Colecionáveis







As minhas coleções nunca foram adiante. Tentei, e como tentei ter uma coleção. Comecei com álbuns de figurinhas de jogadores das seleções mundiais, mas nunca completei um álbum sequer e nem conheci ninguém que tenha conseguido a tal figurinha carimbada.  A coleção de moedas até que me deu certo prazer por um tempo, mas elas ficavam condicionadas em latas de leite em pó e acabei perdendo o interesse em tê-las escondidas.

Depois, tentei uma que me desse status de colecionador, tirei todos os selos das cartas de meus pais guardadas há décadas e quase levei uma surra.

Olhava as coleções de carrinhos de meus amigos e invejava-os com tamanho cuidado com os seus brinquedos de metal. Os meus eram pra brincar, e assim o fazia, nenhum era perfeito. Todos apresentavam quilômetros e quilômetros rodados pelo quintal e ruas barrentas.

Mais tarde colecionei gibis, mas terminei doando pra alguém mais interessado em lê-las do que em tê-las. Depois, foram os clássicos da literatura. Guardava-os, depois de lidos, como  objetos de coleção. Esses foram doados pelas mãos de minha mãe, numa mudança repentina. Eu fui para um lado e José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Eça de Queiroz, Manoel Joaquim de Almeida, acompanhados por Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Raquel de Queiroz, Luis Fernando Veríssimo, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e muitos outros, para o outro lado – o lado do desconhecido. Nunca soube onde foram parar.

Uma coleção pra ter seu valor, tem que estar dentro de normas incríveis de conservação. Seguir regras de colecionador não é pra qualquer um.  Tem que estar intacta, dependendo da coleção, nunca violada. Então, eu ria e muito, quando meu primo se referia como coleção as suas revistas da playboy e afins. Revistas mais que usadas e lambuzadas. Um armário lotado de beldades do mundo todo. Eu me contentava com os calendários guardados no fundo da gaveta – já tinha o bastante pra ser chamado de colecionador.   
       
Tive várias outras coleções: canetas, isqueiros, chaveiros - e nenhuma terminou comigo. As caixas entomológicas devidamente etiquetadas foram surrupiadas por colegas da Faculdade.

Ainda tenho guardado, quase que por um milagre divino, resquícios de uma coleção de miniaturas de dinossauros. Não contei, mas vão pra mais de cem. Estes passaram pelas mãos de João, meu filho, mas ele não se interessou em tê-los sobre a guarda de meus olhos. Perdi alguns exemplares na distração e guardei, mesmo assim,  alguns degolados e pernetas. Ainda não foram extintos totalmente.

Matheus, o filho de Alessandra, quando vem aqui em casa, gosta de brincar com as peças. Chato mesmo é quando ele dana a me perguntar o nome de cada um deles. Aí o dinossauro pega! Tenho que recorrer aos livros, pois já não me lembro do nome de todos.

Mas o que eu gosto mesmo é de colecionar amizades.

Têm algumas amizades que se tornam raras, daquelas que se guarda em papel especial e se conserva com muito carinho.

Por outro lado, têm as que tentamos em vão. Não seguem adiante. Desandam. Mas quando isso acontece é porque as peças não eram verdadeiras; não eram dignas de serem colecionadas como amigos – alguns conseguem ficar na categoria de colegas.

Já fui enganado muitas vezes por réplicas perfeitas. Jurava que eram genuínas e depois de certo tempo, apareciam falhas imperdoáveis pra uma coleção tão importante: um defeitinho de caráter aqui, um egoísmo ali, a pintura que se desgasta e logo aparece a decepcionante cor fora da série original. Não tem nada pior que uma peça desbotada. As minhas têm cores fortes e vibrantes.

 Geralmente, eu não jogo fora, mas deixo-as de lado, num outro compartimento – o dos conhecidos.

 Eu tinha uma réplica tão perfeita, mas tão perfeita, que a coloquei na primeira prateleira da coleção de amizade, achando que fosse original. Mas, quando a peça foi mudada de lugar, começou mostrar-me certas linhas de conduta que jamais uma peça original de minha coleção teria. Mas, mesmo assim, não querendo acreditar que tivesse sido enganado por tanto tempo, deixei-a no mesmo lugar por um bom período – uma espécie de quarentena. Pois, uma coleção, não pode ser contaminada por agentes estranhos. Tem que estar sempre de olho pra não perder todas as peças de uma coleção tão rara como essa. Então, resolvi tirá-la da quarentena e a deixei num compartimento inferior – o dos replicados.

As minhas coleções nunca foram adiante. Exceto a da amizade. Posso até perder uma peça, mas, no lugar da perdida, sempre tem outra de maior valor. Até porque, este tipo de coleção, tem poucas peças. São raras. Aparecem num largo espaço de tempo.

Ah! Aquela peça que me enganara por um bom tempo. Dei um jeito nela. Exterminei-a por completo de meu convívio.

Eu não tenho e nem quero ter uma coleção de traidores.

Paulo Francisco



Oposto




Na prática é diferente. Não estava procurando a cura. Mentia quem dizia que ela existia. Sabia que teria que conviver pra sempre com aquela dor de amor. Amor acabado é amor amputado - não está mais lá, mas de quando em vez o sentimos como se ele ainda existisse.

Gritava seu nome até o peito doer. Gritava seu nome na esperança do vento levá-lo até o seu coração. Gritava em vão. Sofria em vão. Vivia em vão. Mas não há tristeza que perdure por todo o sempre. Guardamo-la numa caixinha invisível dentro de nós. Se a tristeza do poeta não tinha fim, e se a felicidade era efêmera, as minhas eram intensas e insanas. Mas tinham fim sim.

Outra mentira era quando ouvia o clichê que amor se cura com outro amor. Não há amor igual. Cada um tem sua marca própria. É digital na alma – não dá pra apagar. Então, no máximo, o guardamos numa caixa invisível e o esquecemos numa parte qualquer dentro de nós. E foi assim, guardando-os em caixas invisíveis, que sobrevivi a todos eles.

Quando ela chegou já sabia que era por pouco tempo. Não era ali na minha varanda que sua rede se esticaria. Mas como eu já dissera, na prática é diferente. Acabou ficando, balançando na minha rede e contemplando o meu céu marinho por alguns meses. O poeta tinha razão quando escrevera que seja eterno enquanto dure. E foi eterno e sem dor. Pelo menos para mim.

Mas quando a outra se foi sem dizer qualquer coisa que pudesse aliviar o meu desespero, percebi que não existia amor entre nós. Era qualquer coisa, menos amor. Quem ama não abandona. Quem ama não agride, não foge, não despreza. Amor pesado, coração machucado. Esse não foi eterno, foi sim, um inferno.

Quando publiquei o texto Teoria,o comentário da moça Milene chamou-me a atenção e me deu uma vontade danada de responder na hora que na prática é diferente. Não o fiz, mas a frase ficou comigo e seu comentário também.

Não é vantagem nenhuma, Milene, viver essa insanidade toda. Vantagem é se acertar com ele, como alguns casais que conheço. Não tem tempo certo para ele chegar. Então, o infinito é o limite. Se há vida, há com certeza moradia para o amor. Ele se ajeita sim, em qualquer morada, basta essa morada estar de portas e janelas abertas para recebê-lo. Ele gosta de carinho, sinceridade e respeito. A cumplicidade é o esteio de uma vida a dois. Sem ela não há amor que consiga resistir as diversidades da vida. E na prática, Milene, será sempre diferente.

Paulo Francisco


Sobre beijos e abraços...





