Passatempo

Não me aborreço em filas. Antes, sempre tinha um livro de bolso na mochila para aproveitar o tempo – vicio adquirido desde pequeno. Não as grandes filas, mas os livros. Ler, enquanto esperava a minha vez, era um método eficaz para evitar o estresse.

De quando em vez, surgia um humano furioso falando alto, discutindo com aquele que nos atenderia, reclamando da demora, do calor ou de qualquer outra coisa pequena – vergonha alheia.

Quando a fila está incompatível com o meu tempo, simplesmente recuo, volto num outro horário ou em outro dia. Simples assim.

Está bom! Sei que a tecnologia facilita a vida de muitos: temos os códigos de barra, os QR Codes e sabe lá o que mais, conectando-nos ao ambiente virtual. Mas nem tudo, por enquanto, é tecnológico. Sou das antigas. Vídeochamada jamais vai substituir a emoção do cara a cara, dos olhos nos olhos. Ameniza, eu sei!

Ultimamente, gosto mais de observar a paisagem ao meu redor – imaginar personagens a partir das características de cada uma delas: é o magro alto e narigudo; a senhora de olhos e faces redondos; a jovem de calça larga, com fone de ouvido rosa contrastando com seu cabelo azul; as duas amigas rindo com o que estão vendo no celular de uma delas; o homem de terno com a cara cansada; um outro de bermuda e chinelão, mexendo na carteira. E assim passo o meu tempo, observando e absorvendo morfologia, estilos e comportamentos. Sim, sou um observador de gente.

Ontem, na fila do mercado, a distração tomou conta de mim. Estava longe, numa viagem pra lá da realidade. De repente,  um toque leve no meu braço. Não sei se demorei para perceber, mas quando olho para quem estava me chamando, tomo um susto, um susto bom. Era ela, amiga que não via há anos. Abrimos um sorriso que iluminou a alma; iluminou o mundo.

- Assunto para um outro texto

Sobre as águas

Depois de um pé-d´água, corríamos para ver o rio bufando de cheio. Ficávamos debruçados no guarda-corpo da ponte, apontando admirados com o que aparecia naquela água turva. Surgia de tudo: pneus velhos, galhos e troncos de árvores, móveis quebrados, sacolas de lixos e vários outros objetos. A molecada se divertia com qualquer coisa. Nada pescável. Tudo que se via era para se admirar com espanto ou não. Gostoso era estar lá. Unidos, rindo numa algazarra em decibéis acima do suportável - coisa de gente inocente.

Quantos rios passaram em minha vida! Cada qual com sua particularidade. Uns navegáveis, outros impossíveis. Uns para serem acariciados, outros respeitados. Uns pedindo sombras, outros camuflados.

Os meus rios, até agora, não chegaram a ser a Ribeira do Pessoa, muito menos o seu Tejo; os meus rios, pairam em mim, num ciúme Veloso de arrepiar.

Os meus rios não são o Amazonas, o Paraná, o Madeira, o Purus, o São Francisco, o Tocantins ou o Araguaia. Os meus rios são outros, tão importantes quanto ,porque neles eu sonhei e naveguei em poesias,  prosas e até pesquei.

Hoje, toda vez que há um temporal, não corro para a ponte de um rio. Sigo para o meu quarto, onde me debruço em pensamentos e pedidos que só Ele pode me atender.

Lua tua

 

Olhar digital

Deixo a Lua pra ti. Aqui, onde estou, geralmente, perco-me com a beleza do céu. Têm noites que não me escapa nenhuma estrela.

- Paulo!!!

- Lua do caçador hoje à noite, a Lua mais próxima da Terra...melhor visão após as 23h00. Ela tá linda!

Quando li esse recado, corri para o quintal na esperança de ver e sentir o mesmo que ela. Mas não foi desta vez. Aqui, não tinha estrelas, não tinha Lua. A bruma cobria minha cabeça intensamente, escondendo a Lua de mim, não me deixando um fio de esperança em poder vê-la.

 A vida é assim mesmo. Um dia a gente ganha, no outro só nos resta a esperança. Outras Luas virão; outras Luas farão a sua, a minha, a nossa felicidade – amantes lunares, amantes celestes.

Maria, dizem os religiosos, que é na Lua cheia, a fase perfeita para fazer simpatias voltadas para o amor. Que bom que não precisamos disso. A nossa amizade é eterna.

No momento, fico por aqui, esperando uma nova Lua pra admirarmos juntos, mesmo estando do outro lado da montanha.

Como o céu permanecerá encoberto por mais alguns dias, deixo a Lua para ti.

Estio

Ao abrir os olhos, eles sorriram numa espontaneidade quase infantil. Viram a esperança de um dia de sol. Menos roupa. Mais liberdade para andar e observar o dia numa claridade azul. Não gosto de dia cinzento – entristece-me; não gosto de dia molhado – diferente dela que me disse adorar andar na chuva, molhar o corpo, mesmo que totalmente vestida. Meu corpo enrijece e teima em querer ficar na cama em dias assim. No inverno, torço pra chegada do veranico; no inverno, sonho com a primavera – ainda que não seja a estação preferida.

