Passatempo


Enquanto eles não chegam, eu fico aqui entre uma palavra e outra.  Esperava ansioso a chegada de meus amigos em minha casa. Eu era um anfitrião-mirim dos mais agitados em dias de chuva. Se a rua estava molhada, escolhíamos a casa de um de nós, para dela se transformar em nosso quintal. ¨- Melhor assim! ¨  Diziam elas comparando as ruas com a segurança do lar.

Mas o que eu gostava mesmo, era de ficar na chuva e fazê-la minha companheira. Por que parar a pelada se a chuva era passageira, e se já estávamos de corpos nus? Por que deixar de ir ao parque se o sol vem logo depois? A chuva nunca fora motivo para desistirmos de nada. Já tomaste banho de mar com os pingos da chuva de verão em sua cabeça? Eu já. E é muito bom.

Ela não quis molhar os cabelos – não queria ficar comum depois de horas no cabeleireiro. Uma pena, por que o que eu queria mesmo era chuva de chuveiro e corpos molhados e trêmulos em gozos quentes – era tempo de amar e não de esnobar.

Enquanto os meus amigos não chegam, eu vou escrevendo uma coisa e outra nesta tela branca do computador. É o que me resta neste tempo ocioso.

Adorava rabiscar em guardanapos enquanto conversávamos. Ficava ali ensimesmado em meus desenhos psicodélicos. Éramos abstratos demais, não conseguíamos concretizar nada juntos. Num segundo tudo mudava, saíamos de uma alegria plena para um obscurecer profundo. 

Era tudo muito doido e doído. Uma loucura desejada e uma pseudorealidade pretendida. Tudo era ilusão. Tudo era muito confuso, tínhamos sonhos divergentes.  Caminhos contrários a serem percorridos. Juntos, nos tornávamos heterogêneos. Éramos estradas paralelas com vontade de cruzar. 

Nosso único sentido era o que um poderia dar ao outro naquele momento: o capital e a mercadoria.

Mas o que eu queria mesmo era estar com os pés no chão para poder viajar, viajar de verdade, com mochilas nas costas e grana no bolso, mesmo sendo pouca.  Estava ficando chato aquele ir e vir em viagens insólitas.

Talvez eu faça uma pequena viagem na próxima semana, uns dez dias fora das montanhas – talvez eu veja o mar, ou os mares, ainda não sei. Não gosto de sair de casa em feriados prolongados. Fica tudo tão confuso. Perdem-se muito tempo em estradas, filas de mercados e restaurantes. Prefiro as semanas comuns para tais passeios. Em feriados eu fico em casa. Prefiro a minha rede na varanda e o meu céu azul. Gosto de minha casa e o que ela representa – Paz.  Paz que conquistei aos poucos, depois de muitas batalhas internas. Finquei o mastro em meu quintal e curto hoje o tremular da bandeira branca.

Barraco? Confusão? Discussões intermináveis? Nem pensar.  Tudo bem de uma discussãozinha de quando em vez para apimentar o clima, mas não mais que uma pequena discussão. Nada de cara amarrada, virar pro lado, ficar de mal. No máximo um beicinho pra eu desmanchar em sorrisos.

Confesso que gostava dos seus beicinhos; ela ficava igualzinha as menininhas birrentas e patricinhas. Desmanchava rapidinho, aquela cara-fechada em sorrisos reluzentes.

Esta ficando chato e esquisito, eu aqui, sentado, tomando água mineral e escrevendo nesta máquina. O garçom já me perguntou duas vezes se quero mais alguma coisa. Claro que quero, quero saber onde estão todos.

Quando ficava sozinho em casa por um motivo qualquer, o tempo demorava pra passar, A casa ficava só pra mim, mas não tinha graça, era como seu estivesse numa caverna ouvindo somente os meus passos – era triste.  Aproveitava o silêncio para inventar fantasmas.

Mesmo gostando dessa vida de eremita, gosto de ter companhia em minha casa de quando em quando. É preciso trocar energia, fazê-la fluir – energia acumulada pode se tornar numa bomba perigosa.

A moça sem nome, aquela que mora perto da praia, por passar um bom tempo no computador, acabou criando, para ela, um mundo tecnológico e frio.  Não entendo pessoas que não se aceitam; que não conseguem levar numa boa os seus problemas e defeitos. Qual a vantagem de fingir ser outra pessoa? Roubar o nome da irmã e viver numa ilusão vinte e quatro horas do dia?  Ela sabe que precisa de tratamento. Eu tentei ajudá-la, mas ela recusou a minha ajuda.  Qualquer hora ela explodirá – eu sei.

Acho que estou misturando os temas.

Mas era sempre assim quando me via sozinho, viajava em paisagens distintas. Ora tudo estava cinza, ora tudo se transformava num colorido forte e intenso. Como faço agora neste texto sem pé nem cabeça, mas que me distrai e me recupera de momentos vividos.

Os amigos estão chegando...

Vou parar por aqui, senão vão descobrir que eu escrevo e que tenho essa vida paralela.

Fazer o quê? Cada um tem o seu segredo. Não é mesmo?




Paulo Francisco

2 comentários:

Paula Barros disse...

O texto, que você chama sem pé nem cabeça, me apresentou vários temas que serve para refletir.
E segredos todos temos.
bsj

Ivone disse...

Bom dia Paulo Francisco!
Que delícia que é poder escrever tudo o que temos em nossa mente, amo isso, muitos escritos eu tenho que nem me atrevo a publicar, mas esse seu me fez lembrar tantas coisas, a chuva enquanto se brinca na rua, amava tomar chuva, ainda amo, ah, que bom foi ler até o final, viajei com prazer por aqui!
Abraços!