Despedida




Foi daqui, da minha varanda, que escrevi  a maioria dos meus textos.  Embalado pela rede, vislumbrava o contorno das montanhas em noites frias com seus céus carbonados. E de dia, buscava as aves de rapinas e os bandos de maritacas curiosas e assanhadas que de quando em vez enfeitavam o meu telhado.  Em dias transparentes ou em dias nublados ou com promessa de lágrimas, balançava-me na rede na esperança de poder voar. E voava. Viajava em nuvens psicodélicas que coloriam a minha alma e cobriam a minha pele.

Foi daqui, da varanda da minha casa que sorri, chorei, praguejei, perdoei. Fiz incansáveis juras  de amor. Escrevi alguns dos poucos poemas e li centenas de livros.

Ah! Era daqui, da minha varanda, que ouvia canções de amor tingido de cabernet soauvignon  e recitava para as estrelas trechos de poemas de meus Poetas preferidos:  ¨Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos/ Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas/ _ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos/ Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas... ¨  SALVE, SALVE!  EUCLIDES DA CUNHA!

Era dessa varanda que eu ficava à espera de sua chegada. E quantas foram as vezes que acabei dormindo sozinho porque você não veio;  se por motivos reais ou por motivos fúteis – agora já não importa mais. Deixo de ser passional e volto a ser semente em busca de terra fértil para poder germinar.  Saio do meu vaso de barro e expando-me  em outras áreas.

Hoje, despeço-me enrolando a rede, fechando a porta, e quase sussurrando no lóbulo de sua orelha um provisório adeus. Sim, um provisório adeus, um adeus de até logo, de até já, e não um adeus de nunca mais.  Ainda vivo à esperança de ser útil, mesmo da certeza da inutilidade de meus textos. Por isso há esperança na alma de um dia, na clareza do céu, as marolas se tornarem ondas que arrebentam na rocha permitindo um estrondo com o som de amar.

Hoje, faz-se necessária a despedida. Uma despedida sem lágrimas, sem tristeza. Pois... se não mais em minha varanda, certamente estarei noutro lugar. Ainda converso com as estrelas, namoro a lua e me rendo ao sol. Ainda conjugo os verbos amar e apaixonar e tantos outros que formam meus sentimentos.

Vou andar por aí, acompanhando o vento. Vou andar sem medo por aí, abraçando o tempo. Vou andar por aí, desenhando novas rotas. Vou andar por aí sem medo de bruxas e diabos.  Vou andar por aí, levitando em brumas coloridas e descansando em novos velhos cais.

Hoje, eu deixo aqui como despedida um poema antigo que fiz sentado em minha varanda:

Da varanda da minha casa

Da varanda da minha casa, vejo o céu em movimento, montanhas em verde pleno, barulhinho de passarinhos, vento em redemoinho e a criançada a brincar.

Da varanda da minha casa, recebo o sol matutino, a brisa com carinho e a lua a me vigiar.

Da varanda da minha casa, ouço canções de amor, leio os meus autores preferidos, tomo uma taça de vinho, sorvo os meus delírios e vivo as quatro estações.

Da varanda da minha casa, despeço-me do verão e recebo de braços abertos a minha estação outonal.

Da varanda da minha casa, recarrego a minha alma e aqueço o meu corpo com os sóis invernais.

Da varanda da minha casa, vejo tudo florescer, são flores primaveris que aromatizam os meus sonhos, colorem minha vida  a cada amanhecer.

Da varanda da minha casa, escrevo os meus poemas, resolvo os meus dilemas, vivo prazeres e alguns desprazeres.

Da varanda da minha casa, intrujo as indiretas, perpassam os fantasmas, rouquejo pequenos versos guardados no coração.

Da varanda da minha casa, vejo o belo, vejo o tosco, imponentes concretos, armaduras de ferro, singelas choupanas e seus jardins eternos.

Da varanda da minha casa, vejo tua varanda, vejo-te debelando o inimigo com sorrisos e gritos.

Da varanda da minha casa, desenxovalho, desfibro o anoitecer.

Da varanda da minha casa, clareio meus caminhos, espalho sorrisos e espanejo a solidão.

Da varanda da minha casa, versejo ao tempo, versejo ao infinito, sulco em neblinas pálidas e livro-me do obscurantismo.

Da varanda da minha casa, observo os coleópteros pesados e desengonçados virados ao chão, observo os  lepidópteros diurnos e noturnos  bailarem em coreografias ensaiadas, enquanto embalo-me à rede.

Da varanda de minha casa, vigio, de minha rede, os guabirus e suas intenções inglórias.

Da varanda da minha casa, varo a vastidão.


Paulo Francisco


Mania



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Toda mania tem um dono. Ou seria melhor dizer que cada louco com a sua mania? Não importa. Até porque se ela é sua, ninguém tem nada a ver com isso. Ou teria?  Se a palavra for levada ao pé da letra, aí fica complicado. Pois, a palavra vem do grego, e significa estado de loucura. Então sou louco por isso?  Talvez seja. Quem sabe?!

