O homem

Saiu de cena à francesa.  Ele era mestre em desaparecer no melhor da festa.  Sempre fora assim. Nunca gostou de multidão; nunca soube lidar com o excesso. Seu amor era miúdo, calado, nada de explosões em noites sem lua.  Homem de poucas falas, ouvia com os olhos e respondia sempre com um sorriso nos lábios. Seria um debochado, se não fosse tímido. Ninguém mais o viu. Dizem que viajou – foi para o interior, construiu uma casinha no mato e lá permanece a conversar com os pássaros, enquanto espera o resultado do cruzamento de flores exóticas. Outros já acham que ele nunca mais saiu de casa – continua no mesmo lugar, confinado por causa de um amor perdido. Os exagerados afirmam que ele ganhou na loteria e se escafedeu, caiu no mundo em cruzeiros e jogatinas. Os tenebrosos acreditam que o desaparecido aderiu a uma seita clandestina e está se preparando para destruir com o Opus Dei.
Há quem diga que ele simplesmente morreu.
Há quem diga que ele nunca existiu.
E nesta confusão criada eu pergunto:
 - Quem é esse que eu inventei?
Eu mesmo respondo:
 - Não sei.


Paulo Francisco

5 comentários:

Paula Barros disse...

Seu texto me lembrou que às vezes a gente se desconhece, ou não se reconhece.
bjs

may lu disse...

Lindo! Gostoso de se ler... Gostei do "Homem de poucas falas, ouvia com os olhos e respondia sempre com um sorriso nos lábios." O vejo com um doce olhar.
Grande beijo!

Marly de Bastos disse...

kkkkkkkkkkkk Nem eu, mas Freud diria que ele é o seu lado mais remoto, aquele que não se dá a revelar.
[espero ter ajudado a desvendar o mistério]
bjkas doces e boa semana

Rô... disse...

oi Paulo,

saudades daqui,
não sei o que houve que seu blog sumiu das minhas atualizações,
mas vou tentar saber...
muitas vezes eu também não sei,
parece que desapareço diante da minha própria imagem...

beijinhos

Milene Lima disse...

Quem é? Quem sabe? Nem ele se sabe, eu acho. Toda hora pensa ser um alguém, depois desiste... E segue.

Eu gostei desse homem que nem se sabe direito.

Beijo.