Brincadeiras

 

Para o amigo Alexandre Mello

Nem de todas as brincadeiras eu participei quando criança. Em algumas delas eu era péssimo. Tentava evitá-las para não passar vergonha. O pião de madeira com fieira era um deles. Achava fantásticos os amigos que manipulavam o danado com perfeição. O bat bag ou bate-bate era outro que me deixava com o punho e braço cheios de hematomas. Ele foi proibido nos anos oitenta – não deveria nem ter existido, tamanho perigo. Coisa estupida, possivelmente, inventada por um adulto.

Ainda criança, ficava admirado com os ioiôs dos garotos. Verdadeiros ¨profissionais¨ com manobras incríveis. Cada um melhor que o outro. Eu, tadinho, contentava-me com o meu responsivo.  Obrigado energia-cinética pela ¨mágica¨ de fazê-lo subir de novo pela corda.

Legal mesmo eram as minhas bolas de gudes – cada uma mais bonita que a outra. Gostava mais de jogar búlica que triângulo. Principalmente quando era à vera. Só participava com as mais acabadas de tantas tecadas. As bolas de gudes olhos de gato e as carambolas, ficavam guardadas numa lata – tesouro de colecionador.

Estava sempre perto dos garotos maiores. Era divertido vê-los andando de pernas de pau. Ria quando acontecia um tombo. Aliás, riamos todos com inabilidade de uns.

Alguns outros pequenos e eu, limitávamos a andar sobre latas de leite ou óleo amarradas por barbantes. Não deixava de ser divertido também. Éramos criativos com o que existia.  

Num certo tempo, passávamos a tarde toda jogando taco. Quando mudei de bairro, descobri que taco também era chamado de bets. Só parei de jogar quando quebrei o braço de um garoto por acidente.

Lembro-me de que tudo tinha sua época, o seu tempo como: pipa, pião, bola de gude e várias outras brincadeiras. À noite, principalmente as estreladas, bandeirinha, pique-esconde e muitas outras faziam parte de nossas atividades noturnas.

Em dias chuvosos, saía de cima do armário ou do fundo das gavetas os jogos de tabuleiros. Adorava o jogo de um dos meninos da rua: caminho do céu. Acho que era porque tinha céu, purgatório e inferno. Não estávamos nem aí se era doutrinário ou não. Era divertido e pronto.

Na semana passada, na volta para casa, Alexandre Mello falou todo orgulhoso do seu carrinho de rolimã; como ele o construiu e o ornamentou inspirado na série de Tv: Os gatões. O carro era um Dodge Charger 1969 laranja, com o número 01 estampado nas portas. A máquina era chamada de General Lee.

Ah, que inveja, Mello! Descer com o carrinho de rolimã, na rua Figueiras Lima numa algazarra só. Confesso que eu era proibido até mesmo de sentar num carrinho desses. Para os meus pais, carrinho de rolimã era brincar com o perigo. E certamente eles estavam certos devido aos acontecidos como: corpos ralados, cabeças machucadas, pernas e braços quebrados.

Nem de todas as brincadeiras eu participei quando criança. Mas das que participei, foram intensamente brincadas.



Imagem da internet

 

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