Maria me liga:

Papo vem, papo vai, e boom! Veio à pergunta que não queria calar:

- Paulo, você respeita as manias dos outros da mesma forma como gostaria que respeitassem as suas?
Confesso que nunca tinha pensado nisso e demorei pra entender o que ela estava querendo dizer naquele momento.  Respondi que não estava entendendo e não conseguimos continuar com aquele assunto tão complexo. Só depois, muito depois, fui entender que estava atrapalhando-a, mais uma vez, a assistir sua novela.  Será uma mania brasileira? Ou por ser coletiva deixa de ser mania.

Lembro-me de ligar para uma amiga:

- Oi fulana! Tudo bem?

- Tudo. Você pode me ligar depois. Estou vendo a novela.

- Ok.

Nunca ligue para um fanático de futebol as quartas-feiras e ou aos domingos na hora do jogo. Mesmo que os times que estão jogando não sejam o time que ele torce. Mania brasileira?

- E aíí camarada, tudo bem?

- Pô cara! Tô vendo o jogo.

- Mas você é vascaíno... Quem tá jogando é o flamengo.

- E a torcida contra?

Calo-me diante da pergunta. Vai entender os maníacos pelo futebol.

Voltando lá para o primeiro diálogo, penso que talvez Maria tenha se confundido. Não são manias o que tenho, são comportamentos que fogem ao padrão normal. Sou um antissocial por isso? Acredito que não. Mesmo não atendendo ao telefone, não gostando de celular, odiando cerimoniais, preferindo reuniões com poucas pessoas, evitando aglomerações, não comemorando aniversário, não curtindo as festas de final de ano, e só recebendo em minha casa, aqueles que realmente eu gosto de tê-los próximos a mim, não me considero um ser antissocial e sim seletivo.

Incomodo as pessoas por isso? Devo incomodar.  Fico incomodado também? Não mesmo.  Afinal de contas, cada qual com as suas manias.

As minhas verdadeiras manias, eu as guardo só pra mim. Têm algumas, confesso, que acabo divido com quem está mais próximo.


Maria me ligou hoje.  Ela, eu sempre atendo. Uma mania – é quase um vício ouvi-la todos os dias.




Paulo Francisco 

Diversidades








Gosto da amplitude do olhar; da vastidão à frente; do admirar de cima para baixo e vice-versa. Mas o que me fascina de verdade são os pequenos detalhes. O quase invisível. Perceber e transformar um instante numa tela imensa e cheia de cores, mesmo que elas sejam matizes de cinza.

Suas mãos denunciavam sua aflição. O seu grito parou na garganta e o seu olhar encharcou aquele instante. Paralisou-se diante do mundo. Seus pensamentos seguiram por caminhos nublados difíceis de serem alcançados. Correu ajudada pelo vento. Revisitou seu passado para certificar-se que ainda estava viva. Criou coragem e se debruçou em seu desejo mais carnal. Sim, ela estava viva. Sua mucosa brilhava. Seus olhos brilhavam. Seu coração acelerava a cada segundo chegado.  O seu corpo exalava vida. Ela tinha cheiro de flor.

Gosto do gesto largo; do sorriso frouxo ou do acanho tingido nas faces dos tímidos. Mas o que me encanta são alguns movimentos inesperados. Como a folha que vai caindo lentamente como se quisesse chegar ao chão num pouso suave e definitivo. Como a formação de um redemoinho no chão coberto de areia.

Ela chegou mansa. Seus gestos felinos denunciavam sua curiosidade quase infantil. Procurava, no som da minha fala, a ponta do fio que teceu a minha alma. Tentava a todo custo decifrar-me – coisa que ainda não consegui. Olhava-me como se fosse pela primeira vez. Às vezes, também me olho assim.

Gosto do dourado do verão. Da certeza da chuva no final da tarde. Dos corpos seminus passeando descontraídos na areia da praia. Mas é no outono que me sinto bem. O céu é mais azul. As árvores desnudam-se parcialmente, nos ofertando um pouco de sua sombra. Gosto da indecisão do tempo; da incerteza do dia; da surpresa a cada hora existente.

De repente o céu entristece. O sol vai embora. A noite chega clara. O vento molha o corpo. E ela chega como raio dizendo-me:

- Tenho saudade.

De repente o telefone toca. O coração fica em dúvida. A conversa fica engraçada. Transforma-se numa cantada. E a despedida é uma incógnita.

De repente o gato preto salta do muro. O passarinho voa alto. O vento bate em minha cara devagarinho. Tulipa Ruiz faz barulhinho na sala. O carteiro grita meu nome. O sorriso estampa na alma. E ela se convida a ir a minha casa, mandando-me duas garrafas de vinho.


De repente tudo fica parado à espera de um resultado que só depende de mim.





