Questão de gosto



















Sorvete de abacaxi com coco - mistura que me apetece. Tem algumas misturas que são uns achados. Coisa que a gente faz e, mesmo não tendo um visual bonito, tem um sabor ímpar. Quando falo em mistura, não falo somente em sabores e cores, falo também de mistura de gente. Aquela mistura nos bares no fim de tarde, onde se encontram pessoas sedentas por chopes e, numa confraternização alucinada, só se percebe alegria e muitas gargalhadas, é um exemplo – gosto deste jeito carioca de se misturar que encontramos em todos os bares do Brasil.

Já frequentei com mais assiduidade locais que na época não pertenciam a minha geração – adorava madrugadas em serestas e violão. Causava estranheza aqueles senhores e senhoras, vendo uma pessoa tão jovem sentado num balcão, tomando uma cerveja e cantando todas de Assis Valente, Lupicínio e Dolores Duran. Quantas e quantas vezes saí de um show progressivo e caí nas graças de um bar pra ouvir um violão ou um piano e muita bossa nova. Sempre gostei de me misturar. Nunca andei em linha reta.

Hoje, prefiro admirar a fazer parte de confraternização com mais de quatro pessoas – estou mais para jantarzinho, cineminha, teatrinho e aconchego do lar do que qualquer coisa – mas, já tive os meus momentos de tribo; de alucinações grupais e momentos totalmente zen.

Gosto da espuma do mar se misturando em borbulhas efervescentes na areia e os dedos de meus pés curvados para baixo, cavando displicentemente esta areia molhada; gosto da beleza misturada, embolada, de suas pernas nas minhas.

O cheiro de eucalipto tão próximo ao urbanismo é uma mistura que minha cidade tem. A dama da noite que me acompanha em minhas madrugadas, misturando-se aos meus pensamentos, é uma mistura inconfundível. Gosto da mistura de nossos perfumes, o meu seco se adocicando ao dela. Gosto da mistura de gostos que fica em minha boca depois de estarmos juntos.

A mistura de sol e chuva me fascina da mesma forma que sorvete de abacaxi com coco me apetece. Os raios do luar banhando uma taça de morango e seus olhos iluminando os meus, são desejos misturados que me ambicionam.

Paulo Francisco



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Incompatíveis



As palavras sobrevivem ao amor. Já me apaixonei algumas vezes, já falei, gritei palavras de ordem, já me agarrei aos adjetivos e deles fiz poemas. Declamei e declarei-me aos seus olhos. Mas como eu sou melhor com as mãos do que com as palavras, e isto é certo, faço das carícias minhas palavras soltas e com os meus beijos frases perfeitas.

Meu silêncio amoroso é a minha constituição.

Estava eu ali, calado, em perfeita harmonia com os meus sentimentos. Aquele quarto de hotel se transformara em minha varanda, a cama em minha rede e ela a brisa que me impulsionava em desejos e sonhos. Deixei a realidade lá fora.

Vermelho era o seu beijo.

Vermelho era o seu céu.

Vermelha era a sua paixão.

Vermelhos éramos nós.

De repente a palavra rasgou o silêncio existente e o que era belo se transformou num inferno.

Ela exigia de mim o que eu não podia lhe dar:

Ela queria palavras ditas, eu só tinha palavras sentidas.

Ela queria ouvir, eu queria sentir.

A transparência ditava as regras e nós sabíamos. O que fazer quando o que ela queria era o que eu não tinha pra lhe dar?

Enquanto pra mim, naquele momento, os desejos sobreviviam a tudo, pra ela,  as palavras  sobrevivem sempre.

E o silêncio se fez presente: ela de um lado e, eu do outro.

Vermelhos eram os seus olhos.

Vermelho era o meu ódio por não saber mentir.

Pois é, descobri que as palavras, mesmo falsas, sobrevivem a tudo, até mesmo ao caos.

Eu queria sexo. Ela queria sonho.




Paulo Francisco



Arranjo






Ainda há flores em meu jardim.  Quando eu pegava uma flor não era para despetalá-la em mal-me-quer e bem-me-quer, e tampouco cheirá-la somente; quando  arrancava uma flor do jardim era para oferecer a alguém. Sempre presenteei com flores as mulheres amadas. Rosas, flores do campo, tulipas, orquídeas, margaridas e lírios. Flores de todas as cores para todos os meus amores. Levava flores ¨retiradas¨ do quintal da vizinha para professora- querida – fui, certamente, alfabetizado, para amar. Oferecia margaridas para a vizinha de olhos verdes, escolhia as rosas mais bonitas e esperava que a minha amada secreta as encontrassem no café da manhã – uma maneira aromatizada de dizer bom dia.

Acho que nunca vou deixar de mandar flores, salvo para aquelas que não gostam e se recusam a aceitá-las – a essas,  presenteio com doces: chocolate, por exemplo. Não ofereço flores em datas especiais – não gosto de competição - presenteio em dias comuns, em momentos distraídos. Gosto de assustar com flores.

Entrei na floricultura e escolhi uma orquídea branca, mandei entregar em sua casa na hora em que eu estava na estrada, voltando pra casa.  Saber que mesmo distante,  posso estar proporcionando alegria à mulher amada, é, também, prazeroso pra mim. Gosto de surpreender com flores.

Quando chegou e viu a sua sala enfeitada com flores do campo, telefonou-me gritando: - Te amoooooo¨. Era um amor momentâneo; era um ¨ te amo ¨ passageiro, mas o que valia era o instante daquele amor regado a pétalas e a aromas florais.  Chuva instantânea de pétalas amorosas.

Mandei entregar dois vasos de orquídeas, sem cartão, no dia de seu aniversário, na hora em que estava reunida com as amigas. Sabia que a reunião ferveria de mentes curiosas, querendo saber de quem veio as flores. Neguei que tinha sido eu até o último momento. Só para sentir a sua curiosidade. Amigo secreto escondido em seu jardim.

Mas nem todas as mulheres gostam de buquê de flores. Têm aquelas que não gostam delas cortadas, preferem as que podem ser cultivadas em vasos. Uma namorada me disse: ¨ - Ah, elas duram tão pouco em ramalhetes. Prefiro-as no vaso, assim eu posso cuidar delas por muito mais tempo e depois plantá-las no jardim¨;  Outras não gostam de flores de jeito nenhum. Essas, como eu já disse anteriormente, querem doces – não me perguntem o porquê da escolha. Amores com cobertura de chocolate.

Todo bobo, mandei entregar vasinhos com violetas em sua casa. Uma semana depois, todos os vasos  estavam secos e as flores mortas. Eu não sabia que cuidar de planta era tão sacrificante assim. Cultivar amor era um sacrifício e tanto. Coitada, está sozinha até hoje, pois, não consegue sustentar por muito tempo uma relação. Aula de jardinagem seria bem apropriado: arar, arejar o solo e deixá-lo rico em sais de amor. Caso contrário, a aridez é certa em seu coração.  

Gosto de sentir a maciez aveludada de suas pétalas. Seria Botânico se não fosse Zoólogo; seria Jardineiro se não fosse Entomólogo. Mas há interação entre elas. Há interação entre nós dois. Somos jardim e jardineiro em perfeita harmonia.

Não me importo se querem ou não, eu levo flores, gosto deste acompanhamento em minhas relações.  Gosto deste método de polinização.

Escolhi rosas, rosas de todas as cores e mandei entregá-las junto com o café da manhã. Gosto que sintam pétalas cristalizadas na ponta da língua.

Uma coisa é certa. Nenhuma delas me perguntou se eu gostaria de receber flores também. Ma se me perguntassem, eu responderia: - só não gosto de doces.

Mas tudo bem, ainda há flores em meu jardim.


