Azul-de-metileno



Era inverno. O dia estava nublado e frio. Resolve, então, acender a lareira. Silêncio absoluto na casa – era tudo de que precisava: o calor do fogo, o vinho tinto e uma boa leitura.
Sentado em sua poltrona preferida, volta a ler o livro que encontrara em sua estante – não lembrava em que época o tinha comprado - era um livro antigo pela data de edição, mas novo por nunca ter sido aberto. Um livro de Clarice Lispector. Ele pouco leu a autora – não era o tipo de leitura de que gostava. Mas, sem saber o porquê se interessara por aquela em especial.
Olha para a lareira e fica hipnotizado pelo bailar das chamas e o estalar da madeira.
Batem na porta – uma batida forte e rápida - ao abri-la, depara-se com um sonho: O que estaria ela fazendo ali parada à sua frente? "Estou sonhando!" "Será que aconteceu alguma coisa?" – pensa atônito.
Sem dizer-lhe qualquer coisa, a linda mulher atira-se em seus braços e o beija ardentemente. Ele sorri. Sem nenhuma palavra, retribui aquele desejo com mais desejo ainda - Eles se amavam e ali, na sala, diante da lareira acesa se amaram como nunca fizeram antes.
As chamas do fogo denunciam seus corpos aquecidos e nus projetados em silhuetas gigantes na parede branca da sala – uma imagem em preto e branco. Amaram-se como dois adolescentes. Tudo era permitido no isolamento daquela casa.
Risos... juras de amor... e silêncios telepáticos – eles se amam – Nada mais importa..
Conversam baixinho, em sussurros:
- O que deu em você? Não era pra está em sua casa de campo?
- Sim... mas tivemos uma discussão e..
- Resolveu voltar sozinha..
- Sim... não iria ficar naquela casa fingindo ser um casal exemplar.
- Mas e agora?
- Bem... eu não vou voltar nem para a casa de campo e nem para o apartamento..
- Como?
_ Resolvi me separar e ficar aqui com você.
- Mas você sabe que não pode... e seus filhos
- Eles entenderão.
- Será?
Neste exato momento, um estrondo e uma corrente de ar invadem aquele espaço, trazendo frio e medo. Os dois, nus, se assustam. A porta bate fortemente contra a parede. Ele corre imediatamente para fechá-la e sente o vento envolvendo todo o seu corpo. Era um ar gelado – prenúncio de uma grande tempestade. Quando se volta, ela sumira...
O homem sai de seu transe e percebe que sonhara. Sonhara com seu amor proibido; sonhara com quem está distante de sua vida.
Tudo continua igual, nada mudou, a sala permanecia como antes, acesa e quente.
Levanta e nota que o seu livro caíra no tapete. Ao pegá-lo, percebe que a taça de vinho também fora derrubada manchando a capa. O liquido derramado, tingiu num tom róseo o seu titulo: ¨ Felicidade clandestina¨.
Sorri – a porta abriu com a força do vento. Antes de fechá-la, para por alguns segundos e, vê que há lá fora uma cortina de fumaça impedindo sua visão." Está tudo nublado..."
Já é noite.
Não há lua nem estrelas no céu.
O céu fora coberto pelo cinza de um inverno solitário e sombrio.
Dentro daquela sala tudo estava em preto e branco, como uma fotografia antiga e desbotada. As chamas já não aqueciam mais aquele ambiente.
De repente, lá fora, o som de um carro chegando. Ele abre a porta e percebe que já não há mais neblina e o céu voltou com a sua cor azul de metileno e a lua que há pouco não se via, apareceu inteira e prateada...


Paulo Franciso

Um comentário:

Rita disse...

Maravilhoso como tudo que vc posta
Lareira e vinho é o que precisamos para ter a felicidade
Eu adorei
Deixo um abraço de bom domingo
Bjuss
Rita!!!!