Esquisitices




Ele era franzino. Vivia num ambiente que fugia a sua compreensão. Não sabia se estava além ou aquém daquelas pessoas. Era um observador. Aprendia com facilidade tudo o que ouvia; tudo que lia. Tinha um mundo só dele – adorava inventar histórias - vivia no mundo da lua, sua mãe sempre o repreendia, não conseguia entender porque ele estava sempre aéreo.

Descobrira, ainda na infância, que podia deixar todos de sua casa preocupados, pois quando não fazia uma das refeições a família voltava toda a atenção pra ele. Então, o espírito de porco, resolveu fazer greve de fome por qualquer coisa. Bastava alguém daquela casa aborrecê-lo, pronto, decretava uma greve de fome, fazia questão de ficar o dia todo deitado no sofá da sala sem colocar um grão sequer na boca.

Bebia água em quantidade para disfarçar a fome que corroía seu estômago.

A sua pirraça era a sua bandeira.

Ver todos preocupados com a sua ¨depressão¨ era o máximo, sentia-se forte, querido, importante – deixava de ser o garoto esquisito que adorava sonhar, para ser o garoto esquisito triste de fome.

Sabia que não ficaria por muito tempo naquela condição – a fome falaria mais alto - , mas sabia, também, que enquanto estivesse naquele flagelo, a pessoa que o fizera começar a sua particular greve de fome, sentir-se-ia culpada e teria, mais tarde, toda a compreensão e carinho dela.

O tempo foi passando e suas greves de fome foram ficando maiores, até que um dia, descobrira que não valia a pena tal façanha. Resolveu substituí-la por uma atitude mais agressiva, própria da sua adolescência – deixava de falar com quem o contrariava.

O silêncio era o pior castigo, sabia que ignorar uma pessoa, na maioria das vezes, era terrível – ninguém gosta de ser ignorado.

Mas o silêncio era um risco enorme, pois, poderia perder o controle e, ele não teria como voltar atrás. Então, silêncio, somente para as pessoas que não valiam à pena.

Ele foi crescendo e sempre com atitudes extremadas. Era o rei do constrangimento. Adorava deixar as pessoas vermelhas de raiva.

Num certo momento de sua vida, usou o deboche como arma. Sabia que a ironia é a pior das atitudes, sabia que um bom deboche tirava qualquer um do sério. Fora irônico por muito tempo - Desequilibrava seu oponente com um bom sorriso irônico, por exemplo. Agradava-lhe saber que podia ser amado e odiado por muitos.

Mais tarde, já adulto, muito adulto, percebera que atitudes extremas não levam nem ele e nem ninguém a lugar nenhum. Cresceu.

Então, uma boa discussão dentro da razão era o melhor meio de atingir seu oponente, ficava horas debatendo com os amigos - defendendo seu ponto de vista. Certamente daria um bom advogado.

Hoje, cansado de tudo e de todos, tem uma nova estratégia para enfrentar os absurdos de seus oponentes – ele escreve.

Talvez seja sua melhor arma para discutir, silenciar e desconsertar seus adversários.

Pena que nem todos saibam ler.

Paulo Francisco

Um comentário:

Paula Barros disse...

Excelente. A difícil arte da convivência.