Paulo Francisco

Amar




"Não ameis à distância!" A frase não é minha. É de Rubem Braga. Ele fala em sua crônica: ¨...a carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu na semana passada.¨ Mas pensando bem, há relações que estão tão desgastadas em que o sentimento do outro chega tão atrasado que parece ter feito uma viagem de navio. Que o Rubem Braga pensaria dos sites de relacionamentos? Acredito que ele diria ¨Ainda assim, não se tem o olho no olho.¨ A imaginação humana é fértil. Podemos imaginar o que quisermos e acreditar nesta imaginação. Somos capazes de idealizar um amor e transformá-lo em nossa razão de vida.

Podemos quixotear por aí? Acredito que muitos que estão nestes sites de relacionamento estão  à procura de seu Dom Quixote ou de sua Dulcinéia. São pessoas que acreditam na possibilidade da alma gêmea; da outra metade da laranja.Outros procuram respostas por ter uma vida vazia, sem sentido. Muitos só por diversão.


Conversando com uma amiga ela me disse que encontrou um camarada,  ficou muito tempo de namoro na internet e depois passaram para o telefone e quando se conheceram de verdade, mesmo não sendo tudo aquilo que ela pensava dele, ficaram juntos por uns cinco meses. Ela ainda afirmou: ¨ Ele foi muito importante naquele momento, minha auto-estima estava baixa e com aquele envolvimento eu pude sair de uma crise. ¨ Pessoas, como essa amiga, não estão na internet pra brincar, pra fazer sacanagem. Estão ali para tentar diluir um sentimento ruim, uma fase negra.Acreditam na possibilidade de um amor. Acho válida esta aproximação através da máquina.


Num dia desses, acabei ouvindo uma conversa no ônibus de dois camaradas. Falavam de tudo, principalmente do negócio novo que os dois estavam entrando – seriam sócios num estabelecimento comercial. Papo vai, papo vem e acabaram entrando numa conversa sobre família e um deles acabou dizendo que conhecera sua esposa através de um site de relacionamento. Tinha uma filhinha e o casamento já durava três anos. Admirável a história do homem. O que o Rubem Braga diria deste caso? Ele continuaria com a mesma opinião? Acho que não, talvez com toda essa parafernália tecnológica, com o preço da passagem de avião mais barata que a do ônibus, dá para encarar uma aventura dessas sim.


Contrario Rubem Braga e lhes digo: Amem, amem de qualquer forma, de perto, à distância, porque o importante é deixar fluir este sentimento tão nobre e tão difícil de administrar. Assim,repito Vinicius de Moraes: ¨ E que seja eterno enquanto dure.¨ Não é mesmo?



Paulo Francisco

Comigo

Ultimamente, estou andando sozinho. Mas não o sozinho de caminhar por aí. Não, não é esse tipo de solidão que já faz parte de mim. É um sozinho de alma, de companhia amorosa, de estar com o coração acelerado pela ginástica de amar, de ficar bobo em outdoor, de andar nas nuvens e catar estrelas. Sim, ultimamente eu estou andando sozinho de amor.

A chuva me faz companhia, as estrelas me visitam, a lua me ilumina, mas ainda assim eu me sinto só.

O vento me lava o corpo, o sol me queima a pele, o mar me arrepia, mas ainda assim eu me sinto só.

Escrevo em prosa, tento na poesia, escuto canções, busco emoções, mas ainda assim eu estou só.

Grito mil vezes: Ela não ter quer mais!

Grito mil vezes, mil vezes eu grito: Nunca mais! Nunca mais!

E mesmo assim ainda continuo só, triste, amorosamente triste e sozinho de amor.

Não me diga que estou valorizando a minha dor, que me torno ridículo quando falo desse amor abandonado. Não, não diga por aí que a minha tristeza e solidão são passageiras, pois, somente a minha alma sabe o peso da dor que ela carrega - dor da falta, do vazio, dor da perda. Somente a minha alma sabe o peso de tudo isso. Somente ela pode me dizer que tudo é passageiro. Somente ela pode me açoitar até a morte. Somente ela pode ressuscitar-me deste vazio de cor. Minha alma, minha vida.

Enquanto a tristeza permanece, e nada de novo acontece, eu fico aqui em frases desfeitas, espanando as cinzas do corpo, engolindo vento, dobrando o céu e guardando estrelas.

Enquanto ando por aí sozinho, caminhando pelo desconhecido, em trilhas sucateadas, procurando por outros corações açoitados, descrevo-me em cada rosto encontrado.

Enquanto eu estou sozinho, vou aproveitando a penumbra do tempo pra desenhar o meu relento. Meu corpo, meu sereno.

Afinal, quem nunca se sentiu vazio de amor?

Afinal, quem nunca sofreu de amor?

O amor preenche, transborda, alaga de emoções o coração e a vida.

O amor alivia, traz doçura, nos faz crescer. Ele pulsa.

Sem ele, o amor, ficamos alienados. Sozinhos, esquecidos, jogados na tela da vida.

Enquanto um novo amor não chega, vou aproveitando esse sentimento e experimentando a solidão em versos e prosas. Vou catarseando a dor em rimas. Expurgando o fel. Destruindo aos poucos a desilusão.

Enquanto o abandono vai saindo lento, fazendo pequenas aberturas na pele, fluindo e fazendo caminhos que se bifurcam para o rio, eu vou, silenciosamente, dizendo ao mundo, em metáforas imperfeitas, em gestos sem sentidos, em escritas tortas e indefinidas, a minha falta de amor. Vou dizendo ao mundo a falta que ele me faz.

Ah, é bom amar e ser amado. Quem não quer ser amado de verdade, sem exigências, sem punição, sem a maldita e cruel desconfiança. O amor completa.

Não, não quero um amor que me corte as asas. Preciso voar acompanhando o vento, flutuar em correntes quentes, olhar o mundo em várias direções.

Não, não quero um amor sofrido. Amor sofrido não é amor, é doença.

Cobranças! Já bastam as da caixa do correio.

Desconfiança?! Já basta a da policia na esquina.

Quem ama confia.

Quem ama entende.

Quem ama acredita.

Quem ama ama simplesmente.

Talvez eu esteja escrevendo muito rápido, sem pensar, sem procurar a palavra perfeita para a frase certa. Talvez esteja me precipitando em dizer que estou só. Poderia mentir. Disfarçar o meu sentimento com sorrisos e piadas. Mas o que adiantaria não ser verdadeiro?  Só evitariam olhares piedosos, lábios sarcásticos - a felicidade dos inimigos. E nada disso importa agora, nem mesmo o contrário disso.

Pensando bem, o que importa os outros? A dor é minha, a solidão é minha, o abandono é meu.  Não é o meu corpo que está carente. É a minha alma que grita por outra, que não aguenta a solidão existente, que precisa de céus claros pra seguir, que se alimenta de estrelas pra sobreviver e da lua pra descansar. O meu corpo não. Ele só precisa de outro corpo e isso é fácil de se obter.

Não é o meu corpo que grita. É a minha alma que chora.

Ultimamente, eu estou andando um tanto quanto sozinho. Mas mesmo assim, ouço canções de amor.




Paulo Francisco


Prazerosamente

















A chaleira apita lá na cozinha. Saio de minha mesa e vou preparar um café. Coloco o pó no coador e despejo lentamente a água quente sobre ele. Viajo naquela transformação. A água, que antes era inodora, insípida e translúcida, se transforma num líquido marrom e aromático. Desce do coador para o bule a minha vontade, a minha alquimia.

Mas a minha viagem não para na mistura do sólido ao líquido. Eu vejo que além desta transformação a água também muda seu estado físico – ela evapora – formando uma nuvenzinha dançante, frenética, quase transparente, escapando dos meus olhos e desejos. Não ligo. O que eu quero está aprisionado no bule.

