Arrumação

As minhas gavetas continuam desarrumadas. No desespero da dor - à procura de meu antiácido - percebo que as minhas gavetas nunca ficam arrumadas. Definitivamente não sou metódico, vivo e sobrevivo no caos.
Não sei se conseguiria ter uma vida certinha, com café da manhã em mesas arrumadas com jarros de flores e jantares na hora certa e música ambiente ao fundo.
Não tenho hora pra quase nada. Sou totalmente desorganizado e confuso.
Então, olhando para a bagunça existente, decido, num rompante, arrumar as gavetas - quem sabe esta dor danada, em meu estômago, não passe depois de uma faxina completa nestas gavetas abarrotadas de passado?

[Decisão em ebulição]

Faço isto. Começo pelas gavetas de baixo, lá estão as mais pesadas lembranças. Retiro peça por peça. Analiso cada uma delas. Não entendo como pude guardar tanta coisa inútil.
Num saco plástico preto começo, num ritual fúnebre, a depositar as peças obsoletas: um estilingue, algumas bolas de gudes, um boletim registrando a minha mediocridade intelectual, uma foto apagada em que tento descobrir o que havia e, depois de certo tempo, arrependo-me de tal esforço – era uma fotografia amarelada, apagada. Restaurá-la era perda de tempo, continuaria lá num passado distante.
Gaveta limpa. Sigo para a seguinte. São peças tão velhas e inúteis quanto à primeira. Sigo o mesmo ritual, e antes de terminá-la, preciso de outro saco. Nesta, sobrou tão pouco que resolvo guardá-las numa caixa de madeira. Esforço inútil de recordações pálidas e ressequidas.
Faço deste dia, o dia nacional de minha independência emocional, ou quase.
Sinto-me aliviado, mas não o suficiente para exterminar de vez a aguda e teimosa dor.
Enquanto as gavetas se tornam livres de um passado sombrio, meu corpo reclama de dores musculares – ele pesa, fica curvado, travado.
Chego à última, que na verdade é a primeira de cima para baixo. Olho para aquela confusão e não sei por onde começar. Tudo está tão recente. Como desfazer de algo, ainda, tão presente.

[Surge em mim um silêncio branco]

Fico indeciso, tinha resolvido limpar tudo, não deixar nada que possa aumentar ou manter esta dor desgraçada aqui dentro de mim.

[medo do vazio]

Mas como jogar fora momentos tão recentes? Como posso achar que esta dor pode ser provocada por causa desta gaveta bagunçada?. Não, não pode ser por aí.

[decisão em ebulição]

Não vou jogar nada fora. A dor que se dane.
Eu aguento!


Paulo Francisco

Um comentário:

nelma ladeira disse...

É sinal que você não consegue se livrar do passado!
Beijinhos.