- Menino, vai vestir um casaco! 

Sempre que ouvia essa frase, perguntava-me: Pra quê? Vou tirar na primeira oportunidade. Moleque que brinca na rua, não sente frio, não está nem aí se o céu está cinza ou azul. O lema era brincar e brincar. E se o frio apertava, uma fogueirinha de papel e gravetos bastava para uma nova diversão.

Hoje, fecho os olhos na esperança de poder caminhar entre as cores da próxima estação.

Hoje, fecho os olhos na esperança de um amanhã de sol. Já não corro mais e nem faço fogueirinha de papel. 

Temo as nuvens escuras.

 

Sempre olhava pra cima nas tardes longas de verão, não por medo, mas na esperança das nuvens escuras ainda estarem longe dos meus olhos. Um olho na brincadeira e o outro no céu. Uma orelha nas conversas com os amigos e a outra na expectativa de meu nome rasgar o vento. Pois, quando elas chegavam era sinal de voltar pra casa. Caso contrário, meu nome ecoava por todo o bairro, sinalizando que eu estava encrencado.

É no lusco-fusco que os vampiros começam a despreguiçar. É no lusco-fusco que as luzes dos postes acendem para melhor enxergarmos o caminho de volta.

Cansei-me de Ziguezaguear por caminhos pedregosos ou lamacentos em noites frias e sem brilho. Hoje, prefiro a lucidez do dia à escuridão. Deixo-a do lado de fora de minha casa.

Temo as nuvens escuras. Não pelos os mesmos motivos de outrora, mas por saber que já se foi mais um dia.

Segredo

Faço da poesia minha arma do dia-a-dia. Quando a saudade chega rasteira, envolvo a alma com canções de amor só para intensificar a danada da dor. Masoquismo amoroso. Eu sei! Coisa minha.

Faço da lua minha companheira. Na tristeza, na alegria, ela está sempre presente. Confidente, amiga que ilumina as retinas. Que desfaz os caminhos marcados em minha pele manchada e envelhecida.

Faço das nuvens meu mar. Mergulho em sonhos numa queda quase infinita como descarga elétrica repentina. Efeito causado pelo acúmulo afetivo. Culpa minha.

Divinal

 

O outono nascera camuflado de inverno; sem o sol do meio dia, sem o brilho azulado disfarçando o ventinho frio no final da tarde. O cinza dominara o dia. A bruma cobrira as nossas cabeças e embaraçara os nossos olhos.

O dia foi contínuo, sem surpresas, sem a típica incerteza do surgimento repentino do sol, da chuva ou do vento. Coisas do nosso outono tropical.

As mantas surradas vestiram-me todo o dia, os caldos, previamente preparados, aqueceram e derreteram a minha alma faminta, o chocolate quente alegrou o tédio de uma tarde encolhida e o vinho tinto deixou a noite mais colorida.

De repente tudo mudou.

Ela chegou frenética, invadindo meu edredom, agitando a minha alma, estimulando meus músculos, arrepiando minha pele e respirando o mesmo ar. Ela chegou acesa, iluminada. Minha deusa Bhadrakali. Clarão da minha vida.

Ontem, o outono nascera camuflado. Hoje, pelo que me parece, ele será apenas outono. Não pelo clima, mas pela falta que ela me faz.

Dia curto.

 











Sabe aqueles dias que você não quer botar a cara pra fora do lençol? Pois é, hoje foi um desses dias. O sol chegou pelas frestas da janela anunciando que um novo dia chegara. Não estava nem aí. Virei para o outro lado e escureci o ambiente com a supertécnica de cerrar os olhos. Ao abri-los de novo, a claridade sumira como mágica. Qual foi?! Não seria um raiozinho solar que me obrigaria sair da condição dono de mim.

E na cama, a prostração abraçada com a procrastinação acariciavam-me suavemente. Coisa boa, um espreguiçar aqui, outro acolá. Uma soneca, um acordar. E assim a manhã passou mansa, delicada, como deveria ser todas e quaisquer manhãs.

Agora, com essa energia armazenada, com a alma tranquila, escrevendo esse texto no começo da noite me deu uma vontade danada de voltar pra cama. Não pra procrastinar, não pra ficar prostado. Pelo contrário. De olhos bem abertos assistir aos raios lunares entrando pelas frestas da janela entrelaçado com você.

- Que tal uma taça de vinho e muitos beijinhos nessa noite lunar?

Escolha.