Olho para a xícara e para a caneca e, resolvo apoderar-me da caneca. Ela cabe mais café e, eu, estou sedento de vontade.

Volto para o escritório e começo a sorver lentamente aquele líquido quente e marrom. Sorvo em goles pequenos. Degusto-o como se fosse o mais sagrado dos líquidos.

Nem amargo, nem muito doce – ele está perfeito no sabor e na temperatura. Deixo tudo que estava fazendo pra ficar ali soprando aquele liquido quente e admirando minha vista da janela lateral. Ali vejo casas, pessoas, carros, montanhas e um céu alaranjado.

Deixo o líquido aquecer minha língua e garganta, percebo quando chega a meu estômago. Cada gole, um dever cumprido, uma vontade saciada.

E no último gole a surpresa no fundo da caneca, aquele liquido, nem amargo e nem doce, se mistura ao açúcar que sobrara, ofertando-me, naquele último gole, uma pasta morena cheio de afeto.

Saciado, volto à cozinha e, devolvo a caneca ao seu lugar, mas antes, lavo-a com a mesma água que antes se transformara em café e vapor.



Paulo Francisco


¨



Esconderijo

Nesta manhã de nuvens chorosas me guardo em pensamentos. Dia de contemplação. Contemplo o teu olhar guardado em mim.

Em manhãs cobertas por véu de noiva me deito em sonho. Transpasso meu sentir e chego do outro lado do pote de ouro. Em manhãs assim, desvario. Faço e refaço caminhos. Chego até você.

Sempre fui um grande viajante do tempo. Minhas viagens eram transcendentais. Viajava em naves espaciais com ETs criados por mim – nunca eram tão feios como nos filmes. Conseguia me ver em grandes caravanas em zonas áridas – verdadeiros desertos.

Cresci e não consegui me livrar dessas viagens transcendentais. Passaram a ser mais coloridas, mais alegres - mas eram ainda minhas viagens.

Mais tarde, já adulto, pareceu-me que este lado aluado de pensar acabaria. Que nada, ele se transformou em pensamentos desejados. Vontades a serem adquiridas - Passei a escrever. Criava paisagens, sentimentos, rostos e amores. Criava, inventava. Era real dentro das minhas possibilidades. Minha invencionice tinha relevo, curvas, brilhos e muita, muita, muita cor. Tornei-me pintor de mim mesmo.

E nestas manhãs de nuvens chorosas me guardo em abrigos. Sou mais pó. Sou fácil de ser levado ao léu. E pra que isto não aconteça, penso em asas e correntes termais. Transporto-me para além das montanhas; pra além das nuvens densas. Para além de pensamentos esquálidos. Transporto-me em luzes suaves de ton-sur-ton. Chego ao meu destino em pouso tranquilo. Deito em seu colo. Durmo em seu peito.

Mas pra que tudo isto aconteça, em dias assim, tenho que ter o seu olhar dentro de mim.

Nestas dias de nuvens chorosas me guardo em ti.



Paulo Francisco

Secretamente sim

¨ Me Leva com você¨.

Ao ler o poema dela senti uma vontade imensa de responder. Mas não podia naquele exato momento expor os meus sentimentos – estava poluído. Sim, estava poluído de outras ideias e não queria que tais pensamentos interferissem no meu pensar.

Ao ler o seu poema, senti o desejo de estar bem juntinho dela, de seguir com ela em pensamentos coloridos; sorrir com os olhos, dizer baixinho em sua orelha palavras de amor.

Sim, senti uma tremenda vontade de responder aquele poema - responder de mansinho; seguir de mãos dadas em caminhos naturais de pedras. Passear em ruas de janelas e portas coloridas. Ah! Mergulhei em suas palavras e agarrei-me em seus pensamentos. Desejei tê-la, tê-la como o pássaro tem o céu; tê-la como os peixes têm o mar; tê-la só pra mim.

Quando li o seu poema, eu sorri. Sorri com os olhos. Abracei seu coração bem apertado. Vi a lua crescendo em cores, o mar em furta-cor, o céu azul carregado de estrelas. O ar, o ar me tocava da mesma forma que a tocava: man-sa-men-te.

Sim, caminhei em ruas de pedras, becos e esquinas pensando nela.

Sim, segurei sua mão e a levei para meu coração.

Sim, repeti baixinho suas palavras de amor.

Sim, gritei em seu silêncio e escorri pelas suas veias.

Sim, carreguei em meus braços e a trouxe para mim.

Quando eu a li, viajei no imaginário; viajei na poesia da alma; viajei em barco a vela. Caminhei em estradas floridas e mergulhei em águas frescas.

Tem poema que nos invade de maneira avassaladora. Tem poema que nos transporta para um mundo virtual e tão real. Tem poema que nos faz acreditar que foi escrito exclusivamente pra nós. Tem poema que nos acaricia com beijos. Tem poema que nos cobre em cores e grita o nosso nome ao mundo.

¨Me leva com você¨.

Ao ler o seu poema senti uma vontade imensa de dizer a ela:

- Sim, venha comigo, que eu te darei todas as cores e gritarei seu nome ao universo.

Leve-me também com você!



Paulo Francisco



Revés






Acordei e não estava em minha casa. Meu joelho direito doía, minha canela esquerda ardia. Sangue escorria perna abaixo. Meu ombro doía. Não era transparente a caixa em que dormia, não havia flores dentro dela. Havia terra em minha cara, minha boca doía. O ar não chegava com facilidade aos meus pulmões.
Levantei e tentei chegar do outro lado da rua. Era noite. Era madrugada. Estava frio e meu corpo ardia. Não conseguia me movimentar com a rapidez que desejava. A dor puxava meu corpo para baixo.
Sentei-me no degrau da escadaria. Urrei de dor, mas, ninguém me ouvia. Contraí todo o meu corpo sujo e manchado. Fechei os olhos e me esqueci do mundo.
Acordei aliviado.  Ainda me encontrava vivo. Andei lento e desesperadamente até o outro lado da cidade. Trôpego, tudo era grande e distante.  Não tinha tempo pra chorar, não tinha tempo pra lamentar. Queria chegar há algum lugar conhecido. A dor voltou, o ardor voltou, o desespero tomava conta de minha alma.
O céu estava negro. As ruas estavam escuras. Uma nuvem acinzentada distorcia a minha visão. Ninguém me lia.
Meus olhos inchados pediam socorro, minhas pernas pediam amparo. Ninguém me via.
Não era mais um sonho. Eu estava acordado e perdido. Zonzo, minha cabeça pesava. Era real a dor existente. Era real o sangue esvaído. Era real o sangue cuspido.
Sentei-me no banco de madeira. A caixa não era uma caixa. Era um caixão. Lembrei-me de algumas passagens anteriores ao fato ocorrido: Eu estava preso por um cordão, as flores não eram flores - eram folhas secas e quebradiças. Eu saíra de um caixão de madeira. Ainda sonhava – já não sabia.
Abri os olhos e me vi dentro de um táxi. Seguia para a minha casa. Meu corpo sofria. Procurei a chave, abri o portão, subi a escada em passos paralíticos. Engatinhei, rastejei até o meu quarto.
Urrei de dor. Desmaiei, talvez.
Acordei e percebi que estava caído no piso gelado do banheiro. Minha cabeça pesava, meu corpo pesava, minhas pernas ardiam.
Acordei e descobri que já era dia, o céu estava azul e o sol me invadia.
Acordei e descobri que tinha sido acidentado. Mas, não me lembrava em que dia.
Agora estou aqui deitado, tentando separar o delírio da realidade.
A única certeza, de tudo isso, é que tenho minhas pernas feridas, dor pelo corpo inteiro e, que acordei pra mais um dia de atropelos.


