Recreio

 

“Não olhe para cima, olhe para baixo. Você pode cair.”

Fazer o quê se eu estava sempre no mundo das nuvens. Contando-as, comparando-as e tentando buscar alguma forma conhecida. Contrário dos fantasmas e monstros ou coisas parecidas no escuro do quarto, essa pareidolia era divertida, deixava-me contente, principalmente, quando desenhava com meus olhos, um cavalo, a mãe com seu filhinho, um urso, um cão e muitos outros. Disputávamos quem identificava mais. Berrávamos, em festa, quando uma imagem se revelava diante de nossos olhos. Às vezes forçávamos a barra, tentávamos mostrar para o outro uma imagem que só um de nós estava vendo. Era frustrante não poder compartilhar. Vou confessar que faço isso até hoje. Se tem nuvens no céu, lá vou eu procurar formas. Acho que não cresci.

Um dia desses, no trabalho, estávamos reclamando da falta de Sol por semanas. Aí voltei no tempo em que éramos crianças e que desenhávamos o sol no chão na esperança dele aparecer em dias nublados. Detalhe: Ele tinha que estar sorrindo. Aí já emendei aquela que perguntávamos para o urubu no céu se iria chover. E se de imediato ele batesse suas asas era certo que vinha chuva. Riram. “Lembram de como chamávamos o vento?” Continuei: “Cantávamos:” ¨Vem vento caxinguelê, cachorro do mato quer me morder¨. Nessa, o Ronaldo acompanhou.  Acredito que ele, como eu, gostava de empinar pipa. O Mello estava só ouvindo quando decidiu participar dizendo que não empinou pipa quando moleque. Pronto. Já foi gozado pelo Ronaldo. Tudo bem, são amigos.

Confesso que fiquei esperando o Ronaldo que vive cantando samba e vários outros ritmos pelos corredores saísse com a música ¨Vai chover hoje urubu? ¨ de Antônio Rodrigues, cantado pelo Bezerra da Silva. Mas não foi dessa vez.

Hoje, não olho tanto para o céu. Olho menos para o horizonte. E sigo o conselho de olhar para o chão por onde piso. Já perdi a conta de tanto tombo que levei.

Pela casa.

 

Abro os meus olhos e vejo na parede um opilião caminhando lentamente entre a parede e o teto do meu quarto - Não é nenhuma novidade receber em minha casa seres estranhos - Fico deitado por um tempo observando aquele artrópode de corpo miúdo, redondo, de pernas finas e longas. Só observo o frágil invasor e nada mais.

A responsabilidade grita: Levanta, camarada! Obedeço imediatamente com um pulo da cama. Antes de ir ao trabalho, eu a observo mais uma vez. Deixo-a em seu nicho provisório e sigo para a labuta.  Aprendi, entre trancos e barrancos a respeitar o lugar do outro.

Abri os olhos e percebi que ainda estava escuro. Acordei assustado, aflito e com medo. Medo do invisível; medo das imagens criadas pelo meu cérebro infantil. De vez em quando, cerrava os olhos na esperança do homem velho sumir daquele ambiente confuso. Inútil. O velho deu lugar a mulher estranha, que por sua vez se transformou em algo mais estranho. Os fantasmas só desapareciam ao amanhecer, ou quando corria para a cama de meus pais.  Com o tempo, aprendi a driblar a pareidolia. Demorou, mas consegui.

Abro os meus olhos e deparo-me com aquela criaturinha completamente nua, totalmente livre, andando de um lado para o outro como se aquele espaço lhe pertencesse. Não era uma invasora; não era um fantasma, tampouco efeito da pareidolia. Era uma convidada. Uma pessoa querida. Pois é, complicado para um animal que gosta de ser solitário como alguns outros selvagens, dividir seu nicho; mas com o tempo, aprendi a compartilhar – já sabendo que era temporário.

Volto pra casa e a esperança foi por terra. Lá estava a inquilina silenciosa no mesmo lugar. 

Passaram se dias até que misteriosamente o aracnídeo não se encontrava mais. Mistério. Talvez o tédio da moradia obrigou-a a ir para outro lugar.

Abro os meus olhos e vejo surpreso que no lugar da elegante inquilina estava uma lagartixa.

Sorri e a dei bom dia. Fui trabalhar.

 

Amizade

Quando o ar se torna rarefeito, a angústia chega lenta e silenciosa. O desespero toma conta e a racionalidade é pulverizada num instante. É trágico, é assustador. Na psicologia é chamada de crise comum e que passa com o tempo. Pois é... Enquanto não passa, o ar pode faltar a qualquer momento e o pânico toma conta.

Valéria, minha irmã de alma, disse que é o cérebro sabotando e que na hora do pânico, o melhor é tentar usar operações de matemáticas simples, como contar números na ordem decrescente ou fazer contas de cabeça, pois ajuda a mente focar novamente.