Paulo Francisco

Lembranças





Momentos guardados podem ser esquecidos. Pessoas também.  Quando a olhei depois de tanto tempo levei um susto. Perdi-me entre as nuvens carregadas que chegaram de repente. Tinha guardado uma imagem que não mais existia. Ela tornou-se uma fotografia apagada e corroída. Meus olhos duros - sem nenhum disfarce  -  procuravam por algo que não estava mais ali. Dentro, buscava sentimentos antigos e não encontrava. Revolvia, desesperadamente com as mãos, as paredes do coração na certeza de sentir as cicatrizes que pensava ainda existir. Tudo apagado.  A mágoa evaporara e eu não percebera. Olhava-a como se a estivesse vendo pela primeira vez. Outra imagem surgia do escuro.

Há momentos que valem à pena ser vividos. Esse foi um instante revelador. Curei-me sem dor. Não houve absolutamente nada – o céu não sangrou. De repente ela não fazia mais parte de minha vida antiga. Foi um suspiro longo de alívio e ressurreição.  Mesmo percebendo de quando em vez, pelo aço da porta à nossa frente, os seus soslaios sem importância, não deixei de sorrir. A megera fazia parte de um passado pulverizado pelo tempo e levado pelo vento.  Vida nova, personagens novas - pensei.  A vida continua. O agora é o momento pra ser vivido - continuei pensando. E seguimos, certamente, caminhos opostos numa bifurcação além do muro.

Momentos guardados podem se transformar em tesouro. Pessoas também.  Toda vez que nos encontrávamos era uma alegria sem fim. O céu ficava pintado de nuvens brancas e miúdas. Momentos curtos guardados a sete chaves. Gostava de seu sorriso, de sua alegria quase infantil, de sua vontade de viver. Paisagem de cores fortes e ao mesmo tempo de uma delicadeza sem fim. Pessoa bonita que acariciava a minha alma e me deixava solto, leve como a vela de uma jangada ao mar. Seguíamos abraçados  sem olhar pra trás. Porque mais a frente sempre tinha algo para se aprender. Caminhadas curtas, sem grandes expectativas de futuro, porque o agora era o que tinha pra ser vivido.

 Já se passou tanto tempo desde o nosso primeiro encontro, e continua sendo uma festa a cada novo encontro. E será sempre assim – música pra se dançar. E será sempre assim o nosso encontro - claro como a paisagem de uma primavera de outubro. Porque é etéreo o que sentimos.



Paulo Francisco


Chorão






O Salgueiro-chorão alegrava a minha alma. Vivíamos juntos às árvores – as frutíferas principalmente. Nas ruas do subúrbio do Rio, descansávamos embaixo de amendoeiras; que de quando em vez cismavam em coroar as nossas cabeças com seus frutos.

Alguém sempre dizia:

- Melhor uma amêndoa que uma jaca.

E a garotada ria sem parar. Mas riamos de tudo. Até daquilo que não tinha graça.

Adorávamos escalar em dias quentes as enormes flamboyants que sombreavam as nossas ruas. Mas foi num dia ameno de primavera, aos doze anos de idade, que vi pela primeira vez, um enorme Salgueiro-chorão. E para completar aquela paisagem, ele se debruçava num laguinho artificial repleto de carpas. Meus olhos encheram-se de alegria e de esperança. Foi paixão a primeira vista.  A partir desse dia, sempre que tenho que desenhar uma árvore, é ele que desenho – guardado inteiro em minha cabeça. Lembro-me desse primeiro momento com todas as cores suaves de uma manhã de primavera.

Têm coisas que marcam a nossa vida pra sempre. O chorão foi uma dessas coisas. Foi olhando pra enorme árvore que me veio à sensação de mudança na minha vida. E como mudou.

Mesmo sabendo que não a encontraria mais naquele lugar, pois o seu tempo de vida não ultrapassa trinta anos, não resisti e fui até o local onde a vi pela primeira vez. Ela não mais existia certamente, mas o meu pensamento voltara a encontrá-la numa lembrança que encheu o meu peito de alegria.

Como eu queria que as minhas lembranças fossem somente de coisas alegres. Que as tristes fossem apagadas ou, pelo menos, guardadas numa caixa com um segredo difícil de memorizar.

Eu não sabia que ao encontrá-la a minha vida mudaria. E como mudou. Mas o que seria da vida se tudo fosse virtude? Contrario ao Chorão, tem gente que entristece a alma. Principalmente a minha.

