Pela casa.

 

Abro os meus olhos e vejo na parede um opilião caminhando lentamente entre a parede e o teto do meu quarto. Fico deitado por um tempo observando aquele artrópode de corpo miúdo, redondo, de pernas finas e longas. Só observo o frágil invasor e nada mais.

A responsabilidade grita: Levanta, camarada! Obedeço imediatamente com um pulo da cama. Antes de ir ao trabalho, eu a observo mais uma vez. Deixo-a em seu nicho provisório e sigo para a labuta.  Aprendi, entre trancos e barrancos a respeitar o lugar do outro.

Abri os olhos e percebi que ainda estava escuro. Acordei assustado, aflito e com medo. Medo do invisível; medo das imagens criadas pelo meu cérebro infantil. De vez em quando, cerrava os olhos na esperança do homem velho sumir daquele ambiente confuso. Inútil. O velho deu lugar a mulher estranha, que por sua vez se transformou em algo mais estranho. Os fantasmas só desapareciam ao amanhecer, ou quando corria para a cama de meus pais.  Com o tempo, aprendi a driblar a pareidolia. Demorou, mas consegui.

Abro os meus olhos e deparo-me com aquela criaturinha completamente nua, totalmente livre, andando de um lado para o outro como se aquele espaço lhe pertencesse. Não era uma invasora; não era um fantasma, tampouco efeito da pareidolia. Era uma convidada. Uma pessoa querida. Pois é, complicado para um animal que gosta de ser solitário como alguns outros selvagens, dividir seu nicho; mas com o tempo, aprendi a compartilhar – já sabendo que era temporário.

Volto pra casa e a esperança foi por terra. Lá estava a inquilina silenciosa no mesmo lugar. 

Passaram se dias até que misteriosamente o aracnídeo não se encontrava mais. Mistério. Talvez o tédio da moradia obrigou-a a ir para outro lugar.

Abro os meus olhos e vejo surpreso que no lugar da elegante inquilina estava uma lagartixa.

Sorri e a dei bom dia. Fui trabalhar.

 

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