pensa em gritar, mas não consegue. Pensa em correr, mas não consegue.
Abre os olhos e o que era incolor, agora é negro. Sente-se como num quarto escuro. Uma luz leitosa aparece ao longe. Duas garras abrem-lhe as pálpebras. Ouve vozes.
Tudo volta ficar branco e naquela cama de hospital percebe que sofrera um acidente. Seu ônibus batera num poste.


Paulo Francisco

Um comentário:

lis disse...

Oi Paulo
saudade !
estava impossibilitada de comentar no Varal , não quero nada com o Google + e ali só se me inscrever ( algo assim),
Passo pra deixar um abraço da madrugada