Paulo Francisco


Segunda-Feira

Era certo. Quando aparecia no trabalho na terça-feira, todos sabiam que a segunda não foi de brincadeira. O homem sempre chegava de mansinho, passos curtos, a cabeça pouco mexia tamanho o seu peso, era sempre assim, as dores no corpo sinalizavam, que a segunda fora perfeita.
Raro uma terça-boa, quando isso acontecia era, sem duvida nenhuma, reflexo da inexistência da segunda.
Copos e mais copos de água deixavam-no reabilitado logo, assim, a terça não era improdutiva, cumpria com suas obrigações.
O que ninguém entendia era que a mazela de terça-feira era importantíssima para sua vida. Quando a terça passava como um dia qualquer, podia-se apostar que algo de errado estava acontecendo com ele. Um amigo, sabendo de sua rotina, ao vê-lo passar se arrastando em passos curtos e corpo duro, pergunta:
- E aí? Como foi sua segunda-sem-lei? Ele responde, sem mexer muito o corpo em frangalhos:
- Perfeita!
O camarada não bebia no final de semana, odiava compromissos de sábado e domingo e por isso, adotou a segunda–feira para se divertir, jogar conversa fora com alguns amigos, ou não. Saía do trabalho como se fosse para uma festa. Ao contrário dos outros dias, na segunda, ele estava com sua melhor roupa e mais perfumado. Na segunda, ele sabia que só encontraria profissionais da noite, pessoas que sabiam o que estavam fazendo. Não esbarrava com alcoólicos amadores de finais de semana; não encontraria casas cheias e barulhentas. Odiava mesas repletas de pessoas comemorando o aniversário de alguém. Exclamava sempre:
- Vão comemorar em casa, porra!
Se estivesse num local e ouvisse aquele coro de parabéns pra você... saía imediatamente.
Então enchia a cara no dia em que todos estavam de ressaca.
Vai entender!
Ah! Pior que ele não era o único.



(Encontrei esse texto num outro blog. Mas o lugar dele é aqui rs)

O Avesso da vida




Enquanto ela recortava as figurinhas AMAR É... eu devorava as crônicas da coluna de Léo Montenegro – o avesso da vida.  Era divertido, sacana, e por mais ficcionais ou surreais fossem aquelas histórias para muitos, mais eu ria com aquelas personagens de nomes esdrúxulos com histórias tão próximas do subúrbio carioca.

Tinha de tudo em suas crônicas. Era uma miscelânea fantástica de personagens divertidíssimas como a sogra, a mulata gostosa, o português, o malandro carioca, a dona de casa e um moleque qualquer. Ler as crônicas de Montenegro era tão bom quanto se lambuzar de manga à sombra de sua árvore no fundo do quintal. Era liberdade sem libertinagem, era sacana sem sacanagem. Foi por causa de suas crônicas diárias no jornal O Dia, que eu passei a ler jornal. E foi lendo jornal que descobri vários escritores.

Os nomes das personagens foi uma grande sacada – a história contada se transformava em ficção por mais verdadeira fosse.

Lembro-me que na sexta-série eu propus a Professora Regina que tivéssemos um caderno de redação. Ela concordou e adotou. Uma vez por semana, levava os nossos cadernos para corrigir e sempre ria com as minhas histórias e personagens esquisitos – adorava imitar o Léo, inventando nomes esquisitos para os meus personagens.

 A revista em quadrinhos também era uma paixão. Devorava todas que encontrava a minha frente. Quando chegava à página das histórias sem diálogos pegava o lápis e fazia a minha própria história dentro dos balões. Divertia-me com as onomatopeias mesmo sem saber o que fazia tinha esse nome.

Quem nunca brincou de forca? Pois é, lia bula de remédio só para achar nomes esquisitos – era muito bom enforcar os outros.

O Léo não foi o meu primeiro livro porque ele não escreveu nenhum. Mas lendo as suas crônicas acabei me interessando por outras leituras.

Qualquer hora dessas eu conto sobre as histórias das páginas amarelas de uma certa revista. Mas aí foi numa outra fase de minha vida.

Paulo Francisco

Perfume




Um dia desses acordei querendo um abraço apertado. Um abraço daqueles que gruda e enlaça a alma. Acordar enlaçado por quem te quer bem é presente de Eros.  A carência acompanhou o Sol. Passei o dia querendo um afago; um afago lento; daqueles sem tempo pra terminar. Quem não gosta de um dengo? De massagem no ego? De chamego na alma? Passei o dia querendo um cheiro no pescoço; de ouvir segredos roucos e molhados – daqueles que arrepiam o corpo e nos fazem levitar. Quem não gosta de momentos amorosos e descompromissados, desregrados, despudorados do começo ao fim?  Eu gosto.

Acordei com vontade de voar. Mas o chão era o meu limite. Tinha que trabalhar. Segui o dia na certeza da rotina diária. Mas quem disse que passaria despercebido? Até os verdadeiros miméticos são descobertos por olhos espertos.

Uma colega no trabalho:

- Vamos sair pra uma cerveja?

-Não posso. Tenho outro compromisso.

- É por isso que você veio todo arrumadinho?

Gargalhadas

- Claro que não... Essa é minha roupa de sempre...

- Barba feita, cabelo cortado...

- Que tal amanhã?

- Hummmm... Amanhã... Tudo bem!

- Combinado então!

Melhor ser amigável, ceder alguns caprichos, que criar um mal-estar. Passei a tarde sendo seguido pela indiscrição. Se até os peckhaminanos são descobertos por olhos curiosos, porque acharia que um velho e comum mamífero passaria batido por olhos rapineiros num solo descampado.

A senhora da limpeza:

- Seu Paulo, o senhor fica bem melhor sem a barba.

A moça da cozinha que vive reclamando da minha cara suja:

- Com a cara limpa é bem melhor.

