Mochila, aspirina e João Cabral de Melo Neto




Todos os dias eram primavera. Aos nossos olhos, as cores se derretiam como bolas de sorvete.No final da tarde, esperava as balas cor de rosa em formato de boneco que meu pai nos trazia para a nossa doce alegria. A guloseima cobria como confete as dores de nossas travessuras.

Neste tempo de estações indefinidas: se faz calor se faz verão; se faz chuva se faz outono; se faz vento se faz inverno - vou colorindo a vida conforme a tela surgida.

Olhei pela janela e vi um quadro pintado – nada se mexia; nenhum assopro fantasmagórico que pudesse balançar as folhas das árvores e indicasse que lá fora ainda havia vida. Estava tudo parado. O calor estava insuportavelmente quente. Arrastei meu corpo quase morto até o chuveiro e deixei a água bater infinitamente em minha cabeça num ato de desespero. Socorro, eu preciso sair daqui – pensei sonolento e dormente.

Quando verão, a água era a salvação sempre. Doce ou salgada, era ela que enrugava os nossos corpos até o cair do sol – ainda não se falava em buraco ou camada de ozônio e o nosso filtro solar era uma pasta d água que nos deixava com cara de boneco. Palhaços aquáticos correndo na areia e se divertindo em brincadeiras infantis.

Voltei para a janela numa esperança ventilada. E nada acontecia. Nesse dia eu soube o que poderia ser uma catástrofe climática. Não podia dar mais que alguns passos. Eu estava como diziam os mais antigos, entrevado. Sim, eu estava en-tre-va-do, im-pos-si-bi-li-ta-do a grandes movimentos. Minha coluna tinha travado uns três dias antes – fiquei acamado e irritado. Injeções, antiinflamatórios e relaxantes musculares não estavam surtindo o efeito esperado ou desejado. Ai de mim, pobre de mim. Só me restava o lamento intercalado de um riso sofrido.  Era impossível usar a máxima: relaxe e goze – será que a Marta conseguiria?

O que mais me aborrecia era ficar com algum tipo de enfermidade que me prendesse em casa e não pudesse compartilhar a minha dor com os mais próximos.  Lembro-me de quando a catapora, o sarampo e principalmente a caxumba chegaram a minha casa e a todos nós – eu e minhas irmãs ficamos hospitalizados a domicilio. Sentimos juntos a essas e as outras dores – as virais e as espirituais. Irmãos unidos de corpos e almas – nas alegrias e nas tristezas mesmo que em intensidades distintas. Sempre há aquele que aguenta mais as dores da vida. Dos três, eu era o mais cascudo. Era tralha. Deixava minha mãe de cabelo em pé. Não tinha doença que me fazia ficar quieto, sempre arrumava um jeitinho de burlar o tédio.

O quadro se repetia: primeiro a dor no estômago, em seguida a coluna e depois a sinusite. Não, não seria como no ano passado que os efeitos colaterais foram piores que a própria enfermidade. Não mesmo. Segurei as outras dores e evitei tudo àquilo que pudesse agravá-las e permaneci deste lado do atlântico isolado e mudo. Sem elas para solidarizarem com as minhas dores cíclicas. Já não sou mais tão forte as porradas da vida. Mesmo burlando as dores em prosas e poesias, ainda preciso de amparo mesmo que seja de frases feitas.

Pronto. A coluna foi se endireitando, o nariz secando e o estômago se acalmando. Corpo são - alma leve, alma leve - cara alegre.

Olhei pela janela e nenhum movimento que pudesse indicar que o tempo melhoraria. Estava quente e abafado. Nenhuma nuvem indicava que choveria. Corri para o quarto, vesti uma bermuda e em dois tempos estava eu a sombra de uma árvore tomando o máximo de cuidado para que os respingos da cachoeira não molhassem o meu antigo e fascinante João Cabral de Melo Neto – cito-o:

¨Num Monumento à Aspirina

Claramente: o mais prático dos sóis,

o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos

da lente do comprimido de aspirina: 
acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.¨

Hoje, olhei para fora da janela e senti o vento em minha cara. Já sem dor, meus olhos reconhecem todas as cores brilhantes da mata atlântica; minhas pernas obedecem aos meus comandos e minha alma, independente, quer voar além das montanhas - gosto desse jeito que ela me empurra pra vida.

Todos os dias eram primavera. Ainda os são. Basta querermos.

Na mochila pouca coisa. Saio, hoje, seguindo o sol e quiçá abraçando a chuva.

Só não posso esquecer-me de levar a aspirina e os companheiros de João Cabral de Melo Neto – carrego-os com carinho neste meu caminhar sem destino certo.

Até a volta.





Paulo Francisco

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