Penumbra




Levantei-me rapidamente para fechar as cortinas. Os raios solares tinham invadido o meu quarto num momento em que eu ainda precisava da penumbra. Não queria enfrentar o dia; não queria ver as cores que brilhavam, certamente, nos olhos de quem já estava de pé. Queria continuar deitado fingindo-me de morto ou de quase vivo. Eu estava triste.

Guardo a minha tristeza comigo e a cubro de carinho. Dou-lhe mimo, acalanto-a, alimento-a com lágrimas e silêncio. Torno-me o seu guardião ou ela de mim. Não a deixo sozinha por um minuto sequer. Preservo o seu egoísmo e não permito que ninguém se aproxime. Tenho medo que a tire de mim antes do fim.

 Quando a tristeza chega, entrego-me sem lutar. Tornamos-nos simbióticos temporários.  Ela usa o meu corpo cansado, enquanto eu a uso para esquecer o mundo. Nutrimos-nos de nós mesmos até a última gota da taça.

Às vezes a danada chega sem avisar e não tem alegria que a afaste de mim. O poeta já dizia que ela não tem fim. Talvez estivesse certo. E por isso, eu a alimento com tudo que há em minha alma, satisfazendo as suas vontades até se cansar de tudo. E ela se cansa – eu sei.

Tem tristeza que é pra sempre. Essa de hoje, já é uma senhora que me visita há anos. Ela se instala, acaricia os meus cabelos, as minhas costas, assopra em meus ouvidos até me deixar com frio. Ela gosta de me ver encolhido – frágil e perdido. Não luto contra. Torno-me passivo e silencioso. Sei que ela vai embora logo. É uma tristeza que vem com o vento e, com ele, vai-se.

Não sei dividir dor quando a sinto. Gosto de dividir flores e alegrias. As minhas dores eu as curo no escuro.
Dizem por aí que a minha tristeza tem nome de saudade. Uma saudade triste. Talvez seja mesmo saudade de algo que foge as minhas mãos, que os meus olhos não a alcançam. Talvez seja uma saudade triste de um tempo que não mais existe. Não sei bem ao certo o que me faz, de quando em vez, cair nessa melancolia de dormir, dormir, dormir. Durmo sem sono – Não sonho. Simplesmente finjo que durmo. Finjo pra enganar o escuro.

Os mais perversos, e são muitos, falam que me escondo da vida em sonos profundos. Não os contesto. Deixo-os pensarem que estão certos. Mas, o que sei mesmo, é que a tristeza chega sem aviso prévio. E da mesma forma vai embora.

Não sou um homem triste. Sou um homem que fica triste. Um homem que chora a tristeza. Mas como aprendi que homem não deve chorar e muito menos ficar triste, choro e fico triste no escuro do meu quarto. Lá fora, só alegria.

Hoje, deixei as janelas e cortinas abertas. Deixei os raios solares invadirem o meu quarto na esperança dela ir embora.

Hoje, eu acordei com medo do vazio.

Paulo Francisco


Um comentário:

nelma ladeira disse...

Gostei muito do seu texto.Você demonstra a sua tristeza em forma poética.
Eu também sou assim,deixo a tristeza ir embora do mesmo jeito que chegou.Mas para as pessoas,estou sempre bem!!
Boa tarde.