Fiquei pensando no que estava acontecendo. Qual seria a minha bandeira.  Porque eu estava na berlinda.  O cabelo e a barba foram feitos ontem. E ontem ninguém comentou. 

Não estava alegre e nem triste. Estava como sempre estivera.  Com as roupas de sempre, com o mesmo perfume, com o mesmo deboche na cara.  O que saía de meus poros que fazia com que as pessoas me notassem?  O que os meus olhos estavam dizendo sem a minha autorização?  Estava eu demarcando meu território por vontades aflitas? Ou por um desejo coletivo acordamos todos com a mesma intensão? Fiquei incomodado com tantas observações. Afinal, eu sou o observador daquilo que me rodeia.  Geralmente sou a seta a procura do alvo.

Acordei com vontade e não com saudade. Saudade é lembrança guardada. Vontade é desejo a ser adquirido. Dizem que vontade é uma coisa que dá e passa. Mas vontade de amar é coisa que chega e fica. Impossível controlar. E quando a noite se revelou e a Lua iluminou o caminho, descobri que a vontade não era só minha. E no outro dia, acordei abraçando apertado, enlaçando a alma de quem queria ficar.

Hoje acordei com vontade de beijar na boca. Não... hoje acordei com saudade dos beijos seus.


Paulo Francisco

23 de agosto


ceu

À Lua

A lua está quase inteira.  Chamada nesta fase de quarto crescente.  A lua só não é poesia quando ouço alguém confundindo-a com um planeta ou estrela. Aí a poesia é guardada na cabeceira e um pouquinho de conhecimento não custa nada a ninguém.  Esclareço:

- A lua é o satélite natural da Terra.

Adoro quando alguns engolem a saliva e exclamam:

- É mesmo! Estudei isso na quinta série do colégio.

Eu não sei se a mãe está certa ou não. Mas ela só corta o cabelo na lua crescente ou cheia, nunca na minguante.  Coitados dos cabeleireiros se essa crendice fosse comprovada cientificamente.

Com relação às mares, a lua acaba recebendo erroneamente todos os créditos.   O sol tem uma boa parcela de ¨culpa¨ aos tais efeitos. A relação entre eles, ou seja, se em oposição ou conjunção teremos as marés. Mas isso é papo pra ser falado na sala de aula. Eu prefiro falar dela de outra maneira. Prefiro ouvi-la nas canções; senti-la nos poemas e vê-la em seus olhos ou simplesmente da minha janela. Quando eu nasci a lua estava em quarto minguante. Berrei para o mundo às quinze horas de um domingo quente e sem chuva. E nesse dia não teve macarrão com galinha - comida de domingo preferida quando menino.  A noite chegou num céu marinho mostrando um pedaço da lua e um montão de estrelas. No outro dia, o deus da chuva lavou a terra e os degraus para que minha mãe pudesse caminhar comigo em seus braços até a sua pequena casa.

Quando olho pra cima e vejo a lua flutuando no escuro, respiro fundo num desejo sem fim. Sempre acho que ela está lá no alto olhando, tomando conta de mim. E as vezes me sinto tão intimo seu, que começo a contar os meus segredos e desejos. Só a lua mesmo pra entender e ouvir um louco como eu.


Paulo Francisco


22 de agosto (Pressentimento)





Hoje, acordei e permaneci coberto de saudade. Não era uma saudade de tristeza. Mas também não era de alegria. Era uma sensação que de quando em vez bate e fica por um tempinho e depois se dispersa dentro do peito.  Mas hoje foi diferente, ela chegou e ficou por mais tempo em mim. Eu sempre digo que têm coisas que a gente não controla. A raiva a gente controla; a euforia a gente controla; mas a saudade é quase que impossível de se controlar.

Cecília escreveu:  De que são feitos os dias?/ De pequenos desejos/ Vagarosas saudades /Silenciosas lembranças. 

Pessoa escreveu: Eu amo tudo o que foi /Tudo o que já não é /A dor que já não me dói /A antiga e errônea fé /O ontem que a dor deixou /O que deixou alegria /Só porque foi e voou /E hoje é já outro dia.

Talvez eu tenha acordado com pequenos desejos porque hoje é um outro dia. Não sei. Não sei que sensação foi essa que acordou comigo e permaneceu por todo o meu dia.
Têm dias (e que são muitos) a saudade rasga a pele e crava a alma. É dor que acorrenta e escraviza. É dor que quer ficar.

Chico escreveu e cantou: Que saudade é o pior tormento/ É pior do que o esquecimento/ É pior do que se entrevar.

Eu sei que saudade é essa que fica guardada na penumbra do dia, que se esconde num suspiro disfarçado querendo escapar.  Eu sei que saudade é essa que o chão se desnivela querendo derrubar. Eu sei que saudade é essa que a paisagem fica num tom  acinzentando querendo enganar.

