Outro céu

Não estamos no mesmo céu. Não sei até quando o meu céu permanecerá neste azul. Talvez eu queira transformá-lo em outra cor. Quando adulto, passei um bom tempo de minha vida sem olhar para o alto. Não tinha perspectiva de mudança do tempo. Estava tudo sempre muito cinza, carregado de demência.


Às vezes, passamos uma boa parte de nossas vidas presos ao chão e, é necessário um furacão para nos tirar de tamanha adesão.

Já estava achando que a aderência existente na sola de meus pés era do tipo não sai mais. Mas que bom que era de má qualidade e pude descolar-me deste piso frio com sopros alísios, sem muito esforço. Então, pude viajar em ventos fortes. Já permaneci em calmaria; já suportei o controvento em minha cara. E nestes ventos variados conheci alguns céus.

Quando em cárcere, o céu não passa de uma pequena tela em movimento – nos deixam estáticos. Quando livre-cigano, ele é multicolorido, tem ritmo, tem dança – faz-nos viajar em outros ares. Sou, neste momento, um caçador de ventos. Guardo-os em lembranças.

Com o vento viajei por aí, sem destino, rindo, apaixonando-me por pessoas e coisas. Hoje estou menos à deriva, mas não estou fixo. Posso ir em busca de outros céus; de outros mares; de outras montanhas. Deram-me asas.

Não estamos no mesmo céu. Minhas nuvens estão sempre por aqui, em véus, posso pegá-las com as mãos. Brinco de faz-de-conta neste meu mundo particular. Posso transformá-lo num azul mais anil, acinzento quando preciso, faço chover, desenho um sol, ele pode ficar denso ou posso deixá-lo mais transparente, salpicados com pequenas nuvens de algodão.

Não, definitivamente o meu céu não é igual ao seu. Este seu céu é único, verdadeiro.Tem ritmo de tango. É faceiro. É Buenos Aires. É desejo. É vontade.

Este teu céu em ouro, cega-me, de tanto olhá-lo.

Definitivamente, Paula Barros, este teu céu é melhor que o meu.

Um comentário:

Paula Barros disse...

Paulo, quando olhei a imagem, lembrei que eu tinha fotografado um céu assim, muito parecido, em Buenos Aires, não lembrei de imediato que você já tinha colocado num texto.
Pelos seus textos, ultimamente, tenho me reapaixoando, tenho lido, apreciado, e cada vez gosto mais.
Obrigada!
beijo