Um beijo grande. Sempre termino um comentário mandando um beijo grande para as moças e  um grande abraço para os rapazes.  Mas o que seria um grande abraço?  Seria o abraçaço de Caetano do outro lado da tela? Ou aquele abraço de Gil?

Quando abraço, abraço. Meus abraços só chegam a quem eu admiro ou amo. Eles se tornam laços de fitas num presente desejado. Abraço demorado, sentindo não somente o corpo, mas a alma de quem estou abraçando – um rito de transfusão de coisas boas. Independente do gênero, independente da cor, independente da classe, o meu abraço é abraço-amigo. E se torna um abraço amigo, também, nas despedidas virtuais.

Mas quando a vi naquela manhã de sol morno e de céu transparente, não pude deixar de abraçá-la. Precisava de seu abraço na carência de seus beijos. Gosto, e se pudesse, ficaria grudado nela por mais vezes. Gosto de sentir sua carne na minha. Gosto de envolvê-la e ser envolvido por ela nesses nossos abraços apertados e demorados. Gosto desse engolfamento de alma.  São abraços  com beijinhos no pescoço. É verdadeiramente um abraço que acende.

Mas o que me motivou a escrever esse texto foi o comentário de Maria Paula quando me mandou um recíproco beijo grande, dizendo que não sabia o seu verdadeiro significado com relação ao meu. Parei pra pensar o que seria esse tal de beijo grande.

O beijo é beijo e pronto. O grande é que é o diferencial nesse beijo virtualizado. Poderia ser uma forma de escrever sem nenhum significado maior. Mas não é. Tem significado sim. Tem significado para quem o recebe. E tem significado para este que o escreve.

Foi mais que um beijo grande quando nos despedimos no corredor de seu prédio. Foi um beijo  agridoce banhado de adeus. Um beijo ainda cheio de tesão. Um beijo que nos acendia de paixão.  Um beijo na contramão.

Voltando ao beijo grande de Maria.

Uns dizem, Maria Paula, que beijo grande é beijo de tia, um beijo carinhoso cheio de ternura. Outros, já acham que a palavra beijos é mais sedutora. Confesso que acho tudo isso uma bobagem.  O meu beijo grande pode ser um beijo cheio de carinho e ternura, como pode ser um beijo sedutor, vai depender de quem o recebe. Sabe aquele beijo no pescoço que chamamos de cheiro? Ele pode ser um beijo grande. E aquele beijo cheio de tesão que quase suga a alma, também é um beijo grande. Um beijo na face acompanhado de um abraço caloroso, também o é.

O que eu não gosto mesmo é daquela despedida com a palavra beijinhos. Soa falso, tem um quê de esnobismo. Acho fresco e pequeno demais. Se fosse acompanhado de algo mais, como beijinhos no pescoço, tudo bem. Quem não gosta de ser tatuado por lábios quentes?


A única certeza de tudo isso, é que se eu estivesse por aí, esse meu beijo grande, teria carinho, ternura, viria acompanhado de um abraço feito um laço de fita e jamais seria um beijo de tia.


Paulo Francisco





Teoria







Ah, essa coisa de amar que transcende a razão! Que dilata pupila, que contrai pupila, que nos deixa embriagados de sonhos. Se você tem  um amigo que chora pela perda de um amor e não consegue entender esse sofrimento masoquista, você teve a sorte ou o azar de nunca ter amado ou de ainda não ter sofrido por sua causa.

Meu amigo bêbado no meio da rua deserta de uma madrugada fria de uma segunda-feira  qualquer:

- Paulo, eu amo aquela mulher com todas as suas estrias e celulites...

Uma amiga enlouquecida ao telefone reclamando em prantos a ausência de um camarada que nunca lhe deu atenção:

- Eu não entendo porque ele não quer nada comigo. Eu faço tudo que ele me pede.

A mãe de uma amiga, desesperada em ver a filha sofrendo de amor:

- Ela está assim há duas semanas, sem falar com ninguém, trancada no quarto, desde o último telefonema do namorado.

Era difícil entender tanta irracionalidade de alguns amigos.  Como chorar por um namoro que acabou? Como ficar às moscas por causa de uma decepção? Não, não entendia as mazelas amorosas.  A racionalidade e a praticidade estavam intactas em minha massa cefálica – a ínsula e o estriado estavam parcialmente inativos. Usava-os somente para o sexo e outros componentes químicos comuns naquela época.  Eles estavam mais próximos que o danado do amor.

 Os batimentos cardíacos batiam naturalmente no compasso fisiológico humano. O sangue trafegava em artérias e veias oxigenando o meu corpo forte e alheio ao verbo amar e ou aos seus derivados.  O que eu sentia não era amor, era tesão sem amar.

Demorei pra ser dependente do vício amar. Demorei pra entender que o coração não tem culpa da dor de amar. É o cérebro, o grandioso cérebro culpado desse vício bom. 
Que o coração, coitado, só responde em batidas apaches o que o cérebro lhe envia.

E quando esse dia chegou, tornei-me comum, igual a qualquer um. Eu sorri, chorei e me decepcionei também. Tornei-me refém do prosencéfalo e de outras regiões cerebrais. Nunca mais unicamente racional! Nunca mais somente prático! Tornei-me um irracional amoroso; um sonhador amoroso, um teorético amoroso. Um amoroso simplesmente.

Uma amiga do trabalho me disse que tinha certeza de que ela ama e de que já amou, mas não tinha certeza de  ter vivido um grande amor. Não entrei no mérito da questão.

 Trouxe para casa a sua interrogação e revivi alguns amores.

Como era bom desejá-la. Como era bom imaginar tê-la. Era tesão provocado por um amor ainda guardado.  Pensei: vivi um grande amor. Foi um amor a passos curtos e reveses.

De repente ela estava em minha vida, desconstruindo todos os meus conceitos, ditando o meu ritmo, deixando-me vesgo de amar. Foi um grande amor com certeza.

Talvez a amiga do trabalho não tenha vivido um grande amor. Talvez, esse grande amor ainda não chegara. Ou talvez ela nunca se permitisse viver esse grande amor. Talvez, o seu prosencéfalo ainda não tenha sido totalmente explorado.

Eu já vivi grandes amores. E espero vivê-lo outras vezes. Porque pra mim todo amor é grande. É um mix de razão e loucura, de paixão e serenidade, de céu e terra, de vento e fogo.

Andam dizendo por aí que o vício de amor tem cura. Mas quem disse que eu quero largar dessa dependência? Ainda corre sangue em minhas artérias e veias. O meu coração ainda anuncia em batidas aceleradas a alegria de amar. Ainda aguento algumas decepções e tenho ainda a esperança na alma e lágrimas pra chorar.

Ah, essa coisa de amar que transcende sempre a minha razão!



Paulo Francisco

Bordado


Para Chica

A pele é o recobrimento do nosso corpo. Não consegui continuar lendo sobre o órgão. Parei na primeira frase. Fechei o livro e em seguida olhei para as minhas mãos e meus braços. Toquei o meu rosto e lentamente cheguei ao pescoço e ao tórax. Constatei pela palma da minha mão a idade chegando pela desidratação da epiderme. Exclamei sorrindo:

Estou ficando velho!

- E a alma? E a alma? -perguntei-me repetidamente na penumbra de meu quarto:

- Também se desidrata? Também fica velha e marcada?

Fiquei com a dúvida nas pontas dos dedos. Achei que não conseguiria continuar escrevendo esse texto. Como falar da pele sem mencionar a alma? Não estou aqui escrevendo um texto didático para que os alunos de ciências entendam a importância das camadas da pele e seus anexos. Não é a minha intenção desenvolver tal artigo – este eu deixo para o Professor.