Hoje, acordei e fiquei como aquela poesia que um dia escrevi:

 Chove
- não muito
Chove intermitentemente
uma chuva fina e sem vento
Não estou com frio
Mas estou triste
Muito triste como Campos no século passado
Muito triste como Caetano em seu quarto
Chove intermitentemente
E eu, à janela, de repente esqueço-me do dia de hoje.
Porque estou me sentindo triste como Caetano e Álvaro de Campos.


Talvez essa sensação que não é saudade, que não é tristeza e tampouco euforia, seja apenas um vaticínio que sempre acontece na segunda metade de agosto.

Talvez toda essa coisa abstrata seja uma predição de como estará a minha alma daqui alguns dias. Porque sei que no dia vinte e seis estarei triste. Eu sei.

Paulo Francisco


Momentos

-1-

19/07

Manhã

Uma mulher, um menino, um filhote de gato, uma casa pequena e algumas imagens fragmentadas.  A mulher era triste, o menino solitário e certamente o filhote era mais um de tantos gatos  abandonados.  E de repente todos estavam no mesmo espaço. A sensação era de angustia e de indecisões. O gato estava magro, o menino com fome e a mulher cansada. Tudo era cinza. Não havia cores. Não havia não...

O menino foi levado em desespero por outra mulher num carro conversível preto, o gato cheio de pulgas andava pela casa miando baixinho e a mulher chorava apertado sentada numa cadeira de madeira próxima a cozinha.
Acordei assustado com uma única frase na mente: Amarre as minhas mãos e salve-me de mim mesmo.

O que nós quatro estávamos fazendo ali? E o que significava aquela frase? Acordei com as interrogações em meu peito. Fiquei por um bom tempo da manhã com a magreza do gato, a fraqueza do menino e a tristeza da mulher. Sabia que tudo era somente um sonho. Mas mesmo assim as imagens fragmentadas mexeram comigo. Talvez não fosse somente um sonho; talvez fosse algo que um dia existira na minha vida. Mas não iria pensar por muito tempo. Sonho é coisa que se desmancha pelas mãos da realidade. E agora deixo esse texto porque um churrasco me espera. Mas eu volto com certeza.

-2-

20/07

Manhã

O domingo fora perfeito. Sol ameno com um céu azul e gente amiga num churrasco de confraternização.  Uma coleção de samba de primeira, cerveja gelada e carne ao ponto. Tricolores e vascaínos torcendo pelos seus times e pela grana do bolão.

O domingo fora perfeito. Alegre e tranquilo. Tem dias que são somente dias que passam em horas e rotinas. Tem outros que são de pura alegria. Ou o contrário de tudo isso. Mas ainda são dias. Hoje, a segunda nasceu preguiçosa e de céu escuro.  E adivinha? Farei companhia a ela. Dias assim me convidam pra uma leitura descompromissada e silenciosa. Nem todo dia cinza é dia de poesia triste. Nem todo céu cinzento é sinal de chuva. E caso seja, que venha lavar-me a alma pra que ela possa se vestir de mais alegria.

Porque foi num dia cinza com promessa de chuva que a encontrei parada na esquina.

Porque foi dentro da chuva de um dia cinzento que nos abraçamos mais ainda.

Tarde

Contrariando a manhã, a tarde chegou clara e azul. Repetindo o cenário de ontem, afirmando que nada é pra sempre.

Pessoa escreveu:

¨Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.¨

Contrário ao poema de Pessoa corre em meus pensamentos a certeza do sol. Mas o poema é lindo e continua assim:

¨Tenho uma grande tristeza
Acrescenta à que sinto
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.¨

Hoje eu não estou triste. Estou tranquilo. Deixando o dia passar. Ora lendo, ora escrevendo. Ou simplesmente de papo pro ar.  Olhando revoada de passarinho. Esperando a noite chegar.

E antes de terminar o texto tenho por respeito que terminar o poema de Pessoa:

¨Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não
E a chuva cai levemente
(porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.¨

Gosto desses meus dias de poemas e de canções. Da falta de compromisso. Da certeza do dia. Contrário ao do poeta há alegria no meu coração.