Irene, amiga do coração, empresta seu ombro, sua orelha e seu tempo. Disposta a socorrer-me a qualquer momento.

Márcia Cristina e Paulo Henrique, meus compadres, não largam a minha mão nunca.

Claudia, mesmo morando em Barra de São João, não se esquece de mim. Aliás vou visita-la a qualquer momento.

Alexandre Mello, Ronaldo, Thiago Vinicius, Liane, Gutierre, Maria Luíza, Verônica, Valdir estão sempre procurando  saber de mim.

Hoje, descendo a rua para ir trabalhar, acabei me estabacando na calçada úmida pela neblina da madrugada. O tombo foi tão estranho que quando me vi no chão, todo torto, achei que tinha me quebrado todinho.  Demorei alguns minutos para me levantar. Senti-me o boneco Falcon – aquele todo articulado. Depois de muitos palavrões por causa da dor, tentei me levantar. Assim que levantei, o Mello chegou e Ronaldo já saiu do carro para me acudir. Sempre eles.

No trabalho, todos querendo saber o que tinha acontecido. Estava (ainda estou) mancando.

Quando estava saindo do trabalho, Victor – um debochado nato – falou:

- Paulo, não chega perto. Não tem ninguém mais azarado que você.

Rindo, já pegando minhas coisas para guardar no meu armário, pensei: Como posso ser azarado com tanta gente querida ao meu redor. Impossível, Victor! Impossível...

Como é bom ter gente boa ao nosso redor!

Quem disse?

 Que friaca! Nos últimos dias foi a frase que mais ouvi. Sempre que ouvia essa gíria, eu ria por causa da sua sonoridade: fri-a-ca. Têm palavras que são engraçadas ou soa estranho como: siricutico, faniquito, gororoba, borogodó. Para mim a palavra Songamonga é muito estranha, ofensiva - fica à beira do preconceito.

Há muito tempo, li um comentário de uma blogueira portuguesa a respeito de um texto de uma brasileira em seu blog, por ter se referido as crianças como tralha. Ela ficou horrorizada. Aí choveu comentários com frases engraçadas usando a palavra tralha. Fazer o quê!? Somos brincalhões por natureza.

Mas que está muito frio por aqui, não tenha dúvida. É um tal de: Quando esse frio vai embora? Odeio esse tempo! Gente, tá na hora desse inverno ir embora! Mas a frase que mais gosto é quando usa a famosa gíria carioca: Caraca que frio!

Só quero ver quando chegar o verão, aliás nem precisa, basta o sol da primavera para começarem a reclamar: Que calor dos infernos! Aí eu respondo: quem disse que lá é quente?

- Nunca estamos satisfeitos, não é mesmo!?


OBSERVADOR

 

Pois é... hoje o dia foi tenso. Têm determinados exames médicos que ninguém merece. Fazer o quê? ¨Se não fazê-lo como sabê-lo¨? – já parafraseando o Poeta.  Mas o que me impulsionou a escrever esse texto não foi a minha visita ao médico. Consultar-me, fazer exames periódicos já faz parte de minha rotina. Toda vez que reclamo as minhas idas ao consultório lembro da frase de minha vizinha Verônica: “Quem manda ficar velho!”

Determinadas rotinas são boas, agradáveis, como as caronas do Mello às quintas e sextas-feiras na ida e vinda do trabalho, mesmo ouvindo as piadas velhas e trocadilhos sem graça do Ronaldo – outro colega caroneiro, gente boa, tão gente boa que com sua sensibilidade sacou imediatamente que eu estava infartando ao entrar no carro. Salve-Salve amigo se estiver lendo este texto. Ir ao bar do Guty também é legal, mesmo para uma água mineral. Lá tem personagens interessantíssimos, dignos de um texto. Sou um observador silencioso? Talvez! Na semana passada, Guty chamou Liane – sua mulher - para ver a lua. Acabou indo uma galera para a calçada admirar a lua laranja pousada na silhueta da montanha. Estava linda mesmo. Lua para se admirar.

Por causa da lua, acabei falando para Tereza – uma frequentadora do bar – sobre os meus textos que têm a lua como protagonista. Ela ficou curiosa sobre os meus blogs. Falei que hoje pouco escrevo; que estou um tanto quanto desanimado. Mencionei do último texto – Dia a Dia que fiz para Irene – e que uma colega de Blog, a Nelma Ladeira, comentou a preocupação de não mais me ler. Talvez tenha sido o comentário dela que me incentivou a escrever este.

Será que vou voltar a escrever? Escrever como antes? Ou vou narrar de quando em vez uma passagem ou outra do meu dia a dia? Adoro mesclar o passado com o presente; A ficção com a realidade; mudar as cores das coisas e transportá-las para outros lugares.

Nelma, obrigado por alertar-me. Talvez, mesmo sem querer, eu esteja num momento sabático.