Paulo Francisco

Vou(de novo!)

Eu sabia que ela tinha sumido porque precisava se concentrar em algo muito importante. Ela tinha que canalizar toda a sua energia em seu objetivo maior. Gosto disso. Gosto de pessoas decididas, principalmente de mulheres decididas. Mas quando o seu objetivo é o amor, ela fica tímida, com medo de ser vulgar, de ser oferecida.  -  ¨ Parem de ser oferecidas meninas!¨ Minha mãe dizia para as minhas irmãs quando estavam perto de algum garoto.  Mãe conhece os filhos que têm.

Se não fossem as meninas oferecidas, eu não namoraria nunca, tamanha a minha timidez. Benditas sejam as mulheres oferecidas que rasgam a carta das recatadas e caem em meus braços de corpo e alma

Deixe a elegância pra depois, venha sem véu, venha e me faça teu. Todos sabem que escrevo ao amor, que escrevo o que tenho em mim e o que tenho em sonho. Sou um sonhador nato. Acredito em mãos dadas, olhos que brilham em desejos e bocas sedentas em beijar. Acredito em corpos colados.

Hoje  acordei com a alma apertada, estava com saudade dela, estava com vontade de amá-la, mesmo que fosse por palavras escritas, tudo bem, eu as transformaria e a ouviria em mim. Hoje  acordei assim, um tanto tango, um tanto bolero, um tanto saudoso de um futuro que está por vir.

Ontem, minha comadre Mônica me ligou e foi logo dizendo: ¨ Tomou chá de sumiço! ¨ Ri, tinha tomado sim, estava querendo ficar aqui, isolado escrevendo poemas bobos, prosas sem nexos, ouvindo o tempo gritar através das folhas frenéticas presas as árvores e barulhinho de pingo de chuva na vidraça da porta.

Mas a saudade não pode vencer-me por inteiro. Fui à luta. Fui andar por aí. Tenho pra onde ir.

Caminhei engolindo nuvens e me molhando de estrelas.  Estava um tanto desligado de tudo, como na musica dos mutantes, cantada por tantos cantores e cantoras. Viajava sem nenhum subterfúgio, simplesmente viajava, flutuava em sonhos e galopava em desejos.

Fazer o quê? Se na minha andança eu não conseguia ver nada que não fosse o seu rosto? Tem gente que mexe com a gente dessa maneira: faz-nos de gato e sapato mesmo sem saber que faz.

Mas antes que eu me transforme em couro de tamborim e seja jogado num canto qualquer da casa, vou à luta.

Dizem por aí quem vai a roça perde a carroça. Mesmo assim, vou visitar meus compadres e afilhada por aquelas bandas. Vou sim.



Paulo Francisco

Ao vento

Lembrei-me, no meio do caminho, que eu não passei o filtro solar.  Voltei para aplicar aquele creme denso pelo corpo. Principalmente na cara e no pescoço.  Têm certas coisas que temos que fazer mesmo não sendo de nosso agrado.  Poderia enumerar uma dezena de coisas que faço sem a menor vontade de fazê-las. Mas não é o caso citá-las agora.

Não gosto de me esquecer das coisas. Mas esqueço.  Esqueço onde deixei à chave da casa, a carteira de documentos, as contas a serem pagas. Esqueço-me de almoçar, de comparecer a uma festa no meio da semana...  Esqueço-me de tudo. Ou de quase tudo.

Em algum lugar o inesperado fala comigo:

- Paaauuulo! Tudo bem com você? Há quanto tempo... Você não mudou nada...

Respondo sem graça:

- Oi... tudo..., você também não mudou...

A conversa continua e eu fico ali, querendo me lembrar de onde eu a conheço, qual o seu nome... e porque aquela pessoa sabe tudo de mim e eu não sei nada sobre ela. Já me acostumei com esses meus esquecimentos. Acho que fui sempre assim – não lembro direito quando comecei a esquecer-me das coisas. 

 Pessoas passam em minha vida como o vento no meu quintal.  Não guardo nomes, não guardo rostos. Eu guardo histórias. Não, não sou um ser frio, um ser desmemoriado, simplesmente não guardo em mim o que não pode ser transformado.

Num encontro marcado, ela colocou as mãos em meu rosto e falou como se estivesse falando com um pobre coitado:

- Ahhhhh você está barbudo, já não corta o cabelo há meses e suas roupas estão largas... Mas eu reconheceria você a quilômetros de distância. E continuou olhando pra mim com olhos de piedade.  Ela tentou, só tentou me transformar num ser menor. Uma estratégia de quem sabe que não vai ganhar o jogo: Enfraqueça o oponente, segure-o pelo seu ponto fraco e esmague o pobre coitado calmamente. Mas eu já conhecia a tática perversa empregada pela moça. Não funciona comigo.

Depois das frases envenenadas o abraço ficou frouxo, o beijo ficou seco e os meus olhos enxergaram além de seu ombro.  Eu não guardo faces. Eu guardo frases, paisagens, histórias. Eu não tinha mudado tanto a ponto de ser confundido com um mendigo. Ela tinha me inventado depois de muito tempo de ausência? Esquecera as minhas cores verdadeiras? Desenhou-me com a sua paleta de cores? Ou seria eu um camaleão?

Num mesmo dia, frases chegam e rostos desaparecem:

- Paulo você está ótimo! Anda fazendo o quê da vida?

- Paulo... tá tudo bem com você? Tem certeza? Estou achando você tão cabisbaixo...

- Paulo, cada vez que te encontro te acho mais animado...

Sigo o meu caminho esquecendo as máscaras, criando histórias, colecionando frases.

No quintal da minha casa o redemoinho chegava bagunçando tudo. Começava lento, pequeno, quase imperceptível.  Mas de repente levantava as folhas, enrolava os lençóis, fazia barulho.  Seria eu o único a presenciar o nascer dos redemoinhos? Ou outros pequenos olhos testemunhavam o espiral de poeira levantando folhas secas?  Meus olhos brilhavam, meu corpo pulsava tão rápido quanto aquele fenômeno repentino.  Procurava por Dorothy e seu cachorro totó.  Viajava no redemoinho como se ele fosse o ciclone indo para Oz. Das histórias eu nunca me esquecia. Talvez por serem as únicas coisas que eu tinha de verdade naquele momento de sonhos doces.

Quando a olhei bem de perto, tête-à-tête, eu a vi além de seus poros. Testemunhei em mim o nascer de um redemoinho sanguíneo.  Hemácias, leucócitos e plaquetas, dançaram no meu plasma em ebulição. Certamente eu estava vermelho. Meu rosto fervia. Meus olhos vermelhos me denunciavam. A minha voz embargada anunciava a minha fraqueza, gritava o meu medo. Eu estava exposto, sem a máscara de bandido, sem a capa do herói. Eu estava nu, descoberto, do avesso. Não me lembrava até aquele encontro de seu rosto, ele tinha desaparecido de minha mente como uma fotografia antiga em preto e branco – um proposital esquecimento de defesa criado pela minha alma, mas não tinha esquecido a nossa história guardada no fundo da gaveta.

 Os redemoinhos se formam, levantam coisas, mas não conseguem levar tudo. Eles não levaram as imagens impressas por sinapses em meu cérebro.

Quando cheguei à minha casa, enrolei-me no lençol, na tentativa de abafar, de prender, de desmanchar o redemoinho existente em mim. Eu esquecera, naquela tarde, de me proteger contra as ventanias repentinas. Quase me transformei numa folha morta e quebradiça. Por pouco não me desintegrei; não me transformei em poeira arrastada pelo vento.