Paulo Francisco



Leave me alone





Deixe-me em paz!
É bom acordar com a brisa segredando na orelha. É muito bom acordar com a felicidade iluminando o quarto e desejando bom dia. Acordei com a esperança vestida de flores. Por mim, ficaria aninhado no colo do dia e jogaria os compromissos para o alto e deixaria o vento encarregado de levá-los para bem longe. Mas como no meu jardim não há somente flores, e as daninhas existem e têm seus significados, levantei para mais um dia.
Às vezes temos que driblar o inimigo, usando a sua própria arma:
- Bom dia, Paulo!
- Booom diiiiia!
Gosto de quebrá-lo na incerteza.
Deixe-me em paz!
Não é uma regra, mas há dias em que prefiro ficar sozinho. Nada de gente, nada de conversas fiadas. Quem me conhece de verdade sabe.  O silêncio me basta. Mas como entender o outro não é para qualquer um; ela acha que vivo isolado demais, que não dou oportunidade de conhecer alguém legal e que o meu castelo é cercado por um fosso cheio de crocodilos. Talvez ela esteja certa. A ponte levadiça está, na maioria das vezes, levemente erguida. Mas de quando em vez o salão nobre é aberto e as festas são demoradas e o meu Burg se transforma num autêntico schloss, enfeitado de flores e cortinas vermelhas.
 Já gostei mais dessas semanas guardadas em convites e vinhos. Às vezes era melhor mentir pra não ferir.
- Onde é que você estava?
- Aqui!
- Liguei pra ti e nada.
- Estava naqueles meus dias de reclusão
- Entendi...
Deixe-me em paz!
Mas nem tudo é literal nessa frase. O desassossego está na sua falta. E que o meu deixar em paz é estar aconchegado em seu ventre. É respirar perfume de flor. É sentir a leveza aromática de suas pétalas. É saber que o tempo é regido pelo batimento cardíaco em seu peito. Que a brisa que vem da janela nos entrelaça com fita dourada. Que o sol é coadjuvante na quentura de nossos corpos. Que o infinito é o nosso teto de madeira. E que é necessário esse silêncio de nós dois. E nessa calmaria repentina, digo:
Sim, deixe-me em paz, ficando aqui comigo.
Sim, deixe-me em paz, abraçando-me em dias frios e quentes também.
Sim, deixe-me em paz, ouvindo suas gargalhadas divertidas.
Sim, deixe-me em paz, com a certeza de sua existência.
Deixe-me, deixe-me em paz, dizendo baixinho, na ponta da minha orelha, que você já sabe o meu caminho.

Paulo Francisco







Esconderijo


Tempestades






Era quase um evento quando as manhãs acordavam densas. Era como se estivesse num outro mundo. Agarrava a mão da minha mãe com medo de me perder no desconhecido. Ainda não sabia que iria morar num lugar que evento mesmo era ter o começo das manhãs douradas. Assim que cheguei à Teresópolis, fiquei maravilhado, mesmo sem saber na época desse sentimento. Era tudo tão grande, tão ainda mais colorido. Tinha mais flores e mais cores. As montanhas estavam próximas e mais verdes. O verão era agradável; a primavera se realizava aos nossos olhos; o inverno assinava o céu com a fumaça saída das chaminés - tinha a impressão que todos jantavam as sete. Mas fora o céu do outono que me fez a cabeça. O céu era mais azul, as estrelas se apresentavam mais brilhantes e em noite de lua era sempre uma surpresa.

Ainda não tive nesse outono, em minha cabeça, o sol do meio dia num céu azul típico da estação.  Adoro essa meia-estação de temperatura amena e surpresas durante o dia. Ora frio quase inverno, ora quente quase verão.

Na adolescência:

- Vai sair sem um casaco?
- Vou!
- Mas está frio lá fora...
- Mas depois esquenta e não gosto de ficar carregando casaco no braço.

Basta uma neblinazinha pra está todo mundo coberto. Depois o tempo abre e a elegância em tons de cinza e preto passa para o incomodo ensolarado.  O amarelo rei não perdoa.

Na semana passada:

- O que foi fulana? Está passando mal?
- Não estou aguentando de calor. Achei que hoje ficaria frio e coloquei essa blusa fechada.

Mentira! Ela não estava aguentando ver sua blusa nova pendurada no cabide. Aproveitou a primeira bruma no horizonte para saciar sua ansiedade.

No inverno passado:

- Paulo, tá frio por aí?
- Sim, abaixo dos dez graus...
- Ótimo, vou aproveitar para estrear o meu casaco novo que comprei mês passado.

Pronto! Lá estava eu passeando com ela e seu casaco novo pela cidade.  Sabia que não aguentaria vê-lo pendurado no closet.  E também não entendo comprar um casaco pesado quando se mora no Rio de Janeiro.

- Por que você comprou esse casaco?
- Ué, esqueceu-se que vou para o Chile e...
- Putz! Você vai mesmo viajar de novo? Acabou de chegar do Sul.

Risos

- E foi lá que comprei o casaco...

Hoje, a manhã acordou preguiçosa. Brumadinha. Desesperançosa de sol durante todo o dia. Não gosto de dias monocromáticos. Não gosto da certeza da inexistência da diversidade. No momento, a monocromia  é certeza de tédio.  Mas às vezes é necessário recolher o arco-íris dos olhos e retirar do armário o guarda-chuva.

Achei que teria um dia tranquilo. Um dia de paz. Mesmo com a presença de nuvens e vento molhado pela manhã.  Acreditei que o meu silêncio comporia a melodia do dia.  Esqueci, por completo, que estava num outono atípico. Esqueci que a adversidade existe; que determinadas bruxas gostam de trovões e raios; que elas não gostam de flores - preferem as ervas daninha; que o bem-estar é calo num sapato apertado.

Quando me vi no nevoeiro, sem casaco e com frio, não tive nenhuma mão amiga para me guiar. Senti-me uma presa no caldeirão, numa convenção de bruxas más.

Quando cheguei nessa cidade tudo era maior e mais colorido. Mas também, ainda não tinha totalmente crescido.

