Sensatez

Todas as vezes que falam dela, lembro-me de um ambiente à meia-luz, com fumaça e eu dançando próximo à sua face. Dizem por aí que não havia essa penumbra que os meus olhos viram e a fumaça não era tão densa como descrevo. Mas ilusão de ótica ou não, foi assim que os meus olhos a registraram. Dane-se o resto!

Era sempre assim numa discussão: Eu nunca tinha falado aquilo que ela julgava ter sido dito e jogava em minha cara como verdade absoluta. Irritava-me a interpretação livre que ela ou elas sempre fizeram de mim. Eu era um incompreendido?  Minhas entrelinhas eram óbvias demais?  Possivelmente a transparência fazia parte da minha delação. Um problema pra quem não queria ou não gostaria de ser revelado. Isto nunca mudou e não mudará nunca. Talvez seja uma das ranhuras do meu encaixe perfeito.

Os seus olhos borrados expurgavam o mais íntimo de seus sentimentos. Quando eu os vi, fiquei com os meus tão molhados quanto. Nunca mais esqueci a imagem de sua paixão. A minha era somente de comiseração. 

Ela sabia quando chorava eu voltava sempre atrás. Até que num certo dia de chuva intensa, quase me afoguei naquele sentimento crocodiliano. Voltei à tona em desespero e me dirigi à margem contrária. Fui viver do outro lado do rio... e por muito tempo...  transformei-me em mero espectador dos sentimentos alheios  - uma forma de proteger-me do que era, em mim, proibido. 

Olhos verdes, cara redonda, cabelos ao vento, sorriso infantil e um copo de uísque na mão. Guardo-a assim, num registro fotográfico de minha lente mental.  Uma lente infantil, mas com olhos de lobo que sabia o que via. Mulher da vida que todos queriam por um instante.

Ela falava e seus olhos a desmentiam. Era tudo tão falso que eu não conseguia mais ouvi-la, somente lia sua imagem distorcida. Era tudo tão feio que tive medo. Corri para a minha casa pra desfazer o erro. Fechei janelas e portas e ali fiquei até não mais vê-la em meus pensamentos – extingui-a de mim em penumbras e quartos escuros.  Sobrevivi ao fio da navalha. Não estava preparado para uma batalha interna. Gosto da leveza dos ventos, mesmo sendo pedra. Eu era seixo que rolava seguindo a correnteza.

A penumbra e a fumaça densa, vistas por mim, eram reflexos de um momento vivido? Até hoje, pergunto-me o porquê da sensação da morte que não demorou pra chegar. Ela simplesmente partiu. Foi para o céu se transformando em estrela. Mais uma, num céu de mulheres feridas.

A sua paixão era tão forte que o suicídio foi o único caminho encontrado?  Até hoje, pergunto-me se aquelas lágrimas já faziam parte de uma despedida numa viagem sem volta. Ela partiu sem me dizer adeus.

Foi um acidente? Ou as doses de uísque embaçaram os seus olhos verdes, não a deixando ver qual direção tomar? Simplesmente se foi pra nunca mais voltar.

E nos encontros e desencontros, suas vidas permaneceram presas em conceitos toscos e promessas não cumpridas. Foram guerreiras invisíveis numa sociedade mentirosa e machista.

A sua simplicidade causava-me a complexidade de um furacão. Não conseguia entender a reviravolta interna que ela transformava em mim com um simples sorriso. Amor velado, desejos guardados. Eu estava muito verde para querer estar no mesmo cesto que ela.  Eu fazia parte de outro ciclo.  Caminhos paralelos ao infinito seguindo a mesma direção – a vida. Ela era feliz e carregava consigo uma harmonia de dá inveja.  Perfeita aos meus olhos e impossível ao meu coração.

Outono e inverno; primavera e verão. Quatro estações e, cada qual, com o seu tempo definido. E por que não?  Sentimento de deleite também é uma forma de amar. Admirava-a e invejava aquele que poderia tê-la além de seus olhos.

Desorientado fiquei quando o círculo de fogo se fechou impedindo-me de seguir o caminho pretendido.  Mas até o fogo tem os seus antagônicos. A chuva chegou e o vento me orientou. Venci o inimigo e conquistei mais uma batalha em minha vida. Era o outono cobrindo o verão numa transição já conhecida.

Encontro-me num hiato e nele permaneço pelo tempo que for necessário. Vago num vácuo de uma existência permitida. É importante que seja assim. Banho-me em águas pesadas pra tirar de minha pele as marcas cascudas cravadas a sangue frio.

Não rejeito e nem me queixo das cicatrizes adquiridas. Numa guerra, obviamente, há mortos e feridos. Ainda continuo indo à luta – estou vivo. Mas nesse exato instante é necessário o descarregamento; é necessário o esvaziamento; é necessário o distanciamento; é necessária a renovação. Limpo meu corpo e minha alma. Desintoxico-me dos vícios adquiridos. Retiro de mim os sentimentos incrustados, para tornar-me livre e capaz de recomeçar.

Confesso, por sua causa, sou um ex-suicida.


Paulo Francisco



4 comentários:

Artes e escritas disse...

Você tocou no problema social da bebida alcólica, um sério problema dos dias de hoje. Um abraço, Yayá.

✿ chica disse...

Belo olhar sobre a vida e agora sem a fumaça e cortina! abraços,chica

Paula Barros disse...

O recomeço nem sempre é fácil. Bem escreve alguns processos que precisamos para recomeçar.
abraço

Silenciosamente ouvindo... disse...

Conheço um srº. de cerca de 40
anos que a mãe já gastou milhares
de euros em clínicas privadas
numa tentativa de cura do seu
vício do álcool e até agora ainda
não viu resultados satisfatórios.
Também há muito quem explore,através destas situações.
Se não tem dinheiro é um desgraçadinho...se tiver é bem
explorado e nem sempre se obtém
resultados muito satisfatórios.
Bom post.
Bj.
Irene Alves