- Bota outra!!!!!

Começo do fim. Sempre acreditei na possibilidade de um novo amanhecer. Nunca durmi achando que lá fora está negro. Pra mim estaria sempre azul. Mesmo com minhas manias exageradas em alguns aspectos, sempre dormia pensando que teria bons ventos e dia claro ao amanhecer. Acordava e a primeira coisa que olhava era pro céu. Verificava sempre se o céu estrelado de ontem correspondia a certeza do prenuncio de um dia bom do hoje. Era batata, dia bom. Tomava o meu café rapidinho. Trocava de roupa e pegava os meus apetrechos: linha enrolada numa lata de leite em pó e duas pipas por garantia. Esquecia-me da vida olhando pro alto. Ficava ali horas com a pipa no ar. Comunicávamo-nos através de fios e imagens.

Guerreávamos através de linha, bambu e seda. O importante era eliminar o outro, pegar o seu espaço, tornarmo-nos donos do pedaço. Ou você elimina o outro e deixa seguir perdida no ar, onde sempre terá um observador à espreita que fará de tudo para conquistá-la, ou você vence e traz pra si a sua presa totalmente dominada – neste caso, você é obrigado a deixar o espaço para admirar o seu troféu e uma outra ocupará o vazio.

Pipa voada é de qualquer um. Ganha quem é mais rápido nas pernas e braços. Mas nem toda pipa voada chega ao chão. Algumas ficam a vagar por aí, umas ficam presas em galhos altos, fios e telhados alheios, outras passam de mão em mão.

Dificilmente saía de casa desprevenido. Muito raramente carregava somente minha lata de linha, tinha sempre comigo, pelo menos, uma pipa confeccionada por mim. Não gostava de nada pronto, fascinava-me fazê-las – tinha tempo pra perder. Construir uma pipa é imaginar seu tamanho, suas cores e suas possibilidades. Pipa pronta, geralmente tem defeito, foi passada por outras mãos em sua construção – tem vícios e sempre é uma surpresa. Bom pra quem só quer se divertir sem maiores objetivos – não se importa em perdê-la.

Uma no ar e outra no chão. Estratégia de não ficar com a mão abanando. Se a minha saísse voando por aí, aparecia com outra no ar rapidinho, para que ninguém pegasse o meu espaço – não chorava pelo leite derramado, a que voou estava livre pra fazer o que quiser: cair onde quiser, ficar presa em algum galho de árvore ou vagando em outros céus.

O bom daquilo tudo era a surpresa de cada dia. Nunca sabíamos como seria o nosso céu. No final da tarde, poderíamos estar com uma coleção de pipas ou somente com a que levantamos voo no começo do dia ou simplesmente com a lata de linha na mão. Qualquer uma destas opções fazia parte do jogo.

Mas o fim era sempre o começo de um novo dia. O importante era não perder a esperança de um próximo dia bom, porque sempre terão pipas no céu.

Então eu dizia que a temporada de pipas no céu era sempre o começo do fim, por isso nunca deixei de sorrir.



Paulo Francisco

Um comentário:

may lu disse...

Que lindo! Doce sabor de infância. O começo do fim Lhe lhe fazendo acreditar, sonhar... Gravando no rosto do homem o sorriso do garoto.
Grande beijo!