Passatempo

Não me aborreço em filas. Antes, sempre tinha um livro de bolso na mochila para aproveitar o tempo – vicio adquirido desde pequeno. Não as grandes filas, mas os livros. Ler, enquanto esperava a minha vez, era um método eficaz para evitar o estresse.

De quando em vez, surgia um humano furioso falando alto, discutindo com aquele que nos atenderia, reclamando da demora, do calor ou de qualquer outra coisa pequena – vergonha alheia.

Quando a fila está incompatível com o meu tempo, simplesmente recuo, volto num outro horário ou em outro dia. Simples assim.

Está bom! Sei que a tecnologia facilita a vida de muitos: temos os códigos de barra, os QR Codes e sabe lá o que mais, conectando-nos ao ambiente virtual. Mas nem tudo, por enquanto, é tecnológico. Sou das antigas. Vídeochamada jamais vai substituir a emoção do cara a cara, dos olhos nos olhos. Ameniza, eu sei!

Ultimamente, gosto mais de observar a paisagem ao meu redor – imaginar personagens a partir das características de cada uma delas: é o magro alto e narigudo; a senhora de olhos e faces redondos; a jovem de calça larga, com fone de ouvido rosa contrastando com seu cabelo azul; as duas amigas rindo com o que estão vendo no celular de uma delas; o homem de terno com a cara cansada; um outro de bermuda e chinelão, mexendo na carteira. E assim passo o meu tempo, observando e absorvendo morfologia, estilos e comportamentos. Sim, sou um observador de gente.

Ontem, na fila do mercado, a distração tomou conta de mim. Estava longe, numa viagem pra lá da realidade. De repente,  um toque leve no meu braço. Não sei se demorei para perceber, mas quando olho para quem estava me chamando, tomo um susto, um susto bom. Era ela, amiga que não via há anos. Abrimos um sorriso que iluminou a alma; iluminou o mundo.

- Assunto para um outro texto

Sobre as águas

Depois de um pé-d´água, corríamos para ver o rio bufando de cheio. Ficávamos debruçados no guarda-corpo da ponte, apontando admirados com o que aparecia naquela água turva. Surgia de tudo: pneus velhos, galhos e troncos de árvores, móveis quebrados, sacolas de lixos e vários outros objetos. A molecada se divertia com qualquer coisa. Nada pescável. Tudo que se via era para se admirar com espanto ou não. Gostoso era estar lá. Unidos, rindo numa algazarra em decibéis acima do suportável - coisa de gente inocente.

Quantos rios passaram em minha vida! Cada qual com sua particularidade. Uns navegáveis, outros impossíveis. Uns para serem acariciados, outros respeitados. Uns pedindo sombras, outros camuflados.

Os meus rios, até agora, não chegaram a ser a Ribeira do Pessoa, muito menos o seu Tejo; os meus rios, pairam em mim, num ciúme Veloso de arrepiar.

Os meus rios não são o Amazonas, o Paraná, o Madeira, o Purus, o São Francisco, o Tocantins ou o Araguaia. Os meus rios são outros, tão importantes quanto ,porque neles eu sonhei e naveguei em poesias,  prosas e até pesquei.

Hoje, toda vez que há um temporal, não corro para a ponte de um rio. Sigo para o meu quarto, onde me debruço em pensamentos e pedidos que só Ele pode me atender.

Lua tua

 

Olhar digital

Deixo a Lua pra ti. Aqui, onde estou, geralmente, perco-me com a beleza do céu. Têm noites que não me escapa nenhuma estrela.

- Paulo!!!

- Lua do caçador hoje à noite, a Lua mais próxima da Terra...melhor visão após as 23h00. Ela tá linda!

Quando li esse recado, corri para o quintal na esperança de ver e sentir o mesmo que ela. Mas não foi desta vez. Aqui, não tinha estrelas, não tinha Lua. A bruma cobria minha cabeça intensamente, escondendo a Lua de mim, não me deixando um fio de esperança em poder vê-la.

 A vida é assim mesmo. Um dia a gente ganha, no outro só nos resta a esperança. Outras Luas virão; outras Luas farão a sua, a minha, a nossa felicidade – amantes lunares, amantes celestes.

Maria, dizem os religiosos, que é na Lua cheia, a fase perfeita para fazer simpatias voltadas para o amor. Que bom que não precisamos disso. A nossa amizade é eterna.

No momento, fico por aqui, esperando uma nova Lua pra admirarmos juntos, mesmo estando do outro lado da montanha.

Como o céu permanecerá encoberto por mais alguns dias, deixo a Lua para ti.

Estio

Ao abrir os olhos, eles sorriram numa espontaneidade quase infantil. Viram a esperança de um dia de sol. Menos roupa. Mais liberdade para andar e observar o dia numa claridade azul. Não gosto de dia cinzento – entristece-me; não gosto de dia molhado – diferente dela que me disse adorar andar na chuva, molhar o corpo, mesmo que totalmente vestida. Meu corpo enrijece e teima em querer ficar na cama em dias assim. No inverno, torço pra chegada do veranico; no inverno, sonho com a primavera – ainda que não seja a estação preferida.

- Menino, vai vestir um casaco! 

Sempre que ouvia essa frase, perguntava-me: Pra quê? Vou tirar na primeira oportunidade. Moleque que brinca na rua, não sente frio, não está nem aí se o céu está cinza ou azul. O lema era brincar e brincar. E se o frio apertava, uma fogueirinha de papel e gravetos bastava para uma nova diversão.

Hoje, fecho os olhos na esperança de poder caminhar entre as cores da próxima estação.

Hoje, fecho os olhos na esperança de um amanhã de sol. Já não corro mais e nem faço fogueirinha de papel. 

Temo as nuvens escuras.

 

Sempre olhava pra cima nas tardes longas de verão, não por medo, mas na esperança das nuvens escuras ainda estarem longe dos meus olhos. Um olho na brincadeira e o outro no céu. Uma orelha nas conversas com os amigos e a outra na expectativa de meu nome rasgar o vento. Pois, quando elas chegavam era sinal de voltar pra casa. Caso contrário, meu nome ecoava por todo o bairro, sinalizando que eu estava encrencado.

É no lusco-fusco que os vampiros começam a despreguiçar. É no lusco-fusco que as luzes dos postes acendem para melhor enxergarmos o caminho de volta.

Cansei-me de Ziguezaguear por caminhos pedregosos ou lamacentos em noites frias e sem brilho. Hoje, prefiro a lucidez do dia à escuridão. Deixo-a do lado de fora de minha casa.

Temo as nuvens escuras. Não pelos os mesmos motivos de outrora, mas por saber que já se foi mais um dia.