Paulo Francisco

Súbito



A temperatura baixou bruscamente. O dia ficou gelado, encolhido, seduzindo a preguiça.  Cobri-me com a penumbra da tarde e deixei guardado na caixa do tempo todos os compromissos.  Deitei-me na esperança de sonhar colorido. Eu não gosto de dias cinzas quando estou em casa. Principalmente quando eles vêm com chuva fina, impedindo-me de ficar na varanda. É dela que tenho a melhor vista. E é nela que encontro o meu horizonte.

A temperatura caiu tão rapidamente que não tive tempo de reagir. O dia surpreendeu-me com suas mãos frias e úmidas. Eu não gosto de surpresas geladas. Eu não gosto de sentir frio. Tornei-me a cabra-cega no meio do redemoinho. Perdi meu norte. Fiquei sem ninho.

A temperatura diminuiu tão bruscamente que paralisou o meu peito. Deixando o meu coração aflito. Eu não gosto dessa disritmia desesperada como se estivesse por um fio.

Foi tudo tão repentino que fiquei perplexo com tamanha frieza. 

Paulo Francisco

Primeiro de abril

Camuflagem
















Quando a capitão-do-mato, guiada pela luz, invadiu o ambiente, cerziu com seu voo lento as cabeças brancas dos sete companheiros cervejeiros que estavam encostados no balcão do bar, assustando-lhes pela surpresa da visita. Sorri com a cena. E quando ela pousou no teto com suas asas marrons unidas mostrando os seus ocelos que mimetizam folhas e troncos de árvores, eu a apanhei e a levei para fora, dando-lhe a oportunidade de assustar outros marmanjos em outra freguesia.  Pronto! Foi o bastante para ser bombardeado com perguntas entomológicas. Logo veio a primeira e tinha que ser do sacana do Wanderlei:

- Isso é um lepidóptero?

- Sim. Uma Ninfalídeo. Respondi sabendo que viriam outras.

João (dono do bar) solta uma pergunta marota:

- E o bicho-pau, qual o nome dele?

Respondo na mesma ironia:

- Depende de quem está vendo e da intimidade que se tem com ele...

Gargalhadas invadem o boteco e o Wanderlei insiste em mais uma:

- Professor (a maioria me chama assim), tira uma dúvida sobre camuflagem e mimetismo...

-  Baixinho (todos o chamam assim), vou lhe responder de uma maneira que você não vai mais esquecer. Você se lembra do filme o exterminador do futuro 2 que tinha aquela máquina assassina que ao encostar num ser humano transformava-se na sua vítima? Então... Aquilo era um mimetismo.  Inclusive, ele fora feito no futuro por um metal inventado chamado mimético.

- Saquei...

Continuo:

- Outra do Arnold Schwarzenegger.  Você se lembra do filme O Predador, quando ele nada até a margem do rio e se arrasta num tipo de mangue e sem querer se cobre de lama e encosta nos galhos de uma árvore e o alienígena não consegue vê-lo? Aquilo foi uma camuflagem.

- Legal! Tá vendo... Por isso que eu gosto de perguntar as coisas a quem entende do assunto...

Ufa! Pensei: sai da berlinda. Os meus exemplos deflagraram outro assunto- cinema.

Cada um falou do último filme a que assistira, e acabo comentando que tinha assistido na televisão ao filme Adivinha que vem para jantar? Com Sidney Pottier.  Falei que achava que era uma produção de sessenta e sete. 

Depois de alguns comentários sobre alguns filmes assistido. O nome do Leonardo DiCaprio surgiu  como um ator que evoluiu.  Quando estavam citando os últimos filmes que ele tinha trabalhado como Django Livre, O Grande Gatsby e o Lobo de Wall Street, caio na besteira de mencionar Eclipse de uma paixão produzido em noventa e cinco. Ninguém ali tinha assistido ao filme. Quando falei que era um filme baseado no relacionamento de dois poetas do século XIX e que DiCaprio fazia o papel do poeta Arthur Rimbaud, foi o suficiente para o assunto pular para arte, quando o Wanderlei  comenta sobre a era cubista.

Mas antes da discussão começar, as portas do bar foram abaixadas, anunciando que a nossa segunda-feira sem lei estava chegando ao fim. As segundas-feiras são sempre assim. Quando não é futebol o assunto, a diversidade impera. Afinal de contas, o José Francisco é Odontólogo,o  Levy é Contador,o Falcão é Advogado e Professor de história, O Carlão, Fisioterapeuta, o Antônio Carlos, Engenheiro, o Denilson é Matemático, Wanderlei, comerciário, Walmir é Farmacêutico, Renato é comerciante e muitos outros que não são frequentes mas que param para uma prosa curta.

Mas o que me deixa na bronca é que ninguém  é  bombardeado com perguntas  sobre as suas profissões do jeito que sou.  E quando não respondo as suas perguntas, principalmente do sacana do Wanderlei e do sacaninha do João, sou chamado, pelos dois,  de Biólogo genérico.

Sorte a minha que eles não sabem que eu gosto mesmo é de poesia.


Paulo Francisco