Senti-me um inútil e totalmente travado. Mas a ideia de escrever sobre a pele não saiu de minha cabeça tão facilmente. De quando em vez, o assunto vinha a mim com uma interrogação:

-Vai escrever ou vai desistir?

Já tinha desistido da tal ideia quando entro, antes de dormir, num dos blogs de Rejane e leio: ¨Corremos riscos de na vida, não sabermos conviver com os riscos que nos chegam na pele ou na alma...¨

- Cacete! É isso!

Exclamei ao terminar de ler o texto dela. Não poderia falar da pele sem falar da alma. Não dá pra falar de tato sem falar do sentimento de dentro. Eles estão interligados. São únicos. A sentença escrita por Rejane não saía de minha mente. Riscos na pele e na alma.

Conviver com esses riscos, com os vincos existentes. Entender as rugosidades estampadas na derme. Saber traçá-las com sabedoria.

Ajeitei o travesseiro, virei de lado pra dormir para mais um dia.

Hoje, quando cheguei para trabalhar, percebi com mais clareza os ¨riscos¨ de Rejane. O aceitar ou não a idade existente pela derme e pela alma.

A pele é o recobrimento do corpo. A alma, certamente, é o seu recheio. E os riscos que chegam a ambos, são as marcas merecidas de uma existência. Certo, Chica?

Paulo Francisco

Memória II








Chegava morto de fome. Sabia que ali não me faltaria um rango.  Ele já me olhava com um sorriso na cara. A larica era maior que o meu estômago, as garfadas eram maiores que a minha boca. Era um tempo que eu tinha fome e sede do mundo. Dormir só depois de lutar muito contra o sono – não queria desperdiçar o meu tempo com sonho; queria vivê-lo de imediato.

Ontem recebi um amigo em minha casa. Ao abrir a geladeira ele riu e exclamou:

- Sua geladeira parece um coco!

 Totalmente distraído perguntei-lhe por que e ele me respondeu as gargalhadas:

- Pô camarada, só tem água!

Rimos. Fomos parar num bar pra matar mais a sede do que a fome.

Hoje quando a larica chega, não tenho mais aquele amigo pra matá-la. Corro ao restaurante e bato um rango daqueles.

Hoje senti uma saudade enorme daquele tempo. Não pela vida desregrada, mas por ter ele perto de mim – meu grande amigo que nunca me desamparou nem mesmo nas minhas piores devassidões.


Paulo Francisco

Memória






O cair da tarde veio cinza. O céu se transformara numa tela abstrata onde o azul-chumbo predominava. Os nossos corações aceleravam a cada trovão, a cada relâmpago. Num instante, a chuva chegou pesada e assustadora. Abraçamos-nos e ficamos quietos, paralisados, sentido as nossas respirações. De repente o silêncio rompeu os nossos medos e somente o gotejar da calha do telhado nos remetia ao terror de minutos antes.

Olhamos para o céu e nos deparamos com milhares de estrelas azuis num pano de fundo azulado quase negro. Sorrimos ao ouvir a voz doce de quem nos quer bem:

- O jantar já está na mesa!

Corremos para a cozinha e a vimos: a mesa posta decorada por um vasinho de flores miúdas.

Naquele dia sentimos medo e alegria. Um medo passageiro e uma alegria pra vida toda.

Hoje, quando ouço trovões e relâmpagos, lembro-me daquele dia e penso: ¨Daqui a pouco estrelas num céu azul quase negro¨.

Mas quando olho para a mesa do jantar já não vejo mais o vasinho de flores.



Paulo Francisco

Intimidade




Quem canta seus males espanta. Nunca cantei para espantar nada e nem ninguém. Até porque, só canto debaixo do chuveiro. Ou baixinho na ponta da orelha de alguém.

A professora de música odiava quando errávamos o Hino Nacional. Logo percebemos que em vez de liberdade, retumbante, se disséssemos liberdadi ou retumbanti, ela parava tudo e começava a bravejar até espumar como um cão raivoso. Adorávamos vê-la nervosa. Ação de crianças inocentes e felizes.  Sempre tinha um  ¨anjinho¨ para errar o Hino só para vê-la daquele jeito.

De repente ouço uma voz macia quase angelical cantando na ponta da minha orelha. Acordei num espreguiçar demorado e amoroso.  Tem música que dá sambinha do bom. Tem música que funciona melhor em duo. Aí eu canto, canto sim. Canto e declamo Cecília porque certamente tenho motivo para cantar.

- Paulo, você foi ao show de fulano?

- Não!

- Paulo vai ao show de sicrana?

- Não, não vou não...

Não sei se estou menos musical, ou se estou mais seletivo.  Prefiro ouvi-los na ponta da minha orelha ou num duo testemunhado pelas estrelas e corujas.

Sei que tudo isso é fase.  Como está sendo fase o fato de não estar escrevendo tanto.  Mas dizem que o silêncio também é música para muitos. Talvez seja também para mim.

Adoro estar no meu canto ouvindo o seu canto na ponta da minha orelha. Se quem canta seus males espanta, nesse meu caso, quem canta me encanta em desejos. Agora, agorinha mesmo, ouço as canções que ela deixou para mim. Talvez eu não esteja menos musical. Talvez eu só não queira misturar as estações.


Paulo Francisco

Acumulador






Abri a gaveta e levei um susto daqueles. Já não me lembrava de tantas coisas guardadas. Sempre tive a mania de guardar aquilo que achava ser tesouro. Mas depois de certo tempo   percebia que o ouro escondido era ouro de tolo. E, aí, ia tudo para o lixo. A vida é assim mesmo, pelo menos para mim. O que pensava ser de suma importância  - e talvez o fosse no momento em que o guardei - não passava de lembranças fúteis, ou ilusão de ótica de um inocente.

Antes, guardava os meus pertences em caixas de charutos. Sim, eram objetos de extrema importância para um moleque que adorava brincar. Bolas de gudes, figurinhas, soldados de chumbo, piões afiados e cacarecos mil.

Cresci e continuei guardando coisas. Guardava não somente os concretos, mas os surreais e os abstratos também. Substitui a caixa de charutos por câmaras pulsantes para guardar o invisível.

Hoje, quando abri a gaveta e descobri tantas coisas guardadas, percebi-me um acumulador de emoções. Não sei dizer se isso é uma patologia como daqueles que não se desfazem de nada.  Mas, patológico ou não, tenho, certamente, que me livrar daquelas que de uma maneira ou de outra não me fizeram bem.

 Passei a vasculhar as gavetas falando comigo mesmo:

- Retratos com dedicatórias amorosas são demais!

-  Como pude guardar tais blasfêmias?! Vão para o lixo!

- Bilhetinho em guardanapo... COMO ISSO VEIO PARAR NESSA GAVETA?

Dizem por aí o que os olhos não veem o coração não sente. Verdade. Já nem me lembrava desse tempo de amores e de ódios.  Mas dizem também que o tempo cura. Outra verdade. É impossível não cair na gargalhada com tudo isso.

Depois de uma tarde de arrumação, as gavetas ficaram livres para acúmulos futuros. Você pode estar se perguntando agora: ¨ Como acúmulos futuros?¨ Eu respondo. Respondo rindo, respondo des-ca-ra-da-men-te: Quero mais que as minhas gavetas estejam sempre cheias de emoções. Mesmo que sejam de amores impossíveis. Amores que se transformam em raivas momentâneas. O que não quero de jeito nenhum é gaveta vazia. Coração vazio, alma amortecida. Não, não mesmo. Quero todas as facetas, pontiagudas ou não, de um amor.

