A curiosidade quase matou o gato



Comigo-ninguém-pode. Lembro-me como se fosse hoje. Numa tarde qualquer estava agarrado às barras da saia de minha mãe, sempre atento as suas conversas – adorava ouvir os adultos e, era sempre expulso por um deles com a seguinte frase: "Vai brincar menino, isto não é conversa de criança!" - Pois bem, estava grudado em minha mãe voltando pra casa depois de uma visita a uma amiga dela, quando outra amiga a encontra no meio do caminho e seguiram juntas a conversar. Um papo dali, outro papo daqui e, eu atento, não deixava escapar uma vírgula.

Quando passamos por um velho conhecido terreno baldio, ouvi de uma delas: ¨ Como pode, um terreno deste abandonado, sem uma cerca e cheio de mato.¨ a outra: ¨ um perigo! Olha! e está cheio de comigo-ninguém-pode, um veneno!

Fiquei com o nome da planta manchada em minha cabeça e com aquela palavra saltitando em minha mente: Veneno! Toda vez que passava próximo ao terreno ficava a namorar aquelas folhas largas e convidativas, até que uma tarde resolvo saber se era verdade que planta era venenosa e mastiguei-a com gosto. Pra encurtar esta história, foi o único dia que uma travessura minha não acabou em chineladas, mas em compensação me fizeram vomitar até as tripas. Fiquei mole por uns bons dias e ainda ouvi sermão de todo mundo. Senti saudades da chinelada Era mais rápido e curava logo.

Eu era assim, o revés da obediência. Ouvia que não podia e aí que eu queria. Tomava banho de chuva, fugia à noite pra brincar na rua, andava de trem até a quinta da boa vista, ia ao cinema depois da aula.

Hoje já cumpro mais com os meus deveres e obrigações. Mas a curiosidade em querer saber das coisas sempre foi o meu fraco. Por este complexo sentimento caí em algumas ciladas.

Hoje me comporto com cautela. Olho a folhagem pintada e no máximo mostro-me em desejo. Estou mais cuidadoso – gato escaldado. Descobri que o fogo aquece, mas também, pode queimar; a água sacia, mas pode afogar; nem todo vento é brisa.

Assim vou levando minha vida de curioso. Observo primeiro, estudo um pouco e depois sim ponho a mão. Nem tudo que está à vista é pra ser tocado. Nem tudo que vem ao vento é pra ser agarrado.

Aqui em casa, por exemplo, as miúdas e graciosas marias-sem-vergonha estão sempre florindo. São estudadas pela medicina. Enfeitam. Mas quem disse que não são tóxicas?






Paulo Francisco

Um comentário:

nelma ladeira disse...

É um texto curioso,assim como você descreveu,a curiosidade quase matou o gato!Mas você continua sendo curioso.Na verdade você fica á distância observando se pode ou não fazer o que quer.
Mas eu penso assim:Se você não tentar,nunca vai saber da verdade! Vai ficar o resto da vida curioso...
Só não vale comer a planta comigo ninguém pode ok! O restante é festa!!
Gostei do texto,beijinhos Paulo Francisco.