Furta cor


Tudo pronto. Mochila arrumada. Feriado prolongado na Serra. Era tudo que precisava depois de um mês intenso de trabalho. Poderia viajar para qualquer lugar, mas, cansada de praia, preferiu ficar cinco dias no sítio da família.

Já na estrada, com seu carrinho 1.0, dirige calmamente ouvindo seus cantores preferidos. Magrelinha de Luiz Melodia no som do carro e pé na estrada. Dirige sem o stress do trânsito absurdo da Cidade.

Chegando à raiz da Serra percebe a diferença na temperatura – esfria bruscamente. O verde do lugar lhe encanta. Sempre que pode sobe a Serra. Adora a tranqüilidade do lugar.

Caetano acabara de cantar Cajuína quando decide parar para um cafezinho e esticar as pernas.

Desce do carro e alonga-se. Segue até o balcão da loja, pede um copo de água mineral e o café. Olha as gôndolas repletas de biscoitos amanteigados e compotas artesanais. Pega um cesto de vime e enche-o com as guloseimas locais e pensa: ¨Vou ficar gorda!" Dá de ombros. Apanha um queijo do tipo curado. Paga tudo com cartão de crédito.

Entra no carro e segue seu caminho, ouve Amor de Índio de Milton. Cantarola junto. A música lembra o seu primeiro namorado. Milton cantando e ela lembrando dele, o responsável por seu primeiro beijo - Rafael.
Começa a se perguntar: ¨ Como ele deve estar?¨ ¨Casou-se?¨¨Tem filhos? ¨ ¨ Será que ainda mora no mesmo lugar?¨

A voz de Bebel Gilberto tira-a de seu pseudotranse. Canta junto com ela.

¨ Ufa!¨- Exclama - Estava quase chegando a estrada de terra que ainda tinha que enfrentar até o sitio.

Lembra-se de como era difícil chegar ou sair do sitio quando chovia. Mas ela, quando menina, se divertia com tudo e não estava nem aí para dia lamacento, empoeirado ou qualquer outro transtorno, o que queria mesmo era andar a cavalo, charrete, mergulhar na cachoeira, subir nas árvores e curtir ao máximo seus momentos campestres - chamava assim seus dias no sitio.

Chega a entrada da propriedade. Para, sai do carro, abre a porteira, entra de novo no carro, passa pela porteira, para de novo, sai, fecha a porteira, entra no carro e segue até a casa.

A caseira deixara tudo pronto – comida na geladeira e casa arrumada.

Olha a sua volta e, percebe que nada mudou. Tudo se mantém na mais perfeita ordem.

Levanta e vai direto para seu quarto. Cada quarto tinha uma cor. O dela era o verde. Sempre gostara desta cor. Até mesmo o seu apartamento era pintado num tom de verde claro.

Gira a maçaneta de louça e empurra a porta pesada de madeira maciça. A luz do sol atravessa a janela e a deixa cega por alguns segundos. Já acostumada com a claridade invasora, nota que tudo permanece igual.

Olha para os porta-retratos na cômoda e, descobre o quanto foi feliz naquele lugar!

Deita, aperta a tecla do pequeno aparelho de som. Adormece ouvindo sua seleção de músicas do Frejat.

Ela acordou e tudo amareleceu. Não estava mais em seu quarto verde. Confusa, porque nada estava como antes. "Onde estou? – pergunta-se. Percebe que ainda era seu quarto e tudo que ali estava lhe pertencia, mas estava velho, amarelecido.

Correu para a porta e ao tocar na maçaneta viu sua mão velha e enrugada. Corre para o espelho e não acredita no que vê – envelhecera, era uma mulher velha e manchada. Desesperada, com as mãos em sua face envelhecida, sente tudo rodar e como um objeto pesado cai no assoalho escuro de madeira.

Ouve vozes. Acorda e vê duas caras enrugadas a sua frente. Ela reconhece aqueles rostos. Uma era de sua amiga de infância e o outro, daquele que tanto queria rever e não sabia onde estava. Muda, olhando para aqueles rostos tão castigados, pensa no que estaria acontecendo com ela.

Pacientemente, o casal de velhos carrega seu corpo leve e ossudo para a cama. Sem dizer uma única palavra, aterroriza-se e, de maneira lenta, se encolhe como uma criança assustada.

Sente uma picada em seu braço direito e, ao abrir os olhos, depara-se com uma outra mulher de rosto arredondado e com um sorriso angelical. Jovem, bonita, tem traços conhecidos e pode ouvi-la bem baixinho algo parecido como: ¨Ela vai ficar boa, papai... ¨ Olha em direção a porta e vê, novamente, o rosto masculino com quem tanto sonhara.

A injeção a fez dormir.

Não sabia por quanto tempo dormira. Acordada, pôde perceber que seu quarto continuava num tom de amarelo - quase palha. Levanta e segue para o corredor – era a sua casa mesmo - pensa. Não tinha sido transportada para um mundo irreal e ao caminhar naquele imenso corredor, encontra a porta de um dos quartos pintada de verde.

Não resiste e entra sem bater. Lá encontra uma decoração moderna, jovial contrária do quarto em que estava.. Sem saber o que realmente está acontecendo com ela, percebe que na cômoda existem vários porta-retratos e em todos eles seu rosto! Sem querer acreditar, pôde ver cada fase de sua vida – ela era mãe daquela mulher que há pouco aplicara-lhe uma injeção e aquele homem era seu marido – concluiu espantada.

Na sala todos reunidos. Ela chega, olha para aquelas caras sorridentes e, com uma voz fraquinha diz: ¨Hoje tive um sonho daqueles, sonhei que era jovem e estava ocupando o quarto verde de Laurinha e que de repente tudo se transformava em amarelo. Uma voz rouca lhe responde: Amarelo ouro minha flor!

E todos sorriem: o marido, a filha, a amiga e os três netos com as suas respectivas esposas.

Todos lá estavam para comemorar seus setenta anos de vida.


Paulo Francisco

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