Às vezes, sou obrigado a guardá-los na gaveta. Guardo antes mesmo de começar. São amores impossíveis; amores bandidos. Amores difíceis de começar.  Tem um, em particular, que estou quase o transportando de mim para a gaveta.  E mesmo guardado, ainda sim, tenho medo dele.  Porque não sei o que será.

Paulo Francisco



Emoção





Quando leio Pessoa eu suspiro. Já o Drummond me faz sorrir. Clarice tira de mim sempre uma exclamação impublicável. Fico doce com Cecília. Florbela me diz amor de uma forma única.  Mas quem me desopila mesmo é a Cora Coralina. Ao recitar alguns poemas de Cora para um grupo de jovens-adultos numa escola noturna do Estado, eu me acabei em lágrimas no final do recital. Não sabia se as palmas eram para a Cora ou era para aliviar o meu peito emocionado. Quanto mais eles aplaudiam, mais eu chorava, como agora, ao lembrar-me daquele momento e dos poemas de Cora Coralina. O engraçado que muitos me acompanharam na emoção. Foram tantos abraços mixados entre sorrisos e choros que parecia uma catarse geral codificada em poemas e prosas. Ano passado, a convite, recitei Florbela Espanca - projeto de uma escola do Estado. A escola fica no lugar mais alto de minha cidade. Ali eu não chorei. Simplesmente abri para o amor. Dizem que eu me fecho para o amor. Claro que não me fecho, simplesmente não permito que os vagabundos se instaurem. Conheci um amor que aparentemente seria o dono de meu coração de papel passado e tudo. Mas o danado do amor era tão egoísta, tão desequilibrado que achou que podia além de dono ser também torturador de mim. Amor nenhum tem o direito de torturar. Claro que ele não ficou. Dei passagem ao danado.O coração é meu, só permanecerá nele quem eu permitir. Meu coração está aberto, abertinho, livre pra amar. Ele só não aceita relocatários. Enquanto isso, eu vou lendo Vinicius – é o melhor a fazer.

Paulo Francisco

Antes só...



- Que mala! Exclamei. Não pensei nesta altura do campeonato encontrar um mala por aqui. O camarada é chato – delira.

Estava parado no ponto, quando veio um cidadão perguntando onde ficava uma determinada rua. Calmamente, indiquei o caminho certo. Ele ouviu, olhou pra mim, fechou os olhos e desembestou a contar o seu problema. Fiquei estático, ouvindo aquela conversa que não me interessava nem um pouco. A angústia tomava-me todo e já sem paciência pensava: ¨ E a porra do ônibus que não chega!¨


Hum hum! Era o máximo que saía de minha boca.


Ufa! O ônibus chegou, quase entrei com ele ainda parando. ¨Livrei-me de um mala¨ – falei baixinho.


Não queria ir pra casa. Queria refletir, com a ajuda de uma cerveja, os meus problemas. Sentei num banquinho de madeira no Bar do João (o meu bar preferido). Pronto, um gole da gelada e a paz reinada na alma de quem lhe escreve.


Às vezes, tem dia que não dá. Adivinha? Um camarada do outro lado do balcão me mirou e já foi logo dizendo: ¨Meu amigo, você viu o jogo ontem?¨ Já fui falando mais que depressa: ¨Não!¨ E percebendo o que o etílico queria fui abrindo a mochila e pegando o primeiro livro: Além do bem e do mal de Nietzsche – abri em qualquer página e ¨comecei¨ a ler.


O camarada não se intimidou. Começou a falar de seu time que perdera, porque o juiz não dera um certo pênalti. Incrível, não olhei para o camarada, mas ele não queria o meu olhar, ele só precisava de meus ouvidos. Já estava decidido a parar por ali. Quando ouço: ¨ Oh! João, a saideira¨ O homem tomou a cachacinha mineira e partiu. Falei baixinho: vai, vai para a ...! O João caiu na gargalhada. Ele adora, só fica me olhando com um sorrisinho de canto


O bar estava calmo, entrava um pedia uma coisa e logo ia embora, guardei o Nietzsche e subi para colocar uma musica – cavaquinho seresteiro.


Música no ambiente, um papo com o dono do bar e tudo certo. Foram chegando um, dois, três, seis. dez. Bar cheio. Um falatório só, mas nada que perturbasse.


Eu ali, ouvindo as conversas: de futebol, de trabalho. Piadas e gargalhadas. Desce uma porção de dobradinha, desce uma porção de língua, desce uma bandeja de torresmos, bolinhos de bacalhau, caldinho de peixe e outras iguarias, para os olhos e estômago de quem pedia.


Eu na minha terceira cerveja. respondia a um, falava com outro.mas não me estendia.

Depois de certo tempo, o bar diminuiu de público, o silêncio se restaurou e quando pensei em pedir mais uma cerveja, quem eu vejo do outro lado da calçada chegando?: O baixinho, o Valmir e o Russo

Olhei para a cara do João e disse: a conta!


Têm dias que o melhor é não sair de casa, não ligar a TV e nem tampouco o PC.

Não é mesmo?

Paulo Francisco

Em cores





Visto-me de rosa na esperança de alegrar o frio. Acho engraçado como o preto e o cinza predominam nesta época do ano. Ao entrar na sala da Direção, não me contive e fui logo perguntando:
- Alguém morreu?
Todas as viúvas presentes soltaram suas gargalhadas estridentes. Exceto uma que exclamou baixinho:
- Palhaço!
Saí da sala rindo por dentro e com esperança de um futuro mais colorido.
Ando olhando para os lados e para cima à procura de flores e passarinhos.  Não tenho paciência, nem compaixão com quem apaga o colorido existente, mesmo que temporariamente.
Manhã sem passarinhos cantando e sem cheiro de flor é manhã sem cor em meu quintal.  Acordei com uma manhã pálida e fria; sem a claridade dourada provocada pelo sol. Estava tudo nublado – um mau-humor matinal. Tentei resolver a palidez diurna chamando-a para clarear a minha retina. E o dia se transformou em cores e risos.
Há aquelas que não percebem a mudança e continuam com a mortalha invernal.
Ela era monocromática. Segundo ela, o preto lhe caía bem. Aos meus olhos, era um disfarce inútil revelado ao se despir. Era mais bela e verdadeira nas cores renascidas pela lua que invadia o meu quarto.
O amor não faz dieta e muito menos é monocromático. O amor é um prato colorido, com sabores e aromas diversos. Ele alimenta o corpo e faz bem pra alma.
Visto-me de rosa para alegrar o inverno e ser, inevitavelmente, gozado pelos colegas do trabalho.
Respondo rindo as suas gozações com uma única palavra:
- Machistas!
Hoje, amanheceu cinza e pesado. Abri a gaveta e lá estava uma blusa polo novinha esperando para alegrar o meu dia.
Quando ela chegou foi logo me dizendo:
- Adoro vê-lo de rosa!
Pensei baixinho:
- Que bom não ter escolhido a azul.

Paulo Francisco


Acordo dos tempos





¨Eu sei que vou te amar...¨ A música inundava na sala e eu ao telefone com o João. Insistia em vê-lo. Mas o camarada não estava nem aí. Eu não era tão importante naquele momento. Os amigos, as brincadeiras, o shopping eram mais importantes. ¨ Em cada despedida eu vou te amar¨. Cedi. ¨desesperadamente¨ O que argumentar? Eu era tão importante assim? Não, não era. A música invadia minha alma.

¨A cada ausência tua eu vou chorar¨ desliguei dizendo: Tudo bem, filho.