E antes de dormir, enrolado em meu lençol, eu chorei, chorei por ter me esquecido do óbvio.



Paulo Francisco




Cotidiano

Não queria outra coisa a não ser ir pra casa, mas precisamente cair em minha cama, cobrir-me por inteiro e todo encolhido dormir até o corpo levitar. Estava cansado, estava moído.

Fui trabalhar virado, mais que virado, 36 horas sem pregar os olhos. Não, não fui obrigado a ficar acordado,simplesmente o danado do sono não veio. E é sempre assim, quando ele vem, vem mesmo: os olhos queimam, não consigo raciocinar, fico leso, lesadinho, como diz uma amiga, fico na ¨capa do Batmam¨ (acho engraçado esta expressão).

Pois bem, cheguei a minha casa às duas da tarde e não vi nada além de minha cama, caí e dormir o sono dos justos. Dormir até fazer bico.

Acordei quando o dia já tinha dado espaço pra a noite, uma noite típica de outono, céu com estrelas e lua a se transformar em cheia. Fiquei ali olhando o nada, sentindo o vento brincar com as cortinas que bailavam em ¨slow motion¨. Em ¨slow motion¨, estava eu, pensando na vida num espreguiçar felino.

Sabe aqueles dias que não queremos nada além de ficar parado, quieto, sentido cada célula corporal? Como se estivéssemos conhecendo ou reencontrando cada pedacinho de nós? Pois é, fiquei assim, numa preguiça continua, num marasmo necessário.

Mas como diz minha mãe, alegria de pobre dura pouco, o telefone insiste em tocar e eu saio de meu estado letárgico e vou buscá-lo. Atendo e é um amigo convidando-me pra assistir ao jogo no bar do João. Digo não, mas a insistência é tanta que acabo cedendo. Lá vou eu, a pé, assistir ao jogo com os fanáticos futebolísticos.

Sigo tranquilo  o caminho de sempre, observando os passos apressados de uns, as conversas  agitadas de outros, os olhares acanhados de alguns, os corpos magros e gordos que passam. Sigo em passos com asas. Sigo o meu caminho a sonhar. Sigo o meu caminho num transe sonar.

Lá estavam todos, com sorriso na cara e uma cerveja na mão. O churrasco na brasa e o jogo pra começar. Lá estávamos todos assistindo ao jogo, torcendo pro gol que estava pra chegar. Lá estávamos todos, cada qual com o seu cansaço; cada qual com seus sonhos; cada qual com seus problemas, mas que ali, naquele momento, o que importava mesmo era extravasar, gritar gol, discutir a partida no final do jogo. Lá estávamos todos, eles com o jogo e eu com a poesia.



Paulo Francisco

Dimensões





Acordei e percebi que estava só. O céu estava azul, as montanhas continuavam com os seus tons esverdeados e todas as casas, ao redor da minha, permaneciam como antes – com vida.

Acordei com a sensação de que não estava em mim. Era como se eu ainda estivesse sonhando, num flutuar confuso, entre a realidade e o sonho.

Algo estava fora de ordem, da minha ordem. Não sabia ao certo o que era, mas existia outra dimensão em mim. Seria a tal quarta dimensão? Não sabia... Angustiava-me por estar no desconhecido.

Acordei e percebi que estava perdido na minha própria história. Faltava-me algo, os meus olhos não enxergavam como antes; os meus braços não tinham mais a força de uma alavanca como ontem; as minhas pernas reclamavam de dores nos joelhos, já não conseguia ajoelhar-me com tanta firmeza; já não me lembrava com tanta lucidez do que acontecera no passado. Definitivamente acordei estranho. Existia uma camada grossa e pesada de pele que me obrigava a caminhar em passos lentos e arrastados. Bloqueei-me.

Procurei inutilmente em mim, algo que pudesse dizer-me que não era eu naquele corpo. Era um corpo roto, amassado, áspero. Era um corpo cinza e pesado.

Acordei e percebi que estava só. Nada saíra do lugar, somente o meu corpo antigo não estava mais em mim. Sumira.

Assustado, descobri que os dias se passaram, as semanas se passaram, os meses se passaram, as décadas se passaram e eu não tinha acompanhado o tempo, continuava parado, plantado, solitário, verdadeiramente isolado do universo-viver.

Minha casa já não tinha mais janelas, a porta não abria e o teto era baixo, era tão baixo que me obrigava a rastejar como se eu estivesse num caminhar tubular.

Não ouvia o barulho dos meus pés no assoalho de madeira. Não havia som. Tentei gritar, mas não me ouvia - estava mudo e surdo.Desintegrava-me como se meu corpo tivesse sido feito de camadas de argila jogadas por mãos pesadas e sem o menor jeito para moldar um corpo.



Antes da total desintegração, tentei gritar e o meu grito soou por toda casa e o seu eco acordou-me. Não estava mais surdo e mudo.




Acordei molhado, meu lençol estava molhado, minha cama estava encharcada e quando percebi, estava sendo engolido por uma água salobra – tudo flutuava naquele quarto hermético e aquático – estava num aquário.


A cada movimento que fazia a água subia mais um pouco. Já estava chegando ao teto, já não conseguia respirar com tanta facilidade, precisava mergulhar naquele caldo grosso e salobro. Precisava sair dali.

Mergulhei e acordei. Acordei deitado em pétalas de flores brancas. Tinha mergulhado numa caixa transparente lotada de pétalas brancas, tentei sair e meus braços estavam presos cruzados em meu peito, minhas pernas estavam esticadas e juntas, não me movia e meus olhos entreabertos enxergavam parcialmente caras tristes que fixavam em mim.

Eu era observado por olhos curiosos e chorosos. Tentei levantar inutilmente, não conseguia impulsionar meu corpo pra frente. Percebi que precisava balançar aquele caixa pra que ela pudesse cair e eu sair daquele colchão de flores.  Fiz um esforço imenso até conseguir derrubar a caixa.

Derrubei e acordei.

Paulo Francisco

Pombo-correio





Até os pombos-correio cansam! Acordei com um arrulhar familiar em minha sacada – era um pombo. Aparentemente cansado e assustado. Estava ele cansado por que o seu destino era distante? Ou estava ele assustado por que a rapina o espreitava?

Não é comum avistar-se pombos por aqui. Principalmente em minha casa. Aqui, somente aves com certo exotismo. Não que os ache feios, mas é mais comum vê-los em praças publicas sendo alimentados por velhas senhoras e assustados por crianças que cismam em agarrá-los, fazendo-os levantarem voos repentinos, sujando tudo de penas e espalhando suas fezes secas causadoras de alergia respiratória e micoses em nós- humanos.  Merda de pombo mata!

O pombo em minha sacada me fez lembrar quando morava no subúrbio do Rio e, acabei tendo uma discussão daquelas com um velho cantor aposentado (hoje morto), que me acordava de manhazinha com seu radinho estridente na sua sala que dava, infelizmente, de frente para o meu quarto. O velho cantor odiava pombo, e eu a sua mania de ouvir rádio alto às seis da manhã. Na época, trabalhava na minha tese de mestrado até altas horas e dormia na parte da manhã até ao meio dia.

Certo dia, fui acordado pelos seus berros de protestos por causa de um ninho de pombo na abertura do ar condicionado de um dos meus quartos. A discussão foi feia e aproveitei a ocasião pra despejar a bronca que estava dele e disse:

- Merda contagiosa é o seu rádio às seis da manhã! Eles vão ficar por aqui e pronto. Você vive perturbando o sono alheio e ninguém chegou até você pra te ofender. Vai balançar o seu lencinho em outra freguesia.

