O Avesso da vida




Enquanto ela recortava as figurinhas AMAR É... eu devorava as crônicas da coluna de Léo Montenegro – o avesso da vida.  Era divertido, sacana, e por mais ficcionais ou surreais fossem aquelas histórias para muitos, mais eu ria com aquelas personagens de nomes esdrúxulos com histórias tão próximas do subúrbio carioca.

Tinha de tudo em suas crônicas. Era uma miscelânea fantástica de personagens divertidíssimas como a sogra, a mulata gostosa, o português, o malandro carioca, a dona de casa e um moleque qualquer. Ler as crônicas de Montenegro era tão bom quanto se lambuzar de manga à sombra de sua árvore no fundo do quintal. Era liberdade sem libertinagem, era sacana sem sacanagem. Foi por causa de suas crônicas diárias no jornal O Dia, que eu passei a ler jornal. E foi lendo jornal que descobri vários escritores.

Os nomes das personagens foi uma grande sacada – a história contada se transformava em ficção por mais verdadeira fosse.

Lembro-me que na sexta-série eu propus a Professora Regina que tivéssemos um caderno de redação. Ela concordou e adotou. Uma vez por semana, levava os nossos cadernos para corrigir e sempre ria com as minhas histórias e personagens esquisitos – adorava imitar o Léo, inventando nomes esquisitos para os meus personagens.

 A revista em quadrinhos também era uma paixão. Devorava todas que encontrava a minha frente. Quando chegava à página das histórias sem diálogos pegava o lápis e fazia a minha própria história dentro dos balões. Divertia-me com as onomatopeias mesmo sem saber o que fazia tinha esse nome.

Quem nunca brincou de forca? Pois é, lia bula de remédio só para achar nomes esquisitos – era muito bom enforcar os outros.

O Léo não foi o meu primeiro livro porque ele não escreveu nenhum. Mas lendo as suas crônicas acabei me interessando por outras leituras.

Qualquer hora dessas eu conto sobre as histórias das páginas amarelas de uma certa revista. Mas aí foi numa outra fase de minha vida.

Paulo Francisco

13 comentários:

ania disse...

Crônica perfeita, muito bem construída! Meus parabéns, Paulo...sempre é um prazer ler vc! bjos..

Acordar Sonhando . SOL da Esteva disse...

As memórias do passado,
Não são passado, pois não.
São o retalho acabado,
Feito de renda ou brocado,
Mas ainda "cá" estão.


Abraços
SOL

MARILENE disse...

Paulo, tudo é fruto de sua criatividade. Ler bula para encontrar nomes esquisitos me fez rir. Há pedaços de vida que são engraçados, mas que constituíram trampolim para algo maior. Creio que as palavras sempre fizeram parte de sua essência. Bjs.

Débora Teixeira. disse...

Eu pedia para minha mãe comprar todas as sexta-feira revista em quadrinhos.
Adorava ler, mônica ,cascão,todas elas,eu era fascinada.
Mais ler bula para achar nomes esquisitos,eu nunca fiz rs.
Adorei ler,muito legal.
Beijos.

Paula Barros disse...

Gosto dos seus contos, das suas crônicas, das suas poesias, dos seus personagens.
Você escreve de uma forma que muitas vezes confundimos o autor com os personagens, e isto é bom para o leitor, prende a atenção.
beijão

Vera Lúcia disse...


Olá Paulo,

Adoro ler estas passagens de sua vida, contadas de uma maneira tão gostosa de ler.
Achei engraçado você ter lido bulas de remédios à caça de nomes esquisitos para 'enforcar' os amigos-rsrs.
Pois é, o gosto pela leitura começa assim, através de leituras descompromissadas que nos envolvem enquanto crianças.
Tenho até hoje um álbum de figurinhas AMAR É... Adorava!

Beijo.

Ani Braga disse...

Oi Paulo querido


Adoro ler as suas histórias...
Tão verdadeiras que até parece que eu vivi junto...

Beijos
Ani

Nequéren Reis disse...

Crônica maravilhosa amei em visitar esse blog sucesso
Canal:https://www.youtube.com/watch?v=EgeQXJjUpSQ
Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/

Zilani Célia disse...

OI PAULO!
TUA CRÔNICA ESTÁ PERFEITA, GOSTEI MUITO.
ABRÇS
-http://zilanicelia.blogspot.com.br/

sandra mayworm disse...

Ah!!! eu gosto muito de tudo isso. minha mãe sempre lia esse avesso da vida e a gente ria muito. Vou esperar a da certa revista.
Abç

Maria Luiza disse...

Grande, Paulo! Não deixa nada a desejar dos nossos cronistas famosos! Gostei demais e destes uma pista ótima para encontrar senhas nas bulas! Abraço grande!

Anônimo disse...

Muito bom esse seu texto.
Parabens!

Leo Nunes disse...

Olá, Paulo.
Seu comentário me remeteu há anos. Também sou fã do Léo Montenegro. Li há algum tempo que seu sobrinho, Marcelo Ramos, iria publicar um livro com reuniões das crônicas de Avesso da Vida, e boa parte já estava digitalizada, mas acho que até hoje não vingou.
Quem souber de alguma novidade sobre o assunto, peço a gentileza de informar.

Forte abraço,

Leo Nunes.