De novo o gato!



As minhas experiências com gatos nunca foram agradáveis. Eu tento, juro que tento ser amigável com os bichanos. Mas há uma incompatibilidade enorme entre nós dois. Eu não sei precisar o início dessa ojeriza, mas quando criança, lá pelos oito anos de idade, assisti ao atropelamento de uma gata prenha – era uma felina linda. Até então, não me importava com a espécie.

Naquela tarde, estava na calçada, próximo à minha casa e, de repente, vejo a pobre da gata colada no pneu de um fusca. O carrinho, pelo menos, girou duas vezes, para não dizer três, antes de cuspi-la longe de sua roda assassina.

Lembro-me, com exatidão, de que saí correndo para o colo de minha mãe. Jurava que a infeliz foi morrer longe dali, pois não tinha dono, era uma inquilina adotada por todos da Vila onde morávamos. Depois de ter sido afagado pelas mãos maternas, esqueci o acontecido e como qualquer criança, fui brincar com os amigos, pois eram mais importantes as brincadeiras, que ficar lembrando de tal episódio.

Após uma semana, já tinha apagado de minha memória recente o atropelamento. Mas, numa certa manhã, notei um alvoroço danado no final da Vila, quase todos os adultos estavam lá formando um circulo, contemplando algo.

Ouvia nitidamente um grito e, a cada grito, o desespero dos adultos que corriam de um lado para outro. Uma senhora com panos nas mãos, forrava o fundo de uma caixa de madeira, transformando-a numa espécie de cama - não entendia o porquê de tanto agito.

Curioso, muito curioso, fui chegando cada vez mais perto e, quanto mais me aproximava, reconhecia que o som que ouvia era de um gato. Abri caminho entre aquela barreira humana e deparei-me com a cena mais grotesca da minha vida: era a atropelada dando cria. A gata tinha parte do corpo sem pêlo, estava, como se dizia naquela época, em carne viva.

Saí correndo em desespero para casa e, foi ali que acreditei, piamente, que esses seres tinham sete vidas. Nunca mais consegui chegar perto daquele animal.

Outros episódios aconteceram comigo e os felinos, mas foi na minha adolescência que descobri que tinha pavor deles. Não entrava em casa de jeito nenhum se não chegasse alguém até o portão, para proteger-me de, pelo menos, uns dezenove gatos sentados no muro do corredor da Vila onde uma tia morava – nesta época, eu morava com ela

Quanto mais olhava para aquele ¨corredor-gatês¨, imaginava todos me atacando, numa revolta felina. Não conseguia dar um passo a frente. Ficava, ali, paralisado, esperando um bem feitor, ou quando muito, conseguia gritar o nome de alguém para vir ao meu encontro. Só passava quando não existisse mais nenhum deles trepados na muralha da morte. Nunca entendi por que aquele casal precisava ter tantos desses animais. Vai entender!

Pois bem, uma semana atrás, tive um outro episódio desagradável com um bichano - o mais desagradável de minha vida. Saí do trabalho às dez da noite e, como de costume, dei uma passadinha num bar para conversar com os amigos. Geralmente, vou pra casa no ultimo ônibus, chego em casa menos pilhado, pois sou professor e lidar com adolescentes não é nada fácil. Neste dia, ou melhor, nesta noite, cheguei em casa e fui direto para o meu quarto, liguei a TV, tirei o notebook da bolsa, despi-me e resolvi ir até a cozinha preparar um café - não pretendia dormir de imediato - precisava arrumar algumas pastas no computador.

Chegando à cozinha, ao acender a luz, percebo um vulto de um lado para o outro numa velocidade incrível na área de serviço, pensei logo num animal silvestre, um gambá, por exemplo. Mas o receio (medo mesmo) me fez ser cauteloso e, sorrateiramente, fui me aproximando do local. Chegando , só consegui ver uma cauda peluda, num movimento espetacular. Imediatamente, dei alguns passos para trás, fechando, mais do que depressa a porta da cozinha. Pronto! Prendi o invasor naqueles dois cômodos. Dei a volta pela casa e abri uma das portas da área e tentei com auxilio de uma cadeira visualizá-lo através de uma das janelas da cozinha. Mas não consegui. Voltei para dentro da casa, abri todas as janelas, deixei a porta da sala escancarada e armado com um cabo de vassoura fui ao encontro do animal, na esperança dele ter fugido pela porta da área de serviço ou pela mesma abertura por onde entrou.

Confiante, numa lógica racional, tomei-me de coragem e, com a ponta da madeira batendo ao chão, fui entrando, fazendo o máximo de barulho possível. Certamente, eu estava sem cor. Minhas pernas tremiam como bambuzal em tempo de ventania.

Pronto. Estava na área, consegui acender a luz e certifiquei-me de que o animal não estava mais lá. Pensei: ¨Será que o danado fugiu? Mas se foi embora, saiu por onde? Pela abertura ou pela porta?¨ Voltei para a cozinha e senti a necessidade de olhar a despensa, mas como enfiar a cara naquele espaço de um metro e trinta por dois metros, mais ou menos e com uma única porta?. E se o bicho estivesse acuado ali? O que eu faria? Tinha que me certificar de que o visitante tinha realmente ido embora. Enchi-me de coragem, auxiliado pelo meu grande cabo de vassoura, e comecei a cutucar em todos os lugares. Alivio, lá, ele não estava - pensei. Quando já estava resolvido a acreditar que o sacana já tinha ido embora, resolvo voltar e cutucar um saco de carvão encostado a parede embaixo da prateleira e nada aconteceu.... Mas quando dei um passo para trás, vi, numa fração de segundo, um vulto com as quatro patas abertas voando em meu peito. Com a rapidez de um relâmpago, apoiou-se em minha perna dando um salto em direção à porta da cozinha, ali tive a certeza de que era um gato. O danado resolvera invadir o meu espaço. Fiquei gelado, branco, paralisado.

Aquele ataque era tudo que eu não queria que acontecesse. Sabia que eu era um ser inferior... Corri para o meu quarto, vasculhei cada canto, fechei a porta e esperei até o outro dia, certo de que o felino iria embora, pois a casa permanecera com janelas e portas abertas por toda noite.

Decididamente não há conversa entre mim e um gato.


Paulo Francisco

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