Tudo ou nada a ver

Um dia desses, estava esperando o ônibus, encostado à parede, lendo um livro, quando percebi que todos que ali estavam tinham a mesma cara – de tédio.

Ninguém gosta de esperar. A espécie é aflita. Todos querem chegar logo ao seu destino, seja ele seu lar, sua escola ou trabalho. Não importa se o destino é agradável ou não. O mais importante é chegar, chegar logo. O homem não gosta de ficar parado; ele não pode ficar parado – ele se desequilibra e cai.

Na vida temos que chegar a algum lugar.

Quando é domingo eu quero que chegue logo a sexta. Mas como não é possível pularmos de um dia para o outro. Eu faço de cada dia o meu domingo.

Vivo a minha manhã sem pensar na tarde. A minha tarde é inteiramente exclusiva, nada de pensar na noite. Mas quando sou coberto por estrelas, não penso em mais nada a não ser em vivê-la intensamente. Não, não preciso estar acompanhado, às vezes minha companhia me basta. Gosto de estar comigo mesmo. Não sofro de consciência pesada. Faria Yoga tranquilamente se não fosse tão preguiçoso. Adoro pensar e recordar tempos passados, sem o tão mal falado saudosismo. Lembro-me de que:

Numa dessas noites de pseudodomingo, quando esperava uma amiga, me peguei com cara de tédio, parado, quase caindo.

Estava totalmente distraído quando, do outro lado da calçada, passou tão bela quanto antes, uma feiticeira. Não, não estava bêbado, não tinha fumado nada fora da validade, era ela, a feiticeira do meu coração.
Feiticeira que me deixou esperando sem nenhum aparato para recostar-me.

Feiticeira que hipnotizou minha alma e fez dela sua serva.

Feiticeira que transformou meus sentimentos em um só – angústia.

Feiticeira que depois que usou jogou fora.

Mas como já disse, a espécie humana não sabe esperar. Mais uma vez a feiticeira me hipnotizou, deixando-me paralisado, grudado naquela parede branca. Coração acelerado e boca seca. Tentei gritar seu nome mais a voz fora guardada num pote mágico.

Ali, preso a brancura existente, totalmente atônito, vi quando a bela feiticeira seguiu em sua vassoura céu adentro. Juro que vi.

A moça chegou um pouquinho depois do acontecido, salvando-me daquele feitiço. Sorri, peguei-a pela cintura e fomos para a nossa festa à fantasia – era a minha primeira festa à fantasia na casa de um amigo.

Ela estava vestida de fada e, como era de se esperar, eu estava vestido de prisioneiro.


Paulo Francisco

2 comentários:

Paula Barros disse...

Ah, Paulo, tão bom ler teus textos. Sorri com a sua fantasia.
E numa pausa do trabalho, impressora a gritar atônita, Fagner no rádio, e eu aqui lendo.
beijo

lis disse...

Salve salve a musa do seu coração que te faz tão poeta!