Ao vento

Lembrei-me, no meio do caminho, que eu não passei o filtro solar.  Voltei para aplicar aquele creme denso pelo corpo. Principalmente na cara e no pescoço.  Têm certas coisas que temos que fazer mesmo não sendo de nosso agrado.  Poderia enumerar uma dezena de coisas que faço sem a menor vontade de fazê-las. Mas não é o caso citá-las agora.

Não gosto de me esquecer das coisas. Mas esqueço.  Esqueço onde deixei à chave da casa, a carteira de documentos, as contas a serem pagas. Esqueço-me de almoçar, de comparecer a uma festa no meio da semana...  Esqueço-me de tudo. Ou de quase tudo.

Em algum lugar o inesperado fala comigo:

- Paaauuulo! Tudo bem com você? Há quanto tempo... Você não mudou nada...

Respondo sem graça:

- Oi... tudo..., você também não mudou...

A conversa continua e eu fico ali, querendo me lembrar de onde eu a conheço, qual o seu nome... e porque aquela pessoa sabe tudo de mim e eu não sei nada sobre ela. Já me acostumei com esses meus esquecimentos. Acho que fui sempre assim – não lembro direito quando comecei a esquecer-me das coisas. 

 Pessoas passam em minha vida como o vento no meu quintal.  Não guardo nomes, não guardo rostos. Eu guardo histórias. Não, não sou um ser frio, um ser desmemoriado, simplesmente não guardo em mim o que não pode ser transformado.

Num encontro marcado, ela colocou as mãos em meu rosto e falou como se estivesse falando com um pobre coitado:

- Ahhhhh você está barbudo, já não corta o cabelo há meses e suas roupas estão largas... Mas eu reconheceria você a quilômetros de distância. E continuou olhando pra mim com olhos de piedade.  Ela tentou, só tentou me transformar num ser menor. Uma estratégia de quem sabe que não vai ganhar o jogo: Enfraqueça o oponente, segure-o pelo seu ponto fraco e esmague o pobre coitado calmamente. Mas eu já conhecia a tática perversa empregada pela moça. Não funciona comigo.

Depois das frases envenenadas o abraço ficou frouxo, o beijo ficou seco e os meus olhos enxergaram além de seu ombro.  Eu não guardo faces. Eu guardo frases, paisagens, histórias. Eu não tinha mudado tanto a ponto de ser confundido com um mendigo. Ela tinha me inventado depois de muito tempo de ausência? Esquecera as minhas cores verdadeiras? Desenhou-me com a sua paleta de cores? Ou seria eu um camaleão?

Num mesmo dia, frases chegam e rostos desaparecem:

- Paulo você está ótimo! Anda fazendo o quê da vida?

- Paulo... tá tudo bem com você? Tem certeza? Estou achando você tão cabisbaixo...

- Paulo, cada vez que te encontro te acho mais animado...

Sigo o meu caminho esquecendo as máscaras, criando histórias, colecionando frases.

No quintal da minha casa o redemoinho chegava bagunçando tudo. Começava lento, pequeno, quase imperceptível.  Mas de repente levantava as folhas, enrolava os lençóis, fazia barulho.  Seria eu o único a presenciar o nascer dos redemoinhos? Ou outros pequenos olhos testemunhavam o espiral de poeira levantando folhas secas?  Meus olhos brilhavam, meu corpo pulsava tão rápido quanto aquele fenômeno repentino.  Procurava por Dorothy e seu cachorro totó.  Viajava no redemoinho como se ele fosse o ciclone indo para Oz. Das histórias eu nunca me esquecia. Talvez por serem as únicas coisas que eu tinha de verdade naquele momento de sonhos doces.

Quando a olhei bem de perto, tête-à-tête, eu a vi além de seus poros. Testemunhei em mim o nascer de um redemoinho sanguíneo.  Hemácias, leucócitos e plaquetas, dançaram no meu plasma em ebulição. Certamente eu estava vermelho. Meu rosto fervia. Meus olhos vermelhos me denunciavam. A minha voz embargada anunciava a minha fraqueza, gritava o meu medo. Eu estava exposto, sem a máscara de bandido, sem a capa do herói. Eu estava nu, descoberto, do avesso. Não me lembrava até aquele encontro de seu rosto, ele tinha desaparecido de minha mente como uma fotografia antiga em preto e branco – um proposital esquecimento de defesa criado pela minha alma, mas não tinha esquecido a nossa história guardada no fundo da gaveta.

 Os redemoinhos se formam, levantam coisas, mas não conseguem levar tudo. Eles não levaram as imagens impressas por sinapses em meu cérebro.

Quando cheguei à minha casa, enrolei-me no lençol, na tentativa de abafar, de prender, de desmanchar o redemoinho existente em mim. Eu esquecera, naquela tarde, de me proteger contra as ventanias repentinas. Quase me transformei numa folha morta e quebradiça. Por pouco não me desintegrei; não me transformei em poeira arrastada pelo vento.


E antes de dormir, enrolado em meu lençol, eu chorei, chorei por ter me esquecido do óbvio.



Paulo Francisco




2 comentários:

teca disse...

Não sei nem o que dizer... lembrar de tudo é sobre humano... ma alguns detalhes que marcam... ahhhhhh... esses são indeléveis!

Feliz Natal para você, sua família e amigos.
Beijos e flores.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Faz muito tempo que te perdi as letras tão bem escritas que nem precisam de retoques nem de bases.
O nosso modo de vida e também os anos vão fazendo gravuras na nossa pele e também na alma o que nos deixa por vezes fora da realidade.
Esquecimentos imperdoáveis...

Tenho dias em que refilo muito com a outra parte...então ? Não vês que a tua visão se mantém ainda nos verdes anos da tua vida...?

Somos todos iguais e nem as melhores vitaminas nos repõem a frescura de outro tempo que ainda guardamos interiormente.

Gostei do texto e de te ter reencontrado.
Um abraço e votos de Boas Festas