Eu sabia que ele estava coberto de razão. A Columba Lívia ( a pombinha da paz ) é uma ave perigosa pra nós humanos. Que o diga o LC.(não fui autorizado dizer o seu nome) que foi parar na Fiocruz depois de ter passado por vários médicos e exames. Somente no Instituto de pesquisa que o camarada soube, com certeza, que sua enfermidade adveio das fezes de pombo. Numa investigação mais detalhada veio a surpresa que sua doença foi ocasionada por ter respirado os microorganismos num quarto de motel com o ar condicionado ligado numa transa pra lá de animal. Merda de pombo mata!  Escapadelas também!

Já fui acordado com pássaro em minha cabeceira; Já fui assustado por gatos, sapos, caranguejeiras, ouriços, gambás, cobras e outros bichinhos estranhos – quem manda morar no mato, quer ser assustado por ladrão, vai morar na cidade.

As maritacas são aves que alegram-me - gosto de suas algazarras sempre em bando -, O gavião e o facão são os que me fascinam. Estava deitado em minha rede quando o gavião batia suas asas, calmamente, num voo de predador. Adoro a sua certeza no abate as suas vítimas. Ave de rapina que me fascina.

 Ela ficou, ali, girando ao meu redor por muito tempo, quase que a danada me bicou. Mas mesmo não sendo um especialista em aves – um ornitólogo - e muito menos em galináceos, consegui a tempo desmascarar a danada. Merda de outras aves também pode matar.

Mas, voltando para a ave que me fez escrever este texto, fui até a sacada e não mais a encontrei, possivelmente o bilhete não era pra mim. Certamente ele parara pra descansar e partiu para o endereço certo.

Só espero que não seja um daqueles pombos- correio que estavam levando drogas e celulares para o presídio. Já pensou!? Eu sendo preso por ser cúmplice de um pombo-traficante? Ah, mas esses pombos voavam lá no interior de São Paulo. Por aqui, eles usam o bicho–homem  para tais tarefas.  Merda humana também mata.







Paulo Francisco



O melhor possível




Meus desejos são brandos. Nada que eu não possa obter. Desejo o possível - uma maneira de realizá-lo sem me frustrar. Adquiri este comportamento ainda na infância. Nada de pedir presentes que o bolso de meu pai não alcançasse. Na rua, a passeio, os desejos eram guardados em meus olhos. Não podíamos pedir nada. Tínhamos que esperar nos oferecer. Sou assim até hoje. Só desejo o que é possível - o impossível guardo na retina.

Mas o que é o possível e o que é o impossível? Claro que desejar ter um carro popular é mais fácil que desejar uma Ferrari; um apartamento de dois quartos que uma cobertura. Mas nem a Ferrari, nem a cobertura são desejos impossíveis. Podem ser desejos difíceis de serem alcançados, mas não impossíveis – não vou entrar no mérito da questão.

Mas existem coisas que são tão possíveis de serem impossíveis, e outras tão impossíveis de serem possíveis. Redundante? Acho que sim.

Mas o amor é redundante. Ele sobrevive na abundância, no excesso. Amor calmo é amor descansado. Amar cansa, é exercício diário.

Exercito todos os dias o amor que tenho dentro de mim.





Ontem, a Maria pediu para eu ligar pra a Valéria. Ligar pra ela é tão possível; ir a sua casa é tão possível e, às vezes, ficamos somente pelo computador em frases curtas.

Hoje, acordei com vontade de fazer coisas possíveis – liguei pra Val. Liguei pra minha irmã Ana, liguei pra mãe de meu filho e não brigamos – uma coisa quase impossível de acontecer. Tirei um livro da estante para reler, fiz um poema. Possivelmente vou sair daqui para almoçar no sobradinho e, garimpar livros no sebo e passear entre as gôndolas da livraria da Cidade.

Aprendi a transformar o impossível em possível. Na impossibilidade de minhas mãos não alcançarem as estrelas eu as desenho num papel azul. Na possibilidade de meus olhos não alcançarem os seus, eu fecho os meus e sonho com os dela.

Hoje, eu acordei assim: impossibilitado de não pensar em ti.


Paulo Francisco

Não venha onde estou






A maioria dos meus amigos não consegue ficar sozinho. E como eu sou um eremita nato, mas não um homem das cavernas, eu sofro com seus apelos:

- Quando você vem aqui em casa?

- Não, não acredito que você vai me deixar almoçar sozinha em pleno domingo?

- Ah, vamos até São Paulo neste fim de semana?

- Já reservei hotel pra nós dois em BH...

- Olha tem uma exposição maravilhosa no Rio, vamos?!

- Sabe aquele almoço de sexta? Transferimos para um jantarzinho... Você vem, né?

- Posso ficar aí com você?

- Estou dando uma passadinha em Terê e pensei em ficar aí com você? Eu posso né?

-  O que você estava fazendo? Liguei várias vezes e você não atendeu.

- Menino, eu não sei como você consegue ficar ilhado por tanto tempo.

- Procurei por você até no Bar do João. Fiquei preocupada. Está namorando?

- Só não fui até aí porque sei que você só atende a campainha quando quer.

Consigo ficar por aqui e esquecer-me do mundo.  Claro que eu gosto de receber amigos, fazer uma reunião de quando em vez, ou visitá-los em dias frios.

Não quer me encontrar?! Então não vá ao teatro, não vá ao cinema, não vá à livraria, não vá ao show da semana, não vá ao bar do João. Ou simplesmente não visite o Parque Nacional em dias de Sol.

Talvez, a maioria dos meus amigos não consegue ficar sozinho, ou simplesmente se incomoda, erroneamente, com o fato de eu parecer um eremita.

Quem disse que o homem consegue viver sem companhia?  Pelo menos, eu não consigo. Não mesmo. As minhas paredes sabem disso.

Não venha onde estou porque estou morrendo de amor.


Paulo Francisco





Apoquentado




Incomoda-me este tempo indeciso de pouca visibilidade, de incerteza e medo.  Nuvens fechadas, em cima da minha cabeça, alagam a minha mente de lembranças de um passado não muito distante. Que venham à luz do sol, o brilho da lua e um céu empolado de estrelas. Chega de chuva, chega de medo, chega de indefinições.

Incomoda-me reviver o horror rasgado em relâmpagos e gritos, em trovões e desesperanças. Que venha o vento pra desmanchar os monstros Cumulonimbos  em Cirrus imaginários. Que venha a esperança pintada num azul celeste quase transparente.

O que fizemos para Zeus ficar tão zangado?

O seu medo era meu também. Não entendia porque tanto pavor de trovões e relâmpagos. Ela ficava escondida no corredor da casa protegida das janelas abertas. O seu medo silenciávamos. Éramos solidários em dias molhados. Ficávamos abraçados enrolados num lençol. Ela com medo do tempo, e eu com desejo a tempo.  Nossos rostos se mostravam na claridade do raio.

Cheguei encharcado ao encontro marcado  - Zeus chorava de ciúme. Mas logo o Sol voltou para alegrar o dia. Formou-se um arco-íris em nossas cabeças.

Ela me disse que gostava de caminhar na chuva.  Eu completei dizendo que gostava de vê-la molhada pelas lágrimas de Zeus. Rimos. Corremos para o trailer e curtimos a chuva bebendo água de coco com uísque num sossego marinho e nordestino.

- Filho, sai da chuva, você vai ficar doente.

- Filho, leva o guarda-chuva, vai chover mais tarde.

Mãe tem mania de achar que é a moça do tempo.  Olhava para cima e não via uma mancha cinza no céu, mas ela acertava, chovia no final da tarde.  E eu me molhava de teimosia. Chegava encharcado de vergonha. A bronca era certa como o Sol no outro dia.

