A visita

E esta chuva que não passa! Quem não já usou esta frase, pelo menos uma vez na vida.

Quando criança a primeira chuva do ano era sagrada – todos no quintal pulando de alegria – dizia minha mãe que dava sorte. Quando a chuva demorava a chegar, eu ficava olhando pro céu procurando uma nuvenzinha de esperança.

Brincar nas poças, fazer guerra de quem molha mais o outro – tudo vira brincadeira, quando se é criança.

Quando via que estava chovendo granizo, corria para o meu filho e gritava: ¨ Olha João,que lindo!¨ 

Tornava-me mais criança que ele. Granizo tem forma de infância; granizo é a prova que podia, também, chover canivetes. Você duvida? Eu não duvidava – acreditava. Acreditava que naquele momento de sol e chuva, uma viúva estava se casando. E como seria o casamento de viúva? me perguntava – ela usaria branco ou preto? Danava-me a rir.

Preto e branco. Até muito tempo a chuva para mim era branca. Mas, com o tempo, percebi que pra muitos a chuva era de cor escura, cinzenta, de cor preta. Mas não era aqui em nosso país - dizia para os amigos da escola – É lá ¨no¨ Estados Unidos, vocês nunca viram nos filmes que quando morre alguém por lá, logo chove?. E eles: ¨ehhhhhhh!¨

A chuva sempre foi mágica. Só consegui ver o filme que todos comentavam , quando criança, do ator dançando na chuva, depois de muito tempo. Fiquei na expectativa da chegada do ponto alto do filme - a dança. Confesso que fiquei frustrado e pensei: ¨ Poxa! É porque ainda não viram a gente aqui da rua dançando na chuva ¨

E esta chuva que não passa! Quem já não usou esta frase, pelo menos uma vez na vida. Eu mesmo, hoje, já a usei, impacientemente, umas três vezes. Já olhei para o relógio uma dezena de vezes; para o telefone umas tantas. É que hoje, já não danço; não faço barquinhos e sei que canivetes não caem do céu. É que hoje, sei que as viúvas não se casam – namoram e, que no final do arco íris não tem um pote de ouro. É porque hoje tenho pressa.

Mas como nem todo mundo se deixa contaminar, lá estava ela, ensopada, tocando a campainha.



Paulo Francisco


2 comentários:

Paula Barros disse...

Texto bom que nos leva a dançar por lembranças.
beijo

lis disse...

Minha memória navegou pelo quintal da sua casa_ de alguma casa molhada.
sou eu ,tocando a campainha.
Porque chuva sempre me doí.