Sentido IV (O cheiro guardado)





Todas as vezes que chove, no final de tarde, fico esperando sentir o cheiro de terra molhada, o cheiro da infância de um moleque travesso, que andava descalço e, não muito raro, chegava com cara de choro, com o pé levantado com algum objeto perfurante preso a ele. Todas as vezes que chove fico à espera de um odor que não mais sentirei. Tem certos cheiros que só sentimos na infância. O cheiro peculiar da tia velha por causa do excesso de pó de arroz é um exemplo.

Quem não tem um cheiro especial, guardado em sua mente, que lembra a sua infância? O cheiro do livro novinho comprado, com certo sacrifício, pelos meus pais, jamais esquecerei. Da mesma forma o cheiro de anil no lençol branco ao dormir. Como era gostoso o cheiro da galinhada com macarrão aos domingos.

Talvez aquele cheiro estivesse relacionado com a bagunça de todos os adultos reunidos à mesa e, nós – os moleques, sentados no sofá e poltronas com a televisão ligada numa algazarra só.

O cheiro da minha infância é especial: tem cheiro de goiaba no pé, manga espada derrubada, jamelão e graviola roubados. O cheiro da minha infância é especial: têm brincadeiras, batata doce assada na fogueira.

O cheiro de minha infância é especial: tem a Aninha e um beijo roubado de um moleque travesso.

Está guardado, em minha mente, todo o cheiro da minha existência e lá no fundinho dela tem guardado, especialmente, o cheiro de um moleque que adorava sonhar.


Paulo Francisco

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