Barulhinho besta







O vento bate insistentemente em sua janela. Aquele tremor, cadenciado, não a deixa dormir. Corpo cansado, pálpebras pesadas, calcanhares doloridos, não quer levantar para fechar a estúpida e irritante janela. Tateia sua mão no escuro até o criado-mudo à procura de seu remédio. ¨Maldita cabeça! Esqueci de ligar para a farmácia!¨ - Exclama a cansada mulher.
Travesseiro cobrindo a cabeça, travesseiro separando os joelhos. Tira lençol, coloca lençol – não consegue relaxar. O som ecoa por todo o cômodo. Vencida pelo barulho insistente, levanta, acende o abajur, vai até a teimosa e a cala por completo.
Abre a gaveta do criado-mudo, vasculha a bolsa, vai até o armário de seu banheiro e nada. Não encontra o remédio que a faria apagar por longas horas.
Caminha até a cozinha, faz um chá. Volta para seu quarto e em sua confortável cama, delicia-se com o sabor e a temperatura daquele liquido. Olha para a janela – agora silenciosa – sorrir o sorriso do vingador.
Ajeita-se, vira-se para um lado, pernas dobradas, pernas esticadas, braços juntos ao corpo, braços na cabeça, travesseiro cobrindo-lhe a cabeça, vira para o outro lado, travesseiro entre os joelhos... e nada - ainda acordada.
O silêncio absoluto do quarto a obriga escutar os seus próprios pensamentos. Não era mais um barulhinho cadenciado do vento batendo na janela. Cada vez mais inquieta, percebe que não vai conseguir dormir com o silêncio total daquele quarto. Então, levanta e vai em direção da janela, deixando-a como antes, entreaberta. O barulhinho besta que antes era angustiante aos poucos, transforma-se num acalanto para os seus ouvidos, para a sua alma, fazendo-a dormir como um anjo.



Paulo Francisco

4 comentários:

Nelma Ladeira disse...

Nada melhor que o silêncio.
Ele me traz uma paz...As vezes perco o sono,e fico deitada apreciando esse silêncio...
Belo texto!!
Boa tarde.

Graça Pereira disse...

Gosto de te ler e...mais uma vez pude comprovar isso.
Há muito que não passava por aqui e...foi um prazer.
Abraço e bom fds
Graça

Van disse...

Paulo, querido

Impossível não passar por aqui. Ainda que eu esteja distante da blogosfera, algumas coisas e pessoas são imprescindíveis, seus textos e você são algumas dessas coisas.

Beijo, com carinho e saudade!

Simone MartinS2 disse...

Belissimo!! Voce conseguiu me descrever em minhas noites de insonia, onde o corpo pede uma coisa, mas a mente pede outra...Me vi em cada momento, em cada gesto e em cada barulho, segui o caminho do sono, mas confesso, nao consegui dormir, por isso aqui estou, seu texto belissimo contemplando, comentando.
Abraços amigo