Intimidade

Estou alguns dias sem falar com ela. Sem telefone, sem email, sem qualquer tipo de comunicação. Não, não brigamos, ela gosta de se isolar em alguns dias do mês. Ainda não descobri ao certo se eu sou o motivo deste distanciamento ou se sou poupado deste momento atemporal. Simplesmente respeito este comportamento. Não é violação, é o seu jeito de ser.

Engraçado, quando estou chateado com alguma coisa, também me enclausuro. Mas sempre tem alguém com quem quero estar junto, mesmo que seja ao telefone.

Impossível nos isolarmos de todo. Cobrimos a cabeça e os pés ficam descobertos. Não tem jeito, faço-me de rogado, mas sou dependente de mãos macias e cochichos na orelha.

Tenho que ter algo pra me agarrar, eu não sei nadar, preciso de coletes salva-vidas. No sol, uso filtro solar e na sombra, me agasalho.

Enquanto lá fora, as nuvens denunciam dia frio, aqui dentro, me sinto aquecido. Meu coração é o meu termômetro de mercúrio. Além das batidas corriqueiras, ele transmite para o resto de meu corpo a temperatura existente. Neste exato momento estou o que sou – homeotérmico.

Mesmo distante, percebo sua presença em sombra. Talvez, ela me vigie em sonhos. Seu medo é minha certeza e, a minha certeza é a condição de me sentir em brisa, quase calmaria.

Gosto da sensação de ser desejado por alguém que ao mesmo tempo tem medo de se achegar. Dá uma vontade danada de dizer: se achegue bichinha! Não tenha medo não viu!

Não é fácil se doar. Podemos doar um sorriso, uma mão estendida, mas o coração é algo muito precioso para doarmos assim, temos que ter certeza. E neste caso, não é uma doação simplesmente – é troca; é escambo.

Não aparento, mas sou calmo pra certas situações. Neste caso, em particular, estou tranquilo. A minha moderação é a certeza que tenho em mim. Eu disse em mim e não de mim. O que isso quer dizer? Simples! Eu tenho certeza de meus sentimentos – não estou me divertindo. Estou feliz.

Mediante o fato, eu espero. Fico aqui lendo, ouvindo músicas, teclando. Recuperando-me de um probleminha aqui outro ali. Sem pressa. Levando a vida não na flauta, nem muito menos no vai da valsa. Mas vou levando, em minha rede, em minha caminhada, em meus devaneios.

E quando sentir saudades telefone!



Paulo Francisco

10 comentários:

Milene Lima disse...

Bonito. Bonito demais! Você canta seus sentires de um jeito muito macio... A gente nem sente quando já leu e se encantou.

Um abraço.
Tomara que ela telefone.

Ivone disse...

Lindo demais ler isso aqui, sua alma se abrindo assim, sei como é isso de estar esperando a pessoa amada ligar, chegar, bem descreves poeticamente!
Abraços e tenhas um lindo fim de domingo!

Van disse...

Oi Paulo

Tão desprovida de angústias esta sua espera, tão macio este seu texto, lindo, suave, amoroso, compreensivo.


Beijos

nelma ladeira disse...

Oi Paulo,lindíssimo texto!Realmente eu comecei a ler,e acabei com vontade de ler outra vez.
Amei beijinhos.

✿ chica disse...

Lindo,Paulo! Que bom te ler! Tinha perdido a conexão contigo!!! Vou adicionar na lista do feedly, pra te acompanhar! abração,chica

Marly de Bastos disse...

Então Paulo acho que é esse o equilíbrio que todos buscamos, tem tão relapso e nem ansioso.
Quando algo encafifa no nosso ser, a gente tem que se recolher, pensar, matutar, refletir, buscar respostas e ter em si a certeza de que do seu lado tudo vai bem,com ou sem o telefonema dela Isso é amor próprio meu caro.
bjkas doces e voltei, por uns dias, tempos ou anos, não sei.

Anne Lieri disse...

O amor não é para se forçar.Tudo é livre,no tempo de cada um.Lindo seu texto,Paulo! bjs e boa semana,

Moisés Augusto Gonçalves disse...

Íntima dignidade...!

LUZ disse...

Oi, Paulo!

Quanto tempo! Nem eu, nem você, né?

Seu texto exprime ou não uma realidade, que você descreve, na perfeição. Aliás, você é um escritor nato, tanto em prosa, quanto em poesia.

Então seu "coração" está de férias, ou lhe deram "descanso". Também precisa, vamos lá ser realistas.

Cada um de nós, precisa de ter o SEU ESPAÇO, para pensar, se movimentar e renascer, como as flores na Primavera, ou seja, para sermos nós mesmos.

Adorei o termo "bichinha". Quanta ternura!

Boa semana.

Beijos da Luz (você já nem lembra mais de mim, ou será que lembra)?

Catia Bosso disse...

Ter a tal calma é algo invejável...


Saudades daqui...

bjsMeus
Catita