No fundo da gaveta




Menos é mais. Liguei para uma amiga e ela estava arrumando o seu guarda-roupa. Quando falei que organizo a minha mente quando arrumo o meu quarto, ela me respondeu que só estava dando um jeito na bagunça provocada, pois já tinha doado e trocado muita coisa durante a semana e que estava tudo bem com ela e com ele – o quarto.

 Descobrimos que não nos apegamos a roupas ou a qualquer outra coisa material. Doamos muito. Constatei também que é normal as mulheres trocarem roupas e bijuterias entre elas. Homem não troca nada, ou ele doa ou ele joga fora.  Homens que vivem sozinhos aproveitam as camisetas velhas para pano de chão, mas só depois, é claro, de usarem as surradinhas como pijama.

Sou minimalista. Atento-me para detalhes, mas odeio excesso. Talvez não quando escrevo, mas na vida certamente. Olhei ao redor e percebi que à minha casa é diferente daquelas que visito, tem poucas peças, sem frescura, é quase básica. Há algumas obras nas paredes ou no canto da sala, mas não encontrei nenhuma referência de minha infância agitada ou de minha família distante. Nenhuma lembrançinha de viagem, nada que me remetesse a algo em particular. Guardo as lembranças boas dentro - no coração. Visto minha alma com cartões postais da vida. Sou retalhos de lembranças costuradas à mão. Minha saudade é de aeroporto, minha esperança é de quem chega e a tristeza é de quem parte sem saber se um dia voltará. Sigo sem olhar para trás, caso contrário, acabo não indo. Lágrima me paralisa. Lágrima me enfraquece - ela é a minha Kriptonita. Torno-me fraco e incapaz. Então não chore, sorria sempre.

Retorno a minha história em passos lentos, em viagens finitas, com olhares calmos, sem brilhos lacrimejantes, sem suspiros de arrependimentos, sem vontade de ficar. Sigo em frente naturalmente.  Viajo nu e, nu, permaneço até o ponto de chegada.

Faz parte de minha natureza ter o mínimo necessário. Sou feliz com o que tenho.  Não me imagino um acumulador de coisas. Jogo fora antes mesmo de obtê-las. Olho para algo e penso num segundo em comprá-lo, mas no segundo seguinte já o descarto de minha vontade. Desse jeito vou ficando leve, dando passos largos, chegando mais rápido, levando a vida.

Estava doido de vontade de vê-la, queria tê-la logo. Estava ansioso, um adolescente na sua primeira transa: as pernas tremiam, os músculos  de meu corpo todo estavam enrijecidos, o suor frio escorria pela camisa e a boca seca gritava por saliva.

Não a descartaria jamais, guardá-la-ia por todo o sempre. De certo, faria um poema todas as manhãs antes do café e deixá-lo-ia na bandeja, debaixo do guardanapo de linho. Gosto, gosto muito de provocar surpresas boas. Mas não foi assim que aconteceu. A banda destoou, desafinou no coreto da praça. A tuba engasgou e o surdo rompeu. Oposto a mim, ela era uma acumuladora. Acumulava desesperanças, acumulava desgostos, acumulava brigas, acumulava desconfianças. Ela se excedia nos movimentos, não percebia os detalhes. Causou-me estranheza tamanha disritmia.

Tentei seguir em frente, numa tentativa inútil e teimosa. Mas quando disse que na minha vida, menos é mais, ela não entendeu a frase ou, possivelmente, não era o que queria ouvir e acabei tornando-me mais um em sua coleção de coisas descartáveis.

Juntei-a com as outras más lembranças guardadas numa gaveta obscura escondida num quarto sombrio e frio. Mas a qualquer hora terei que esvaziá-la. Afinal, eu insisto em dizer:

 - Menos é sempre mais em minha vida.


Paulo Francisco





5 comentários:

Ivone disse...

Poeta sensível, menos é sempre mais, concordo contigo, a Vida em si é tão rica, quando sentimos a beleza nas coisas mais simples, aí sim é que fica bem, leveza, na alma, no coração, sem acumular, sem ter de ter muito mais coisas para nos absorver!
Amo o minimalismo também, adoro viajar, poder conhecer lugares, me desapegar.
Amei ler, abraços e tenhas uma linda semana!

*Escritora de Artes* disse...

Olá caro amigo,

Saudades das suas palavras...me identifiquei tanto, menos é sempre mais!

Abçs

nelma ladeira disse...

Oi Paulo eu hoje não estou boa para fazer comentários.
Desculpa, amanhã eu faço!

Vim agradecer a sua visita.

Te desejo uma linda e abençoada noite!

Rô... disse...

oi meu amigo,

não sei porque suas atualizações não aparecem mais na minha página...
mas apropriadamente vim hoje,
não importam muitos comentários,
mas os verdadeiros...
acredito muito nisso...
muito bom te ler,sempre...

beijinhos

nelma ladeira disse...

Concordo com você!guardar coisas velhas,ou coisas do passado em seu coração,só te faz mal.
Achei lindo!Seus texto me prende acho muito bom!
Boa tarde,beijinhos.