A música já tinha terminado, outra melodia invadia a sala, mas Tom continuava em minha cabeça. Não adianta, o moleque estava certo. Eu sou pai, estarei sempre por aqui, ou em qualquer outro lugar e ele sempre poderá contar comigo. A música insistia: ¨ Mas cada volta tua há de apagar ¨ Não me desligava da música.

Lembrei-me de meus treze anos - não era diferente do João. Tinha o meu pai a qualquer hora do dia ou da noite, então porque teria que ficar com ele quando podia estar com os meus amigos. Meu pai não iria entender as minhas atitudes, as minhas transgressões. Não conseguiria seguir os meus passos.

O que eu não sabia ou nem imaginava era que a minha presença era vital pra ele quando me chamava. Não sabia que um chamado dele era um pedido de socorro, por estar sozinho, carente, achando que o mundo iria acabar. Eu não tinha discernimento para tanto. Eu era um moleque com gana de brincar, de ser livre pra voar num mundo em que ele não podia estar. Só entendia o que me era dito. Não lia nas entrelinhas, não sabia que a vida é uma metáfora para poucos. Que canções não eram somente feitas para dançar. Não entendia aquele abraço apertado que quase sufocava.
¨ Filhos se não tê-los como sabê-los ¨ Lembrei-me do poema de Vinícius. Como entender o que foram os nossos pais se não passarmos pelos seus caminhos?

Hoje eu entendo meu filho e entendo mais ainda o que foi o meu pai. Os anos passam e tudo muda a nossa volta. Mas, é certo, a relação pai e filho tem uma base que não muda nunca – o amor.

Amanhã ligarei novamente pra ele, mas já tenho um plano B. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.

E a vida continua...

(Hoje eu executei o meu plano B. Foi ótimo!)


Paulo Francisco




Eu Sei Que Vou Te Amar by Caetano Veloso on Grooveshark

Ícaro





Homens maus não sabem voar. Era um deus nos acuda na hora de escolher a personagem. Todos queriam ser o herói que voava com a sua capa mágica. A brincadeira demorava pra começar - ninguém queria ser o vilão. Mas, numa brincadeira de bandidos e mocinhos, um grupo terá que usar a máscara preta do bandido.

Ela não voava. Não conseguia pegar carona nas asas dos meus delírios. Ria muito quando eu era forçado a aterrissar em solo firme. Não deveria ter sido nada fácil aturar-me naquelas viagens insólitas e solitárias. Ela era a minha heroína de máscara preta que tentava, a todo custo, puxar-me pra realidade. Demorei pra guardar a capa do sonhador; demorei pra descobrir que homens bons também sabem caminhar em solos pedregosos.

Às vezes eu ficava imaginando como seria a vida, a minha vida, sem a fantasia da incerteza. Não me ensinaram que a realidade é sólida como uma rocha, e que os sonhos são nuvens em construção. E como não tinha aprendido, no tempo certo, discernir um do outro, desenvolvi a síndrome do sonhador. Eu era, e não me envergonhava de ser, um sonhador nato. Usava as rochas duras da realidade para me puncionar em voos solitários e coloridos.

Certamente não me enquadrava em seu mundo perfeito e concreto. Enquanto ainda pensava que podia voar, ela já estava com os dois pés fincados em seus objetivos práticos e certeiros. Eu não estava nem de longe próximo ao seu alvo. Ela me enxergava, eu a sonhava.

Ainda continuo sonhando. Ainda continuo evitando as rochas pesadas e sombrias. Talvez eu nunca consiga caminhar por muito tempo em solo firme. Talvez nunca deixe de pensar que ainda posso voar.  Pois mesmo com os dois pés atolados ao chão a minha cabeça continua no mundo da lua.

Dizem por aí que homens maus não conseguem voar. Não sei se eles voam, se eles ao menos flutuam; só sei que viajar em brancas nuvens me faz muito bem.

Sentado no banco de trás do carro da Malu, depois de um happy hour com vinhos e risos, viajei com a canção que estava tocando – Billy Paul é tudo de bom.


De repente o celular toca acordando-me de um sonho não tão impossível. Ao desligar o aparelho, penso: Homens maus não devem voar.


Paulo Francisco

Desgarrado







Estou em falta com você. Estava tomando um cafezinho, na minha padaria preferida, quando vejo um sorriso à minha frente – era meu amigo Marcos que há meses não o via. Eu, querendo ficar por aqui, escondido, curtindo um céu azul em minha rede na varanda; ele, atarefado, com filhos, esposa e uma vida pra refazer depois dos contratempos do tempo que andou mexendo com várias famílias daqui nos últimos anos.E a dele, foi uma delas.

Não adianta, vai ter uma hora em que o afastamento é inevitável. Mas somente os corpos se afastam, os corações continuam juntos.

- Paulo, eu liguei pra ti, a semana toda, e não te encontrei. Viajou?

- Não, eu estava aqui mesmo... Não queria falar com ninguém...

- Ah, tá! 

 Tem hora que é necessário desaparecer pra aparecer. Eu explico a contradição: Quando tudo parece estar cinza, sem cheiro, sem brilho, pesado, com pouco ar,simplesmente, entro na minha ¨cápsula revitalizante¨ e só saio dela, quando há mais cores, o cheiro é bom e o brilho reflete. Quem me conhece já sabe e não se assusta com a minha invisibilidade.

Quando não estou bem, não perturbo ninguém.

Fico guardado em lembranças e planejamentos futuros.

- Menino! Quase chamei o corpo de bombeiro pra invadir a sua casa. Viajou?

- Sim e não (risos)

- Ah, ta!

Às vezes o meu desaparecimento é simplesmente por pura distração. 

Pego na encruzilhada da vida outro caminho em busca de paisagem nova e me esqueço de avisar aos mais chegados que a caminhada é longa

- Esperei você para o almoço e acabei almoçando sozinha...

- Ihhhhhh, esqueciiii... 

Tínhamos combinado né!

 - É. Não gosto de agendar nada com muita antecedência. 

Certamente mudarei de idéia e vou deixar alguém na bronca. Sou movido pela impulsão, mas não sou impulsivo. Só às vezes. - Paulo o Festival de Jazz vai começar no dia seis, vamos? 

 - Calma, ainda estamos no dia dez, deixe chegar mais próximo, ok? 

 - Ah, sim, esqueci que tem que ser na hora agá. (risos) Mas tem momentos, em minha vida, que planejo e torno-me ansioso até a conclusão do evento.Seja ele de que ordem for.

Como aquele combinado e definido e ela, me deixou a ver navios horas antes de viajarmos. Mochila pronta pra ficarmos uns dias numa cidadezinha do interior e acabei na mão. Ela desistiu de ir comigo e só me avisou quase na hora de partir.

Um dia do caçador, outro da caça – fazer o quê? Tenho consciência de que já deixei muita gente a pé por aí.
- Vem lanchar comigo hoje?

- Não dá, vou ao... No Marco Antônio ( meu dentista).

 - Depois?

- Vou fazer algo (risos)

Já na cadeira do dentista, a Magui, secretária do Dentista, entrega-me o telefone, era a minha amiga Maria dizendo que ia me pegar pra lancharmos juntos.

Fui ao lanche. Tinha programado uma coisa e acabei fazendo duas coisas. Melhor assim.

Quando desapareço e você não me tem por inteiro; quando somente o meu corpo está presente; quando meus olhos olham, mas não vêem; quando o que falo perde-se no ar; quando o ar é só pra respirar; quando tudo se resume em querer desaparecer. Deixe-me nesta hora, faça de contas que eu parti e viajei sem me despedir, mas que voltarei. Porque eu sempre volto, mesmo que arrebentado e arrependido.

