A maçã

A menininha tirou do bolso de meu casaco o meu segredo: a maçã escondida.

Guardo comigo as lembranças de minha infância em papel de seda roxo: bruxas e fadas, maçãs e poções mágicas, heróis e vilões, apaches e caubóis, padres e vampiros, fantasmas e casarões antigos – ficávamos hipnotizados, ouvindo a mulher gorda e caolha a nos contar histórias antigas e assombrosas. Descobrimos a eletrostática, antes mesmo, de irmos à escola – ficávamos de cabelos em pé ouvindo a velha senhora com a sua voz rouca. Medos escondidos de olhos fechados em quartos escuros. 

O menininho sentia dor, era intenso o seu lamento – era quase um mantra do desespero. Os seus olhos lacrimejantes e sua face pálida nos pediam socorro. E mesmo estando o menino aconchegado ao colo de sua avó, sua imagem era de sofrimento e abandono. Eu não aguentei a dor exposta, sou covarde às dores alheias, retirei-me em silêncio por sentir-me inválido diante do invisível. Voltei ao trabalho com pesar. Voltei para a minha realidade menos sofrida.

As minhas dores eram intensas. Chorava miúdo, andava pequeno e curvado. Meu choro era seco – um verdadeiro lamento. Lamentava-me por não ter o colo de quem eu amava para aquecer-me e curar-me naquele momento de dores intensas e invisíveis. Caminhava a passos curtos à procura da cura.

Em meu quarto, somente a penumbra me entendia e acariciava-me com mãos que afagam. Em tempo de dor, o sol permanecia lá fora, bem longe de meus olhos chorosos. A solidão, naquele momento, era a maior dor do mundo. Menino perdido num tempo ditado por uma linha dura.

Quando ela chegou, acompanhada de sua mãe, com ele nos braços, e entregou-me como se fosse um fardo pesado demais pra elas, eu chorei. Chorei pela dor existente; Chorei pela negligência velada; chorei pela distância provocada. Acalentei-o até a sua dor passar. Emprestei meu colo para aquecê-lo, cantei música de ninar até o sono chegar. O amor cura mais que tudo – ele pode curar o mundo; ele pode curar-me também.

Quando elas voltaram para apanhá-lo, ele já sorria - estava mais forte e muito mais bonito. Chorei miudinho, choro abafado, pra que ninguém escutasse a saudade guardada de uma vida inteira. Fiquei ali, vendo-os afastarem-se mais uma vez de mim. Horizonte perdido aos olhos de quem ama. O sol deu lugar para lua e as estrelas solidárias cobriram e aqueceram o meu corpo pálido. Deitei-me no colo materno e fui acalentado por mãos que curam.

A avó se mantinha calma diante da dor do netinho. Acalentava-o, com voz de passarinho - admirável amor avoengo.

A menininha, toda maquiada - se achava mocinha - comia pelas mãos pacientes de sua avó. Eram colheradas de amor pra alimentá-la por toda a vida. Avito-amor.

As correntes se arrastavam naquele terreno que um dia foi senzala – escutávamos os elos rangerem na voz da velha gorda contadora de histórias. Nossas caras assustadas e nossos corpos encolhidos, naquelas noites frias de lua azulada, eram a recompensa que a caolha esperava. Nossos medos, sua alegria.

Tudo era mágico, até o banho de tanque pra tirar o pretume de um dia de futebol e pipa. Mãos calejadas que esfregavam sem dó o corpo de menino-sujinho. Mãos de avó, sabão e muito choro hidrofóbico, compunham aqueles finais de tardes de estios. Retrato da vida em preto e branco – lembranças jamais esquecidas.

E, naquela tarde, a menininha deu-me tchau e sorriu. E, naquela mesma tarde, o menininho não chorou mais – acabaram as suas dores tão sofridas e reais.

E, naquela noite de lua alaranjada, retrocedi na minha linha do tempo, sai da condição de pai e virei filho e, neste caminho, encontrei-me neto e franzino; descobri-me amado, levado, triste e feliz. Sentimentos turbinados por ventanias repentinas.

E, sujo ou limpinho, eu tinha todo o carinho do mundo, mesmo com pesadas palmadas na bunda - registros do bem e do mal – a escolha era sempre minha. Se as mereciam? Aí já é outra questão. Não vou dá, agora, a minha mão a palmatória.

Olhei para o meu casaco pendurado no cabide e fui até ele sorrindo, tirei de dentro de seu bolso, o meu segredo: a maçã que tinha guardado escondido da menininha. Mordi-a e a saboreei com muito gosto todas as minhas lembranças. A menininha devolveu ao bolso de meu casaco o meu segredo: Lembranças embrulhadas em papel de seda.

Paulo Francisco

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