Apneia


Para Lis e Margoh



Ainda respiro. Se há oxigênio, há esperança. Mesmo que ele venha de um corpo alheio.  

Às vezes me encontro dentro de uma bolha translúcida iluminada por uma luz difusa que deixam cegos aqueles que estão do outro lado. Ninguém me vê. Eu os vejo. Posso com minhas garras rasgar a parede dessa bolha cheia de líquido? Dessa bolha que me transporta para além dos meus olhos? Certamente que sim. Mas quem disse que eu quero rompê-la? Ainda respiro. Há oxigênio suficiente para as minhas idas e vindas nesse mundo criado. Caminhos necessários a minha sobrevida.  Não sei se você me entende, entende? Esses nascimentos espontâneos, nascimentos quase que diários paridos sem dor, expelidos numa magnitude microcósmica, ar, oxigênio, bolha, luz divinal, viagens ao infinito.

Mas o mais importante de tudo isso é a respiração.  É o gás bom que gera vida na entrada e na saída no corpo dos seres vivos. Somos bichos. Pertencemos ao mesmo reino que a esponja do mar, aos sapos que hoje são tão raros, as temidas cobras e lagartixas, os belos pássaros e os mais ferozes dos felinos. Somos todos bichos que trocamos gases com outros seres verdes numa interação que só o homem não valoriza. Somos os mais ignorantes de um reino chamado animal.

É importante respirar. Mais importante ainda é ter fôlego pra aguentar essa coisa corrida que nos obriga agir no mesmo instante. Eu não quero agir por impulso. Não tenho mais a energia da juventude quando correr era preciso. Quero a tranquilidade dos passos curtos, de pés descalços numa areia fina e molhada pela espuma do mar. Refletir, agora, é mais que preciso. É capina nos emaranhados esquecidos.

Não sou e nunca fui essa parede de silêncio difícil de transpor que você vive me dizendo. A minha tagarelice fica na escrita confusa. As blasfêmias, eu as deixo nas metáforas permitidas.  Estou longe – quase inalcançável. Mas não pra tudo. A natureza me vê. Pois pertenço a ela da mesma forma que ela me pertence. Somos uno de forma assimétrica. Completamo-nos de forma livre. E é assim que tem que ser.

A invisibilidade me permite errar.

7 comentários:

✿ chica disse...

Paulo, fico feliz em ver que ainda respiras e que ainda estás assim bem inspirado e continuas em grande interação com a natureza. Bom te ver! abração, tudo de bom,chica

brisonmattos disse...

Tua invisibilidade é muito estranha pra mim. Nunca vou entender suas escolhas, por que não se permite errar, não se permite tentar. Se escrever é tentativa de ser feliz, que assim seja. Parei faz tempo de julgar as pessoas. Tambem aprendi que o importante mesmo é respirar...Mas fora da bolha. Bom te ler.

lis disse...

Delícia de tagarelice.
Fiquei tão feliz com o presente _porque sim é um presente_um poema onde podemos sentir a respiração, os nascimentos e o silêncio.Este, não doído apenas sentido
_ Voce sempre está aqui,
E admiravelmente invisível.
Já dizia Millôr Fernandes_ 'como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem!"
Daí ,é fácil te admirar e eu estou daqui admirando!
deixo o abraço e o obrigada Paulo

Nelma Ladeira disse...

Cada pessoa vive como quer! Invisível para os nossos olhos,ou dentro de uma bolha,fugindo de tudo e de todos.
Caminhando descalço na areia molhada.
Mais prefiro a sua tagarelice do que o silêncio.
Fiquei feliz com sua volta.
Boa noite Paulo.






paula barros disse...

Bom voltar a ler o que você escreve. Ler, é voltar a respirar.
beijo

Vivian disse...

Olá, Paulo!

Respirar é continuar vivendo e se vivemos sempre há esperança.
Belíssima inspiração!
Beijos!

Amapola disse...

Paulo, grande poeta!
Fico feliz que esteja aqui, junto de nós.
Beijos.