Sentido I (Qual a sua trilha sonora?)



Deitado em minha cama, naqueles dias que não quero sair dela, fiquei pensando quais seriam as minhas canções. Quais as canções que poderiam fazer parte da trilha sonora da minha vida. Tentei escolher algumas, dentre milhares que conheço. Difícil enumerá-las. Em minha infância, por exemplo, certamente, eram as canções de roda e possivelmente uma canção de ninar. É! Uma canção de ninar. Não consigo lembrar qual a melodia que saía da boca de minha mãe, mas lembro-me de que ela me ninava com uma canção de melodia triste. Lembro-me de vários cantores, mas um, jamais esquecerei, não por achá-lo o melhor cantor, o melhor intérprete, nada disso, não tinha, pela idade, esse senso crítico, mas o dono de um boteco na esquina onde morava, era indubitavelmente, fã ardoroso do cantor. Em seu estabelecimento, tinha aquelas máquinas de músicas, cheia de luzes e ele escolhia várias de Roberto Carlos. Na época, as minhas favoritas eram a Garota papo firme e Jesus Cristo, talvez por serem as mais tocadas e a todo volume.

A imagem de Elis Regina na televisão me fascinava, da mesma forma, fascinou-me um camarada de cabelos grandes, armados, usando uma bata e pulando corda num palco, o camarada era nada mais, nada menos, que Caetano Veloso. Dele sou apaixonado por tudo que faz. Mas voltando às canções, posso dizer que a música Olha, de Roberto, tem um significado especial, já não mais com sentimentos infantis, pois, pude escutar a tal canção de uma quase namorada que a cantarolou em meu ouvido numa mesa de bar. Pena ela já ter namorado e só podermos namorar às quartas-feiras, noite de somente duas aulas no Visconde de Cairu. Nunca mais esqueci da música...

Quando o meu filho nasceu, a de Guilherme Arantes – amanhã, foi a música de nós dois. A Canção da América de Milton Nascimento, sempre me lembrou e sempre me lembrará de um amigo. Mas, qual seria a minha canção? A dos Bee Gees ouvida num rádio ruidoso, onde uma menina tentava me ensinar a dançar? Maninha cantada por Marina e Caetano, dita por uma outra menina que todas as vezes que ouvia a canção lembrava de mim? Fica difícil, realmente, escolher uma única, diante de tantas fantásticas. Mas na trilha sonora de minha vida, não poderiam faltar o Nelson Gonçalves com aquele vozeirão contrastando com as vozes da galera da bossa nova. Da mesma forma que a Ave Maria às seis horas da tarde era sagrada em várias casas, inclusive na minha, o cantor Altemar Dutra, invadia o corredor cumprido da Vila onde morava com sua voz peculiar cantando lindas canções.

Eu não sou flamenguista e muito menos tinha uma nega chamada Tereza, mas era impossível deixar de cantar junto com o Simonal.

Foi em 72 no apartamento de uma moça, em Teresópolis, que vi e ouvi o LP de capa branca, escrito Caetano Veloso. Na época, fiquei ligado naquelas canções e adorando saber que Caetano e Gil, segundo ela, estavam bêbados (verdade ou não, adorei saber) e por isso erraram a melodia de Irene. Neste mesmo disco, ouvi pela primeira vez a frase: ¨Navegar é preciso, viver não é preciso¨ Adorava a Banda de Chico, mas Construção era diferente, era mais que uma música, pensava ainda moleque, era uma história com começo, meio e fim. Todos falam do disco Drama de Bethânia, mas eu adorava Pássaro da manhã, depois quase furei o LP Álibi da mesma cantora. Aliás, em meados dos anos setenta, curtia Simone, adorava a Gal, a capa do disco Índia era muito, muito sensual. Rio antigo de Chico Anísio cantada pela Alcione era lindo! Em 1976, consegui ouvir pela primeira vez - Pra dizer que não falei das flores.

Certamente, não vou conseguir montar uma trilha sonora que represente a minha vida, sem mencionar, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Alceu, Belchior, Fagner e suas proibidas, Morais Moreira, Milton Nascimento, Djavan! Mais tarde, Nana Caymi, Vinicius de Moraes, Tom e outros.

No RioCentro, o da bomba, vi Gonzagão e Gonzaguinha, João Bosco, Roupa Nova, Chico que não cantou (fiquei frustrado) e vários outros já citados neste texto e muito mais. Lembro-me nitidamente daquela noite. O banho que Caubi deu na galera com a sua Conceição foi inesquecível. Percebe-se o ecletismo? Nunca fui de uma única tribo. Sempre gostei de vários estilos, sempre ouvia de tudo. Jamais recusei qualquer canção e, foi assim que construí uma imensa trilha sonora à minha vida. Ah! Como posso deixar de mencionar a Nara Leão, o Luis Melodia, João do Vale, Cazuza, Renato Russo, Lenine, Céu, Tim Maia, Zizi, Cláudia, Ângela Ro rô, Raul Seixas, Elvis, Beatles...

Qual a trilha sonora de sua vida?

Paulo Francisco

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