Depois foi a minha vez de repetir as mesmas frases de preocupação no meu dia a dia. Quando a gente ama não tem jeito, vamos nos preocupar.  Amar é cuidar do outro mesmo quando ele não precisa – acho que li algo parecido no cartão do casalzinho do amar é... no velho jornal de todos os dias.

Incomoda-me esse tempo aquoso, de pouca luz e sem você.


Paulo Francisco


Sensações




Acordei e já estava escuro. Fui trabalhar virado mais uma vez. Trabalhei até uma da tarde e voltei pra casa pra dormir e dormi. Acordei com a sensação cumprida. Dormi muito. Coisa rara em minha vida. Coisa rara, também, é a sensação de leveza ao acordar e ver de minha janela a lua tomando conta de mim. Geralmente estou com ela todo o tempo. Mas hoje, acordei e a surpreendi me olhando com ternura. Foi uma sensação gostosa, uma volta ao tempo em que acordava e tinham olhos a me vigiarem e, sentia-me protegido e querido por eles.
Olhos que vigiam. Às vezes, sinto-me vigiado, não pela lua de que tanto gosto, mas por olhos enigmáticos. Sim, por olhos que não sei ao certo, o que querem de mim.
Dizem por aí que a minha transparência está em meus olhos – eles me delatam. Talvez sim, talvez não. O que sei de verdade é que existem olhos que brilham no escuro e, sinto que há olhos felinos a vigiar-me; olhos rapineiros em busca do que comer; olhos que eu não gostaria de ver.
Caminhando pra casa, numa tarde dessas, vi um gavião na parte baixa de uma árvore, ele estava ali camuflado,  confundindo-se com a cor do tronco grosso da velha centenária. O danado estava à caça do que comer. Parei para observá-lo e pude ouvir do outro lado da rua, algazarras de pássaros no arbusto – pássaros apavorados, possivelmente. Tentei fotografar, mas tudo foi tão rápido que só consegui tirar uma foto quando o danado já estava no alto da árvore com o seu petisco preso em suas garras. Fascinou-me a ligeireza da faminta.
Caça e caçador. Às vezes, sinto-me uma presa fácil daqueles que me vigiam; às vezes tenho a sensação de que serei o próximo banquete da rapina camuflada se fingindo de gente.
As sensações são muitas. As incertezas ainda existem. Mas, as certezas, mesmo sendo poucas, são vitais para eu seguir caminhando com a cabeça erguida e em busca de olhos que me vigiem com amor como a lua. Quando acordei,lá estava ela velando o meu sono tranquilo.
A lua e ela. Caminhávamos em sonhos permeados de flores e certezas. Sim, de sonhos e certezas. Certezas de sermos e termos o maior amor do mundo. E tivemos. Sim, foi o maior amor do mundo. Maior que tudo. Mas um dia acordamos e o sonho que era doce se acabou. Mas só o sonho desfez-se, o amor não.
Hoje acordei com a sensação de que ela estava sentada num balanço de flores, lá longe, junto a lua, cercada de estrelas que brilhavam lágrimas e ao mesmo tempo torciam por mim.
Hoje eu acordei assim, com leveza -  como se estivesse na lua.





Paulo Francisco

Faces



Não sei o que é pior, ser vigiado ou ser ignorado. Eu sabia a hora exata em que ela passava pela rua onde eu morava. Adorava aquele jeitinho todo carioca de andar. Ela era uma graça.
- ¨Paaauuulooo! Sua deusa está passando! ¨
Corria pra vê-la da janela do apartamento, não dizia nada, apenas sorria quando percebia aquele seu olhar de soslaio. Foi assim por um bom tempo. Tempo bom, tempo de sonhos e aventuras.
Olhava as estrelas no céu como se elas fossem minhas. Sentia uma sensação absurda quando via uma estrela cadente – acreditava nos pedidos feitos. Era um explorador de nuvens.
Sentado no colo de minha mãe, eu namorava a lua enquanto ela e a vizinha conversavam sentadas no portão de casa. Dormia hipnotizado pelo brilho azul marinho celeste.
No final da semana passada, a lua estava absurdamente linda. Cheia e bela. Eu adoro quando a vejo assim: voluptuosa, transbordando sedução e, ao mesmo tempo, cercada por pequenas estrelas e ela, a minha lua, é a principal para os meus olhos gulosos e sedentos de amor.
No hotel, abri os olhos e percebi que ela ainda não tinha dormido, estava me observando, analisando, pensando, concluindo, ou sei lá o que mais. Eu abria os olhos e ela fechava os seus rapidamente. Deixei-a pensar que me observava secretamente. Precisava aliviar a queimação interior que me invadiu de repente. A dor da desilusão era maior e mais significante àquele momento.
Eu estava sendo vigiado e não sabia. Quando se aproximou de mim, ela já tinha a minha ficha completa. Não a condenaria se a aproximação fosse verdadeira e não uma tática pra pegar mais uma presa. Sim, ela era caçadora. Uma colecionadora de cabeças humanas. Agora anda por outras regiões farejando possíveis presas. Ser mitológico que nos transforma em sal. Escapei por pouco da medusa.
Eu ficava ali tomando conta das posturas dos dípteros. Não dormia vigiando cada fase larval, cada troca de muda, e a minha própria ecdise só aconteceria bem mais tarde.
Quando eu percebi, já estava isolado de todos e de tudo, fechado numa forma de cápsula. Ela transformou-me num eremita moderno, morador de uma caverna de concreto. Uma tática de quem me conhecia profundamente e sabia que eu jamais atingiria a quem amava. E eu a amava. Depois não. Acabei diluindo meus sentimentos. Mas continuei não querendo atingi-la. Pra quê? Já não valia mais a pena.
Entro em casa e ligo o computador e lá estava um recado nada agradável:
¨ As suas dores físicas são castigo de Deus, pelas dores emocionais que você nos transmite. ¨
A outra queria me vigiar, tomar conta de minha vida. Mas eu me transformara num ermitão dopado de noites vazias de estrelas e de luas nuas. Não queria mais algemas em meus pulsos.
A pupa era dura com pouco ar. Meu metabolismo era lento e angustiante. O movimento corporal se dava internamente e uma palidez cobria totalmente a minha derme mulata. Eu descorava a cada dia. Eu sabia que o meu corpo intumescido e desmaiado, a qualquer hora, reagiria e romperia aquela cápsula de quitina. Cripta aberta, alma liberta.
Busquei minha carga genética, lutei por ela, perdi alguns genes perfeitos, tornei-me débil, imbecilizado por um ar virulento. Minhas pernas atrofiaram-se, meus braços encurtaram-se e meu cérebro tornou-se aquoso. Vegetei num mundo de olhos grandes, bocas ferinas e mil tentáculos com ventosas nocivas. Trafeguei em dias nebulosos e em noites frias em total escuridão, meus pés sentiram a umidade lodosa de um pântano verde e cinza.  Mas transgredi o mal.
Saí da fase pupóide em que entrei. Rasguei com minhas mandíbulas as camadas existentes e as engoli, nutrindo-me do que já era meu. Sobrevivi de minha própria alma. Não mais me importavam as pernas perfeitas, os braços que a alcançavam. Minha mente ainda sã comandava as asas brotadas em minhas costas. Alçei voo pra nunca mais rastejar como verme ápodo em sua própria gosma. Tornei-me alado, livre, polinizador de flores e com elas, me perfumei e me nutri. Nunca mais ignorado, nunca mais vigiado por olhos de serpente.
Neste exato momento, acendo um cigarro com meu computador apoiado em minha coxa esquerda levemente levantada. Meus óculos tortos atrapalham-me a ter uma visão ampla de meu quarto. Estou enquadrado por duas lentes arranhadas e necessárias a minha sobrevivência. Sou cego de mim mesmo? Não me vejo por inteiro? Só eu sei. Preciso parar e fumar.
Não estou mais preso numa transição metamórfica lenta e abstrata. Sou um mutante em plena evolução. Sou gente se transformando em gente. Sou um homem adquirindo rugas e manchas. Meus medos não são mais químicos, são medos mecânicos, são medos palpáveis. Tenho medos, mas também tenho sonhos. Sim, ainda sonho; sim, ainda penso. Sim ainda quero.
Leio literaturas clássicas, revista científica e jornais de ontem. Caço palavras dentro dos olhos de quem me olha. Sinto a dor do mundo. Fujo da dor do mundo. Revolto-me com a dor do mundo. Torno-me cego diante da dor do mundo. O mundo dói e machuca.
Sou o próprio louco que ao ver a chuva cair em seu quintal fica nu para lavar a derme encardida de um passado negro e fétido. Os loucos também pensam.
Já não consumo leite como fórmula de diminuir o fogo existente em meu aparelho digestório. Fui células que se transformaram em tecidos e em órgãos – sou o resultado de vários sistemas que trabalham juntos em harmonia – sou um ser que vive, sou um ser-vivo.
Meu cérebro se agiganta e rompe o meu couro cabeludo. Sinto dores que cobrem toda a minha cabeça. Irradio sentimentos diversos. Fecho os meus olhos para enxergar-te melhor. Refaço-me e resgato-te.
Ouço uma voz:
- Paaauuuloooo! Sua deusa foi embora!
Quando abri os olhos, percebi que ela não mais existia.
Morro mil vezes e renasço mil vezes. Morro a cada dia, a cada hora, a cada segundo; morro a cada instante que ainda não veio. Renasço na mesma ligeireza. Tenho sede de alma, tenho sede de corpos. Tenho sede e fome de nuvens e estrelas. Grito ao mundo os meus temores. Grito aos deuses do tempo e da vida – Estou aqui! Estou vivo! Eu quero viver!
E vivo.
Sou o dono deste texto e subscrevo-me em metáforas, em histórias reais e ilusórias. Você decide por qual prisma que quer me ver.
Afinal, a interpretação é livre. E é assim que tem que ser.





