Muito mais que romântico

Ela era tudo que eu tinha. Eu não entendia os meus sentimentos. Afinal, eu era tão menino ainda. Eu não consegui entender o porquê do tamanho daquele desespero. Afinal, era tudo tão proibido. E tinha em mim, um medo tão latente e verdadeiro de perdê-la antes de tê-la, que me fazia sofrer e ao mesmo tempo sonhar.

Ela era a senhora de meu bosque encantado; a feiticeira bonita que mudava, num zás, o meu corpo infanto-juvenil, num corpo de um homem aflito e impulsivo.

Aprendi desde muito cedo a velar e a segredar o proibido.

Ela era tudo que eu tinha – dor sem fim. Eu sabia que meus braços jamais a alcançariam de outra forma senão em abraços ternos. Minhas mãos jamais a pegariam senão em caricias secretas.

Contentei-me, por muito tempo, a existência de sua nudez vertiginosa em gozos roubados em tardes escondidas. Mas, um dia a gente cresce; um dia se descobre que nada é impossível quando há amor, quando há alma atrás da carne.

Ela era de uma forma ou de outra, o inalcançável, mesmo estando inteira em minhas mãos.

Meu primeiro amor, minha primeira dor. Meu primeiro pecado, minha primeira vertigem.

Até então, eu não sabia que a alma doía.

Hoje teclo neste computador a dor da alma. Minha alma dói, ela dói por não ser inexistente; ela dói por estar pálida; ela dói por não ser volátil; ela dói por estar compacta.

Minha alma dói, simplesmente dói.

Escrevo o que vem de mim, e o que vem não é o pensamento de ontem, não é o que virá de uma certeza medíocre, de uma rotina imposta, de um amanhã sabido. Teclo o que tenho hoje, teclo neste imediato confuso; teclo neste instante em que vivo; teclo neste agora registrado pelo barulho do dia, anunciando que em pouco tempo o sol irá embora.

Ela ficou triste com a minha partida repentina.

Minha respiração está fraca, muito fraca - é necessária que ela esteja assim – fraca, quase ínfima - para que o ar engolido pelo meu corpo não apague as marcas entranhadas em minha mucosa rubra e brilhosa.

Eu não quero isso nem aquilo. Quero muito mais ou tudo isto.

Cuidadosamente, eu a seduzi e me tornei seu pecado original. Foi belo, foi eterno, foi celestial. Todos os medos e todas as transgressões no olho de um furacão emocional.

Respiro lento, cuidadosamente lento, pra não desmanchar as cicatrizes pálidas que se encontram, em alto-relevo, na minha derme exposta.

Ainda tenho, em minha carne pálida, cortes abertos, feridas mortas, marcas de minha sobrevivência, sangue em efervescência. Eu tenho em minha carne registros de minha existência, tatuados em nomes invisíveis.

Nesta máquina gelada, transfiro o que há em meu peito, que por hora, encontra-se quente, em borbulhas de interrogações doidas. Ah! quem dera eu pudesse apagá-las!  Mas se apagadas, desintegro-me também. Sou a minha própria marca. Sou refém de mim mesmo.

Sim, você pode até achar que tudo isto é um lamento. E é. Sou construído de camadas, mas não sou casca; sou preenchido por fluidos – líquidos que transbordam sentimentos reversos.

Se eu tenho ódio? Sim. Se eu tenho amor dentro de mim? Claro que tenho! Tenho ódio e  amor  em convivência aflitiva e deles tento sobreviver neste exato instante. Turbulência caótica em desejar e amar; em querer e poder.

Sou gente e meu sangue é escuro e denso. Sou humano. Sou Homo sapiens de sapiência em construção.

Não me condene antes de saber de mim, se sou ou não o carrasco de seu viver. Não me aponte antes  de descobrir se a imagem vista é o seu real obscurecer.

Lá fora, chove neste final de tarde, água imprópria que cai em minha porta, impedindo-me de ver o cair do sol. Quero sair daqui e ao mesmo tempo, quero ficar. Quero terminar o que escrevo e ao mesmo tempo, tenho medo de que o texto chegue ao fim. Dicotomia vivida, encruzilhada perdida.

Escrevo palavras soltas, frases que não se encaixam, escrevo o que está dentro e fora de meus olhos.

Olho para as minhas mãos e percebo um leve tremor. Talvez seja o temor da dor, da insistência em querer ficar por aqui. Sinto dor.

Estou vivo. E é neste viver insólito que a minha alma dói. Dói neste exato instante de lucidez. Dores finitas que chegam, em fisgadas finas e quentes, à minha carne já enfraquecida.

Sou o homem são que ao ver o mundo, silencia-se para esquecê-lo.

Viajo em trilhas perigosas onde garras afiadas se armam para um futuro ataque.  Eu voo e escapo dos dardos envenenados deste mundo tramado.

Tu não me sabes, mas eu te sei.

Escorrego pelos fios da teia da aranha. Deslizo-me no ácido viscoso da mosca. Agarro-me no aguilhão do escorpião, adormeço no ninho da Naja.

Guardo na memória desta máquina fria o que transborda pelos meus poros: calor, dor, amor e paixão. Paixão pela vida; amor pelo próximo, mesmo a grandes distâncias.

Teclo em fúria produzida pelo descaso humano. Desnudo-me de mim. Torno-me o sereno que molha as calçadas por onde o vagabundo passou.

Em minhas mãos, desenho o punhal que cortará o cordão que liga as dimensões inequívocas entre nós.  E, aí, duas pontas surgirão e flutuarão no vácuo de nossa existência; dois cordões crescerão e se tornarão cabos de aço que sustentarão os vagões de nossas vidas. Eles se interligarão em outras dimensões: a dimensão da razão e a dimensão da emoção. Seremos um todo e como tal frutificaremos o nosso pomar.

Ela é tudo que eu tenho.  Teclo o meu imediato, o meu pensar e o meu pesar. Teclo e registro o óbvio: se não o faço, não vivo.

Ela é tudo que eu tenho – a esperança é tudo que eu tenho. Afinal, sou adulto e sei que com ela tudo é possível.


Paulo Francisco

Um comentário:

Marlene disse...

Bom dia amigo Francisco venho agradecer sua gentil visita e ler estes textos ou poemas seus que são maravilhosos quando se fala de amor de sonhos de vida e saudade tudo vira poesia ainda mais para quem como voce
tem a alma de poeta livre iluminada
florida enluarada abençoada por Deus um grande abraço amigo com carinho marlene