Menino, cuidado ao atravessar a rua.

 

¨ Menino, cuidado ao atravessar a rua. ¨

Essa era uma das frases, entre muitas, que escutava todos os dias quando moleque. A repetição incomodava-me muito, muito mesmo. Respondia sempre chateado com um eu sei carregado. Mas era a repetição que me fazia olhar para os lados sempre. A preocupação de quem cuida e a ranzinzice de quem é cuidado fazem parte do jogo da vida; da sobrevivência.

Ainda hoje ouço a frase preocupada, trocando somente o menino para o meu nome, ou de um modo carinhoso de ¨meu velho¨.  Já não fico descontente, pelo contrário. Agradeço pela preocupação. Quase sempre a frase me alerta para as motocicletas no corredor entre os carros.

Na carona ao trabalho, Mello e Ronaldo depois de um¨ bom dia¨ vem sempre a pergunta: Como você está? Ai de mim se não respondo logo. Já ficam achando que algo está acontecendo. E quase sempre é o meu mau humor matinal. Principalmente quando não durmo direito.

Invejo aqueles que acordam cantando.

Confesso que têm frases que me deixam incomodado. Principalmente quando é somente protocolar como a do tipo: ¨ Tudo bem com você? ¨ no começo de qualquer conversa. Sempre respondo com um¨ tudo¨ bem chocho. Às vezes nem respondo. Não vou compactuar com o que não é verdadeiro.

Ontem encontrei um colega que não via há tempos. Quando me viu disse: - ¨Olá, como vai? ¨ Ah! Não perdi tempo, emendei a pergunta cantarolando Sinal fechado de Paulinho da Viola. Cantarolamos juntos e terminamos com um abraço fraterno e muitos risos. Depois do abraço, desembestamos a conversar.

Toda vez que Maria despede-se de mim, seja por texto ou depois de uma longa conversa, é sempre com um ¨Cuide-se¨. Interpreto esse cuide-se como um afago, uma preocupação genuína por mim. Respondo sempre com um: ¨ Você também¨.