Sentido II (Eu adoro cinema)



Sempre fui, hoje um pouco menos, rato de cinema. Quando criança, a minha melhor diversão nos finais de semana era assistir a um filme; nem mesmo os parques de diversão e ocasionalmente uma lona de circo, tiravam de mim, o ritual domingueiro. Era batata. Não queria saber o que estava passando, se era um épico, um faroeste, um romance, uma comédia ou um suspense. O que importava mesmo era estar lá, sentado naquela poltrona de madeira, com o colo cheio de guloseimas. Não piscava, não olhava para os lados.

Aquela tela branca a minha frente, em poucos minutos, se transformaria num outro mundo e eu não podia perder nem mesmo os riscos, as ranhuras do desenrolar da fita no começo de tudo; Aquela tela branca se transformaria, em pouco tempo, num túnel mágico. Um mundo totalmente desconhecido eu conhecera a cada domingo; lugares inalcançáveis, para um guri cheio de imaginação, estavam ali, bem a frente. Foi com os filmes que conheci lugares fantásticos, pude ir ao deserto e sofrer junto com o caubói enterrado na escaldante areia desértica; transportei-me a Roma, à Grécia. Vesti um pesado elmo, arrotei com os musculosos bárbaros depois de devorar uma ave assada no meio da floresta, após uma sangrenta batalha; andei a cavalo, dirigi os carros mais incríveis. Pulei na cadeira de madeira no mesmo ritmo do cavalgar dos camelos, com meu turbante branco. Fui à China e lá me tornei um espadachim, conheci um foguete por dentro, pude pisar em planetas sombrios. Conseguia todas as belas mulheres que cruzavam o meu caminho e o caminho dos agentes secretos, companheiros daquelas tardes cheias de suspenses. Quantas mulheres lindas me hipnotizaram em closes criados exclusivamente para mim. Eu jurava que aquela piscada de olhos, aquele inclinar de cabeça num ângulo perfeito, era só para certificar que eu estava ali, parado, paralisado com a pipoca congelada em minhas mãos próxima a boca aberta e certamente salivando. Eram, exclusivamente, pra mim! Eram verdadeiras deusas da beleza e da sensualidade. Também sofria com alma feminina, quando abandonadas, por algum mau caráter. Invejava todos aqueles que as podiam beijar.

Coração disparado, respiração presa, olhos cerrados, mãos nas bochechas à espera de um susto quando o homem fosse sair da cortina para estrangular a bela moça, ou simplesmente, ficava à espreita num beco ao fog londrino, ouvindo o toc-toc de seus saltos, num ritmo cadenciado. Gargalhadas incansáveis com o meu magro e o meu gordo preferidos, numa imagem acinzentada que até hoje aparecem em meus pensamentos malucos. Poderia ficar aqui citando vários momentos adoráveis, naqueles verdadeiros teatros de projeção.

Poderia detalhar, passo a passo, cenas perfeitas, lugares fantásticos, uns alegres e quentes, outros, sombrios e frios, mas o que importa mesmo, foi que o cinema me deu emoções, que o mundo real jamais me proporcionaria. Eu adoro cinema.

Paulo Francisco

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