Paulo Francisco

Off


Acampei na sala de estar. Cheguei com vontade de ouvir Bob Dylan. E ouvi. O meu corpo pedia paz, minha mente exigia descanso. Entre as almofadas viajei. Viajei numa tarde de sol, entre montanhas e nuvens azuis.

Cigarros e taças de vinho acompanharam-me. Criei imagens em nuvens só minhas. Abracei o sol e escorreguei em montanhas gigantes. Sorri. Gargalhei sozinho. Cantei com o Bob e, dormi ao som de sua gaita.

Dylan por toda casa. Fiz de minha sala de estar o meu Woodstock. Imagens psicodélicas na parede somente nos quadros existentes. No incensário fumaças perfumadas bailavam em figuras surreais. Acampei e dormi.

Os meus acampamentos sempre foram para trabalhos científicos, nunca para prazer. Não comi macarrão instantâneo, nem tomei café solúvel com leite condensado. Meus luaus eram de um dia e a minha cama sempre estava me esperando no final de tudo.

Acho interessante quando ouço que fulano foi acampar por puro prazer. Fico imaginando, ele chegando ao local desejado, armando a barraca, olhando ao redor com um sorriso de fazer inveja a cara do mais alegre dos palhaços. O vizinho mais próximo se encontra a dezenas de distância numa outra barraca.

Acho muito interessante este espírito aventureiro de tomar banho de rio ou cachoeira, dormir em colchonete e comer comidas improvisadas. Lambuzar-se todo de repelente, fazer fogueira para espantar bichos e numa rodinha ao redor dela ficar ouvindo o som de violão. No inverno, então, dormir em saco de dormir, acordar e molhar a cara em águas geladas, saudar a natureza e ficar desejando um dia bom.

Acampei em minha sala de estar. É o melhor que sei fazer.


Paulo Francisco

Limite

Eu descia tão distraído à rua que não a vi me esperando com seu jeito de menina do outro lado da pista. Levei um susto de alegria ao vê-la. Dois anos, três anos, nem sei mais. Fazia tanto tempo e continuava com o mesmo sorriso tranquilo nos olhos. Perguntei o que estava fazendo por ali e ela me respondeu que estava levando um exame ao seu médico. Tinha se casado e estava fazendo tratamento para engravidar. Sorri com o fato de ter se casado.  Era o que mais desejava – eu me lembro de como queria ser esposa e mãe. Um pedaço de seu desejo tinha se concretizado e o outro estava num envelope em suas mãos. Conversamos mais um pouco e nos despedimos com um abraço forte e demorado.  Não foi preciso olhar para trás. Guardei o seu telefone no bolso.

Segui o meu caminho com sorriso nos lábios. Gosto de encontrar com amigos e saber que estão felizes. Ela estava feliz e esperançosa. Eu? Bem... eu continuo caminhando e fazendo novos amigos por aí.  Sigo em frente olhando para os lados. Ainda há esperança em meus olhos.

Alguns minutos depois desse encontro casual cheguei ao meu encontro marcado. Não era um encontro de amor, era um encontro de dor. Ele chorava como uma criança. Chorava o mundo. Chorava em desespero espalhado. Meu amigo tinha acabado de se separar. Tinha em suas mãos a desesperança em uma mala. Tinha em seus olhos o desespero de um menino que perdera o jogo de futebol no último minuto – não tinha volta. Ele estava perdido - eu sabia o que ele sentia. E por saber daquele sentimento fiquei aflito. Tornei-me propositadamente passivo e o ouvi, ouvi e ouvi,  ouvi com os ouvidos da experiência. Ele não parava de falar e eu passivamente concordava com a cabeça e mais nada. Não tinha o que fazer naquela hora sombria. Permaneci neutro, ouvindo, ouvindo o homem xingar, chutar, esmurrar o vento, lavar o chão. Permaneci sentado assistindo a um flash-back em 3D.

Quando a ordem se estabeleceu, eu simplesmente lhe disse:

- Camarada, é a quarta separação da sua vida.

E ele me responde:

- Mas esta é a primeira vez que a separação não veio de mim.

Pensei em dizer-lhe  ¨ Então agora você vai saber o que as outras sentiram, seu babaca ¨, mas me limitei em dizer:

- Sempre tem uma primeira vez.

Depois de tudo calmo, voltei pra casa olhando para os lados a procura de fantasmas.  Não gosto de saber da infelicidade do outro. Prefiro ser solidário em sua alegria.  A felicidade não me incomoda, a tristeza sim. A felicidade do outro é volátil em mim, enquanto a tristeza gruda em minha alma. Torno-me triste por solidariedade. Uso preto e fico de luto. Torno-me carpideira de calças e choro até a última camada de terra. 

 Talvez seja por isso que pouco divido as minhas dores e as minhas tristezas.  Prefiro espalhar alegria.

Já estava pronto para dormir quando o telefone toca. Estava esgotado com tudo que aconteceu durante o dia. Ouvi, simplesmente ouvi, não queria conversar, não queria ser indelicado, mas acabei sendo. Uma terceira pessoa no mesmo dia eu não aguentaria.  Meu corpo é fraco, minha alma já tinha inquilino. Hoje não, hoje não!  – pensei em desespero. A ligação foi interrompida, o sinal ficou ocupado e os fantasmas dançaram de felicidade em meu quarto.

Demorei mas aprendi. Não me telefone no meio da noite pra falar de sua desgraça. Ligue para me fazer rir. Quero voltar a dormir com sorriso nos lábios e não com o cenho franzido.


Se eu moro sozinho, eu escolho as minhas companhias.


Paulo Francisco