O pecado

Em passos furtivos, caminhava em direção ao proibido. Guiada pela luz da lua ia ao encontro do seu desejo.
Trêmula, respiração presa, não podia ser flagrada por quem deixara em seu quarto.
Duas da manhã. Seu coração batia mais forte que o relógio de madeira na parede da sala. Lá estava ele à sua espera - moreno e timidamente coberto por um tecido fino e delicado. Ela, em desespero, esbarrara e deixara cair uma peça metálica ao chão. Não pôde evitar o barulho da peça no assoalho frio. Silêncio – ele não acordara. Respirou aliviada e foi ao encontro daquele que a esperava.
Seus lábios molhados, seus olhos brilhantes denunciavam o quanto o desejava – era o seu pecado. E quando suas mãos agitadas, mesmo no escuro, conseguiram alcançá-lo, quando ela pensou que ele seria todinho dela, um clarão surgiu naquele ambiente de meia luz e um grito de reprovação ecoou por toda parte:
- Míriammmmmmmm!!!!!!!!
A pobre mulher, ao virar deparou-se com seu marido assustado à porta.
Sem poder fugir de seu delito, não esboçou nenhuma reação que possa confundi-lo. Cabisbaixa e envergonhada, devolveu a travessa de bolo de chocolate a mesa e com os olhos fixos no chão viu seus pesados e gordos pés voltarem para cama, enquanto o seu desejo permaneceu no mesmo lugar à espera de ser devorado no café da manhã.


Paulo Francisco


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