Catalepsia



Perdeu todas as cores. Acordou sem sangue, ele estava pálido, morto-vivo. Seu quarto, antes colorido, encontrava-se invadido por uma claridade que o impedia de identificar qualquer coisa. Tudo era estranho; tudo estava muito estranho. Cego, pela intensidade daquela luz leitosa, permanecera congelado – não movia um músculo – por segundos eternos.
Ao fundo, em algum lugar, cantos gregorianos chegavam como complemento de sua angustia. O som cada vez mais forte e mais melancólico, deixava-o cada vez mais perdido naquela imensidão branca. Sem saber o que fazer, tentou gritar e, para seu desespero, não saía nenhum som de sua garganta. Tentou levantar, mas sua cabeça pesava toneladas, igual a suas pernas e braços – ele não se movia, estava paralisado diante do nada.
Sem argumentos; sem perspectivas; sem o cheiro das flores; sem o olhar amigo, ele fecha os olhos e, em lençóis encarnados, viaja para o desconhecido.
O seu silêncio era branco.


Paulo Francisco

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