- Oi, estou na cidade, posso ir até aí te ver?

- Claro, por que não?

- Posso!?

- Traz o rango, estou sem nada por aqui

- Levo o quê?

- Massas, o vinho eu tenho aqui. (Risos)

Quando a minha canção não é ouvida, quando o meu poema é concreto, quando o que eu desenho é abstrato, quando o que eu falo ninguém entende. Deixe-me, então, aqui deitado, viajando baixo, certamente irei partir.

Estou em falta com você. Parado no ponto de ônibus, lendo Clarice, depois de ter ido ao correio numa busca vã do livro da escritora Michele Pupo, sou surpreendido com a frase: ¨ Não acredito!!!¨ Era a amiga Ascenção, depois de mais de dez dias sem contato, depois de várias tentativas de me encontrar, ela esbarra na minha distração daquela tarde fria. Sorrimos e conversamos enquanto me deixava em casa de carro.

Quando volto a vê-la? Qualquer hora dessas distraído ou não.

Estou em falta com você.  Minha irmã Ana me liga, preocupada com o meu silêncio. Estou em falta com você. Minha mãe me liga, preocupada com o meu silêncio.

Estou em falta com você. Ela me liga e diz que o meu silêncio é o grito que precisava ouvir.

Sabe... Eu estou em falta comigo mesmo. Vou andar por aí. Não preciso de muito. Basta uma mochila. O destino eu vou traçando, porque o meu silêncio é sempre branco. E, de branco, vou manchando o céu, vou marcando o chão, vou confeitando os sonhos. E no branco da tela de meus textos,vou pintando o que ainda resta pra pintar.

Ah, já avisei a ela que vamos ao Festival de Jazz.

Paulo Francisco

Sobressalto




Acordei assustado. Não gosto de acordar e sair da cama num salto mortal. Até porque não acordo – torno-me um ser sem direção, totalmente zonzo.

O meu acordar requer uma ducha quente e uma boa xícara de café. É no banho que coloco minha agenda mental em ordem e, é no café que leio as noticias de ontem.

A água que cai em meu corpo não só tira a impureza de minha pele, lava a minha alma. O café quente não só muda o gosto em minha boca, aquece-me por dentro.

Ultimamente ando acordando como se dormisse em cama elástica – quando me vejo já estou fora dela e em pé. Demorei pra descobrir que o motivo deste comportamento alucinado era ela. Geralmente, durmo depois de nos falarmos, saber como foi tudo com a gente durante o dia. Mas nas últimas noites ela não quer falar comigo – está zangada.

Sabe aquela história do mesmo lado da cama, a mesma poltrona de leitura, o mesmo lugar à mesa? Eu sou assim, não posso me acostumar que depois fica difícil pra desapegar. Fazer o que se sou assim? Sou cola de selo que gruda na mão.

Vivia andando assustado. As minhas noites não estavam ficando completas, a lua estava sempre pela metade e as nuvens cobriam sempre as estrelas. Acordava como um raio – como se estivesse atrasado para um compromisso qualquer. Não gosto de começar o dia em plena agitação – sou água fria que se prepara pra ferver.

O telefone tocou e o meu alô, ou melhor, o meu ¨- pronto!¨ Foi de acordo com o meu estado de espírito – rápido como um flash. A voz do outro lado da linha contrária a minha, era doce; era angelical. Meu pronto foi quebrado por um : ¨Alô Paulo, tudo bem?¨ Que há muito não escutava. Pensei: ¨Agora sim!¨. Mas respondi do meu jeito: "Tudo."

Descobri que o apego não só me pertencia. Descobri que também sou desassossego por aí – sou selo na mão de alguém.

Depois de uma conversa guiada em pista molhada, fui obrigado estacionar e esperar a pista secar. Dirigir em estradas perigosas é um risco que não quero passar. Mas aceitei continuar de maneira prudente a viagem.

Hoje, acordei assustado. Levantei e fui direto para o banho e fiquei em dúvida com relação a noite passada, não me lembrava de lua e estrelas – não abri a janela pra conferir.

Arrumei-me como um flash. E quando percebi, estava colhendo flores em pleno inverno.


Paulo Francisco

Territorial


Acordei e fui logo pro sol lagartear. Fiquei ali por pelo menos uma hora, lendo e absorvendo o sol de uma manhã de inverno. Se o inverno acorda com o sol e, se neste dia eu posso curti-lo, transmuto-me em réptil. Sento-me num banco de praça ou deito na grama e me aqueço em leituras.

Hoje moro na serra de Teresópolis. Troquei o mar pela montanha; o calor pelo clima ameno; a neurose pela tranquilidade. Posso dizer que o meu calmante é o meu lar. Aqui me sinto soberano. Faço o que quero e quando eu quero. As regras (quase nenhuma) criadas por mim podem ser quebradas a qualquer momento – não tenho sindico para me multar e nem vizinho para me dedurar. Sou livre em meu espaço. Minha casa, minha oca.

Aqui recebo quem eu quero e quando há invasão, é invasão permitida. Permito turismo com bilhete de chegada e partida. Nada de green card; nada de território livre; nada de fronteiras abertas. Minha casa, meu Estado.

Mercorsul! Só em beijinhos e carícias.

Preservo minha natureza com pequenas ementas, passíveis de uma redação maior.

Confesso que nada é pra sempre. Posso mudar minhas regras a qualquer momento. Sou livre pra isso. Vantagem adquirida. Mesmo que pra isto transforme meu território em Faixa de gaza. Aqui tenho o livre arbítrio.

Afinal, Paraíso só o bairro em que moro.

Mas, por enquanto, vou lagarteando em gramas e redes, só absorvendo, só anotando, só adquirindo energia e conhecimento.


Paulo Francisco



(Ainda sem conexão)

Hibernação



Tudo nublado. Lá fora o tempo canta dia frio e apagado. Deito-me em protesto ao sol que não veio. Cubro-me para esconder-me do ar gélido que vem da janela. Todos sabem que eu não gosto de dias cinza. Torno-me mais preguiçoso que devia. Perco o meu dia entre cobertas e respiração em ar viciado.

Sou totalmente descompromissado comigo. Estou sempre no final da fila. Troco a minha senha com qualquer um que precise. Mas não me peça nada em dias opacos, cinzas e frios. Em dias assim, eu me cubro de mim mesmo, faço uma armadura medieval com a minha própria epiderme e, ninguém, mas ninguém mesmo consegue tirar-me de meu casulo.

Cumpro o mínimo de obrigações possíveis. Trabalho em pleno estado de letargia. Dou a mão aos meus amigos ursos, ouriços e morcegos - Eu hiberno. Sumo do mapa como os insetos.

Este estado meu de torpor faz-me ficar mais caseiro; consigo assistir a um filme inteiro na televisão; escuto mais; discuto menos; falo menos e obedeço mais.

Nestes dias cinza , sou mais anfitrião que visita. Tomo mais vinho que cerveja, como muito mais queijo e, em minha dieta, sempre haverá um caldo quentinho.

Neste dias frios, troco o meu quarto pela cozinha e sou capaz de até fazer um bolo e ficar ali, pertinho do forno lendo um livro.

Nestes dias em que o sol me abandona, minha dispensa fica colorida de caixinhas de chá; troco o bar pela confeitaria e um bolo de avelã substitui, sem cerimônia, petiscos apimentados.

O telefone tocou e fui atender – era a minha amiga Ascenção. Pra variar, reclamamos da ¨friaca¨ de hoje.

Neste dias de torpor, tenho sorte de ter alguns amigos que não suportam o frio de seus habitats e migram como as aves aqui pra casa que é mais quentinho.

