Passatempo





Os nécessaires dos meus amigos estão mais pesados. Eles estão ficando calvos e grisalhos. Disfarçam a genética rapando a cabeça. Mas o disfarce tem vida curta. Logo-logo, o desenho de suas calvícies brota adornado por penugens brancas. Para os mais incomodados é necessário o cortador de cabelo na cartucheira. A qualquer momento eles sacam a máquina e engatilham o nível desejado para a satisfação de seus olhos, e em poucos minutos estão lisos como uma bola de bilhar.

Entrei no carro da Valéria e fui logo esfregando as minhas mãos na cabeça raspada do Manoel. Ele ri e compara a minha atitude com a da sua filha.  Estávamos indo para a casa de mais um careca – o meu compadre. Não me senti um estranho no ninho. Estava com o cabelo bem baixo. Dias antes, cheguei ao cabeleireiro ( também de cabeça raspada) logo dizendo:

-  Adriano, baixinho, baixinho mesmo, quase máquina.

Ele riu e exclamou:

- Vou usar a tesoura... depois não terá volta!

O encarei pelo espelho e confirmei sorrindo, acenando a cabeça. Meia-hora depois estava mais leve alguns gramas.

 Saquei da mochila a minha boina e segui em frente.  Uso a boina não para esconder e sim para aparecer. Tenho algumas – quase uma coleção. Entendo as mulheres com suas bolsas e sapatos.  Também entendo seus nécessaires abarrotados.

Não uso máquina para cortar cabelo, nem aparelho elétrico para barbear-me – sou lenhador da minha própria face. Foram feitos com a navalha as cicatrizes existentes.  No meu nécessaire não há eletrônicos.

Quando entrei em seu carro, ela olhou-me e disse:

- Ficou bom, mas gosto dele maior... Adoro sua mecha branca. É tão charmosa...

Ri e respondi:

- Ele cresce

Pensei:  Ainda bem que a genética ajudou-me nesse aspecto. Ou seriam os hormônios?


Seguimos pela estrada com a bagagem mais leve.


Paulo Francisco

6 comentários:

✿ chica disse...

Tão leve como a bagagem é te ler.Muito legal! abração,tudo de bom,chica

Paula Barros disse...

Leve é o texto, bom de ler, de imaginar as carecas, as brincadeiras, as boinas...
abraço

ania disse...

Mais um excelente texto...ler vc Paulo é muito prazeroso! beijos..

SOL da Esteva disse...

Um bom trecho de texto!
O que somos capazes para "desfocar" a realidade; afinal, a Natureza apenas nos aplica a pena da... penugem.



Abraços



SOL

Ani Braga disse...

Oi Paulo querido

Adorei o texto, principalmente " sou lenhador da minha própria face."
Achei lindo isso.

Beijos e um lindo 2015.
Ani

Nelma Ladeira disse...

Não importa grisalho ou careca!
O homem está sempre charmoso.
Lembra da música? É dos canecas que elas gostam mais rs.
Beijinhos.