Sabe de uma coisa! Até que não é tão ruim assim, dias nublados, cinzas e frios.

Teremos queijos e vinhos e muita música boa.

Paulo Francisco

Dádivas



Ganhei um cachecol. Minha amiga Marize Barros fez um cachecol lindo pra mim. Tinha me prometido no inverno passado, mas acabou fazendo este ano. É muito bom ter amigos que se lembrem da gente em momentos comuns, sem ser aniversário ou qualquer outra data comercial. Ganhar um cachecol é mais que um presente é um carinho. É uma preocupação com seu bem-estar.

Toda vez que uso o cachecol é como se ela tivesse me abraçando. O frio diminui na derme e o cachecol aquece o coração.

Amigo a gente guarda de várias maneiras. Eu os guardo em pequenos sachês de seda e fita vermelha. Tenho uma boa coleção de aromas.

Amigo tem cheiro bom. Tem cheiro de confiança; de verdade. Posso dizer que os meus amigos têm cheiro de flor do campo. Brisa tem cheiro? Tenho uma amiga que tem cheiro de brisa, quando ela chega refresca o meu rosto, me tranqüiliza. Outra, é pura margarida, vivemos no bem-me-quer e mal-me- quer, e certamente, sempre paramos no bem-me-quer.

Nos primórdios o homem utilizava mais o poder de seu nariz. Ele sentia ao seu redor pelo cheiro. Hoje, só os animais utilizam o cheiro para defender-se ou procriar-se – é o tal feromônio.

Mas acredito que a química do cheiro ainda exista em nós – uns mais e outros menos. Quantas vezes já nos pegamos admirados com casais tão diferentes. Ali, pode acreditar, tem cheiro, tem química.

Casais duradouros não estão preocupados com a visão da águia. Eles são borboletas, são atraídos pela beleza do cheiro.

O mais engraçado que minha amiga Marize é alérgica a cheiros fortes de perfumes. Ela tem cheiro de bebê – usa colônias fraquinhas. Este é seu cheiro.

Ganhei um cachecol com cheirinho de bebê.
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Paulo Francisco

Barulhinho besta







O vento bate insistentemente em sua janela. Aquele tremor, cadenciado, não a deixa dormir. Corpo cansado, pálpebras pesadas, calcanhares doloridos, não quer levantar para fechar a estúpida e irritante janela. Tateia sua mão no escuro até o criado-mudo à procura de seu remédio. ¨Maldita cabeça! Esqueci de ligar para a farmácia!¨ - Exclama a cansada mulher.
Travesseiro cobrindo a cabeça, travesseiro separando os joelhos. Tira lençol, coloca lençol – não consegue relaxar. O som ecoa por todo o cômodo. Vencida pelo barulho insistente, levanta, acende o abajur, vai até a teimosa e a cala por completo.
Abre a gaveta do criado-mudo, vasculha a bolsa, vai até o armário de seu banheiro e nada. Não encontra o remédio que a faria apagar por longas horas.
Caminha até a cozinha, faz um chá. Volta para seu quarto e em sua confortável cama, delicia-se com o sabor e a temperatura daquele liquido. Olha para a janela – agora silenciosa – sorrir o sorriso do vingador.
Ajeita-se, vira-se para um lado, pernas dobradas, pernas esticadas, braços juntos ao corpo, braços na cabeça, travesseiro cobrindo-lhe a cabeça, vira para o outro lado, travesseiro entre os joelhos... e nada - ainda acordada.
O silêncio absoluto do quarto a obriga escutar os seus próprios pensamentos. Não era mais um barulhinho cadenciado do vento batendo na janela. Cada vez mais inquieta, percebe que não vai conseguir dormir com o silêncio total daquele quarto. Então, levanta e vai em direção da janela, deixando-a como antes, entreaberta. O barulhinho besta que antes era angustiante aos poucos, transforma-se num acalanto para os seus ouvidos, para a sua alma, fazendo-a dormir como um anjo.



Paulo Francisco

Mãe





Quando ouvi Mãe de Caetano Veloso na voz de Gal Costa pela primeira vez, eu fiquei paralisado. Até hoje a música mexe comigo de uma maneira singular. Eu gostei tanto da música, que não pensei duas vezes, quando a professora pediu para a classe, como tarefa da semana, uma versão em espanhol de uma música brasileira, eu escolhi Mãe.

Todos ficaram curiosos o porquê daquela música. Não disse. Não era pra dizer, era pra sentir. Hoje pensei em fazer uma crônica para o dia das mães. Mas tudo que eu fosse escrever por aqui, alguém já disse, e bem melhor.

Falar da certeza do amor materno, do desejo de tê-la por perto, das palmadas e dos castigos, do bolo e dos presentes, dos afagos e do colo, das mãos que nos seguravam evitando-nos os abismos, dos olhos que nos vigiavam e nos serviam como lanternas no escuro frequente, das histórias contadas sobre o vento e das músicas assopradas nas noites sem estrelas; tudo isso é mais que justo, mas não seria inédito. E mãe é inédita, é única, não tem cópia, foi desenhada sem papel carbono por baixo pra cada um de nós. Sem essa de dizer que mãe é tudo igual, não, não é não, e sabemos disso. Minha mãe, tua mãe, nossa mãe, a mãe dele.

Pensei até em não escrever nada que fosse maternal, achei que seria mais interessante passar pela data e escrever algo que fugisse ao tema. Mas, não seria justo comigo, com ela e, principalmente, com as mães que me leem.

Então, pra não ser piegas e repetitivo, escolhi pra homenagear, a minha, a tua e a mãe deles, na letra da música de Caetano:  Mãe

Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visse não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
Que brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tens amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o teu caminha e o meu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
E nunca chego a ti.






Com relação ao trabalho em espanhol, tirei dez e a professora, numa versão bem brasileira, transformou-se na mãe de meu filho.


Paulo Francisco

Desejo quase secreto

Acordei com vontade de comer chocolate. Estava nítido que minha boca não queria água, nem outro tipo de doce que não fosse chocolate. Levantei e fui à caça de um pedacinho esquecido na geladeira. Nada! Somente água na minha escrava branca. Bebi um copo daquele líquido gelado e voltei pra cama em plena terça-feira à tarde. Um dia frio e acolhedor.

Às vezes meu corpo pede exageradamente algo, como por exemplo, comer chocolate ou ir à padaria comprar dois sonhos de creme lotado de açúcar de confeiteiro. Não os como lá, levo-os pra casa e num ritual só meu, me lambuzo de creme e açúcar sem nenhum arrependimento. Sou um devorador de sonhos.

Eu sou assim: quando quero uma coisa, eu quero, e quando consigo me lambuzo e me farto em meus desejos. Por isso tenho a minha geladeira vazia, assim, posso ter sempre o que desejar e não encontrar de pronto. Gosto da intensidade da vontade. Teve uma tempo em minha vida, que a gorda estava ali, para o meu bel-prazer. Mas acabava passando batido por ela e tinha a audácia de exclamar: Poxa! Não tem nada de diferente pra comer! A minha diarista da época balançava a cabeça e com o olhar de repreensão me dizia: ¨Que pecado, seu Paulo, que pecado!¨.Então, pra não passar por pecador, resolvi não ter quase nada ou nada em minha geladeira que de gorda passou à mais magra do mundo. Hoje, como fora ou trago algo já pronto pra comer em casa – é mais econômico, não dá trabalho nem aborrecimento; não fico na obrigação de repetir o cardápio e nem com a fama de pecador.

Mas hoje, neste friozinho de inverno, numa tarde especial de terça-feira, bem que queria a minha escrava branca repleta de guloseimas para poder me fartar de tanto comer.

Sem problemas! Tenho uma agenda lotada de endereços de delivery. Basta escolher um.

Hoje acordei com uma vontade de comer chocolate em especial, bombom.

Paulo Francisco

1 de maio





Vai trabalhar vagabundo!Cinco dias de vagabundagem, cinco dias de ócio, cinco dias de descanso. Já estava achando que a vida era não ter hora pra acordar, não ter ponto pra assinar e não ter dia pra labutar. Estava achando que a vida era pra ser vivida em gozo eterno. Não queria outra coisa senão andar sem as amarras do sapato, de bermuda folgada, com o meu chapéu panamá.

Neste feriado não viajei, bem, não viajei de corpo presente, fiquei em minha cidade conhecendo lugares por mim nunca explorados. Mas, também, fiz passeios já conhecidos e que gosto muito. Gosto deste descaso provocado, desta vida vagabunda que o feriado provoca na gente.

O dia primeiro de maio, é um feriado significativo, tem história, é dia de festa e de luto certamente.

Cada País tem a sua história, que o diga Portugal que só voltou a comemorar a data em 1974.

Eu já comentei em texto passado que o meu primeiro de maio mais significativo foi o do ano de 1981, já era trabalhador-estudante e estava no dia 30 de abril para assistir a um show com a nata da MPB no Riocentro, na Barra da Tijuca, onde comemorávamos o dia do trabalhador. Poderia não estar mais por aqui, se aquela bomba tivesse explodido como os militares planejaram.  Explodiu antes do lado de fora do pavilhão e um dos verdinhos que estavam armando a bomba morreu - queriam culpar os vermelhinhos. E neste dia o Chico não cantou. Só fui entender por que no outro dia.

Bomba à parte, o primeiro de maio no Brasil é comemorado com festas e não com luto, pelo menos por enquanto. Que venham as festas, mas que venha, também, a conscientização de que precisamos lutar sim por condições melhores em nossos trabalhos.

Hoje, acordei com o despertador que ganhei de uma amiga de São Paulo tocando. Olhei pro lado, olhei pro outro, estiquei o corpo e disse: vai trabalhar vagabundo!

Viva os trabalhadores do Brasil! Viva eu, viva você, viva! para todos que trabalham e fazem a história deste País.


Paulo Francisco

Domingo de Ramos


Ontem foi seu aniversário e não teve o que comemorar. O bolo que você tanto gosta solou. Não tinha bolas; línguas de sogra e nem chapéus de palhaço, porque convidados não havia. Ontem foi seu aniversário e não ganhaste presentes, porque não havia gente. Ontem você não sorriu. Você desopilou lágrimas tão amaras quanto os seus pensamentos. Ontem não foi o seu aniversário. Você não comemorou o dia de seu nascimento. Ontem, você chorou por ter nascido. Comemoraste, em desespero, a morte. A morte de quem se achava acima do bem e do mal. Ontem você não acordou, porque não conseguiu nem mesmo dormir. Ontem não teve foto nem abraços de felicidades. Ontem você ficou de luto. Não abriu a janela. Vestiu a mortalha mais pesada e viu o sorriso da morte. Choraste de ódio. Velaste um tempo sombrio de lodo e pântano.
Hoje, sentado como índio em minha cama macia, depois de uma noite de sonhos e desejos bons e leves, escrevo este texto para desejar-lhe Feliz aniversário!
Feliz aniversário, porque acredito na humanidade.
Feliz aniversário, porque todo ser é recuperável.
Feliz aniversário, porque ganhaste uma nova oportunidade.
Feliz aniversário, porque tens a oportunidade de ser um ser melhor.
Feliz aniversário, porque o céu tem sol, tem lua, tem estrelas.
Feliz aniversário, porque o mar te chama.
Feliz aniversário, porque o vento ainda pode afagar-te.
Feliz aniversário, porque o coração ainda bate em teu peito.
Feliz aniversário, porque o mundo não roda somente pra ti.
Feliz aniversário, porque hoje é domingo pascal.
Feliz aniversário, porque ainda há tempo...
Feliz aniversário, porque há canções.
Feliz aniversário, porque em algum lugar há um par - dance!
Feliz aniversário , porque a felicidade existe, olhe para o lado e sorria.
Feliz aniversário - Acredite! Deus existe.


Paulo Francisco


Estacionando











Outono. Não temos árvores peladas nesta estação e tampouco tapetes de folhas amarelas e quebradiças. O nosso outono não fica pálido – se mantém verde. Só sabemos que estamos nele, porque temos as visitas do verão não querendo ir embora e do inverno marcando território. Esta indecisão é sinônimo do outono. Ele não é constante, marcante, como em outros lugares; podemos chamá-lo de estação hiperativa - levada mesmo.
As noites outonais são de céu anilado e rendado por estrelas volúveis. A manhã, sempre uma surpresa, ora nublada, ora ensolarada – não tente adivinhá-la.
Nunca se sabe como será o dia, então, o melhor é ter sempre um abrigo na bolsa, para aqueles dias de indecisões: sol e chuva.
O sol pode ser de extremo verão ou simplesmente brando, agradável. As chuvas já não são mais em monções e, sim, numa cortina repentina quase invernal.
As sombras são convidativas e refrescantes, principalmente ao meio dia ensolarado.
O nosso outono é quente, latino. Tem flores, frutos e sementes.
Se eu tivesse que comparar a minha vida com uma estação, certamente, seria o outono.



Paulo Francisco




Resquícios







Fechava os meus olhos na esperança de alcançar. Não perdia a mania de achar que os meus pensamentos tinham superpoderes.  Achava que se desejasse com força e do fundo do meu coração alcançaria o que queria. Poucas foram as vezes que o desejo acabou em decepção.

Acho que essa mania de ¨superpoderes¨ veio das brincadeiras de criança. Lembro-me bem de uma técnica infalível de conseguir tirar boas notas nas provas bimestrais ou de pelo menos delas não serem tão baixas. Antes de deitar-me, sentava em minha cama e fazia em pensamento, a rotina do dia seguinte. Imaginava todo o meu itinerário indo e vindo do colégio.  Construía uma calmaria enfeitada de coisas boas e sorrisos. Como eu não era tão ruim como aluno, acabava acreditando que o meu pensamento era poderoso.

Depois, já quase adulto, fechava os olhos na esperança de voltar a ter aquele poder de alcançar. Ah, quantas vezes eu acreditei inutilmente que era capaz.  Cerrava os olhos tão forte que ao abri-los ficava zonzo e cego por alguns segundos. E quando tudo voltava à realidade, meus olhos marejavam em decepção e claridade.

Mais tarde, já não pensava em alcançar somente com os meus pensamentos infalíveis – agia com a razão que em mim foi construída as duras penas pelo tempo – ir à luta pra conquistar. Vida humana ainda de capa e máscara. Ninguém escapa de sonhar.

Resquícios são resquícios – ficam.

Permaneceu em mim a ingenuidade de achar que os meus pensamentos chegariam à lua, que as estrelas dançariam com a minha canção de amor. Cheguei a acreditar que ela me ligaria por nada, simplesmente porque estava pensando em amá-la naquele momento. O telefone continuou mudo até que eu tomasse a iniciativa – pura realidade adulta e amores infantis. Ninguém escapa da criança que um dia já foi.

Hoje, fechei os meus olhos na esperança de alcançar. Voltei no tempo e recriei um novo caminho.   Não sei se vou conseguir. Mas se não tento como sabê-lo?


Paulo Francisco