O negócio é o seguinte: Estou aqui curtindo a lua, contando estrelas, sorrindo com a brisa gelada batendo na minha cara, balançando na minha rede, ouvindo músicas antigas – as preferidas- e degustando um vinho tinto que guardei por tanto tempo. E antes que você venha com aquele papo que a minha solidão é coisa de gente doida, digo que ficar aqui jogado, mandando sem medo o mundo pastar é muito bom. Ah! Quem me dera pudesse não mais procurar pelas horas, esquecer os compromissos, acordar a qualquer tempo e continuar nu debaixo do lençol, lendo os meus autores preferidos sem a preocupação se o dia vai ser ensolarado ou chuvoso.

O papo é reto: Não significa que não seria bom você estar aqui. Seria sim. As nossas conversas sempre foram leves e divertidas, sem cobranças, sem problematização. As complicações sempre ficaram lá fora. Nós dois sempre nos bastávamos. Mas no momento quero ficar aqui, egoisticamente, sem fazer porra nenhuma. Eu seria uma péssima companhia agora. Quem sabe depois?

Lembra quando fui ao seu encontro? Foi bom, diferente, estávamos à procura de algo que não estava em nós. Até voltei pra ter certeza que não estávamos enganados. Pena! O sonho durou pouco. Mas foi bom. Sem arrependimento, né?

Lembra quando a nossa viagem foi cancelada por você um dia antes de viajarmos em pleno carnaval?  Mochila pronta jogada por semanas no canto do quarto. Cê sabe que não aconteceria nada, que ele não iria ao seu encontro. Mas o medo foi maior que a aventura. Sempre que me lembro desse episódio dano a rir.

Lembra quando nos reencontramos depois de um tempo separados. Sabíamos que não iria além do tesão do momento. E por isso, a despedida foi suave, doce como uma canção.

 Para concluir: Calma! Concluir o texto. Você sabe que de um jeito ou de outro seremos eternos. Fazer o quê?! Somos assim, despudorados e felizes. Dane-se os que acham que somos sem vergonhas. Até porque somos mesmo. Por isso o vento não desgastará, o sol não craqueará, a chuva não apagará o que temos e o que somos.

Vou pra dentro. A lua foi para trás da montanha, o vinho está acabando, a música parou e o sono está chegando.

Ah! Já ia me esquecendo de dizer: Caraca! vê se para de aparecer nos meus sonhos todos as noites. Já disse. Quero ficar aqui na minha solidão provocada.

Rindo.

 

 

 

 

Incerteza


Talvez não escreva mais sobre as minhas Marias. Farei uma força enorme para que isso aconteça. Por isso começo a frase com um ¨talvez¨; pois elas são tantas que é quase impossível não as escrever. As Marias fazem parte de mim desde o nascimento. Elas permearam em minha vida entre a claridade e a escuridão.

Algumas surgiram do barro, outras eram o meu sal. Algumas açucaradas, outras éteres. Poucas foram grená, muitas foram azuis. Algumas foram minhas pontes, outras meus cais. Poucas me abrigaram, muitas me abandonaram. Algumas me disseram adeus, outras nem isso. Muitas foram a cura, poucas deixaram cicatrizes.

Talvez não escreva mais sobre as minhas Marias. Não relate as nossas intimidades, as nossas vontades, as nossas decepções. Possivelmente as guardarei na derme, tatuadas no peito, fechadas em meu coração.

Mas o que eu não posso prometer é se uma nova Maria aparecer. Certamente escreverei sobre ela, mesmo sabendo que a efemeridade é vital.

Por enquanto não escreverei mais as coisas de Maria. Fica registrado assim.


Coisas de Maria

 


Sentado na varanda da minha casa, ouvindo minhas músicas preferidas; esperando o ocaso chegar. Abro o pacote enviado por uma amiga querida que logo vai viajar.  Dentro da caixa tinha um terço de madeira, tinha um galo português, tinha um par de canecas, tinha um caderno para anotações, tinha um pote de aniz estrelado, se não estou enganado tinha uma mandala para pôr na parede.

Ela vai pra Portugal, Espanha e Itália. Diz que não sabe quando volta, vai ficar pra mais de mês. Maria não vai com as outras. Maria faz o que dá na telha. Um dia está no Rio, noutro em Sampa, de repente em Curitiba ou em qualquer outro lugar.

Um dia desses liguei pra ela. Estava ocupadíssima. Disse-me que estava destralhando, separando algumas coisas para doação. Perguntou se eu queria a sua coleção de filmes e outras ¨cositas más.¨ Ri com o tamanho desapego.

Ah! Já estava me esquecendo. Dentro da caixa tinha uma poesia minha:

 
¨Sentimento
Lá em baixo tem uma luz
luz diferente
não é amarela nem é azul
lá, lá longe...
tem um brilho
azul, não é
amarelo, também não
lá... Debaixo das nuvens
tem o aconchego de um amor
uma cantiga
mãos que afagam
boca que beija
corpo que esquenta
lá longe, muito longe...
tem alguém
que gosta dos astros
que gosta de sexo
que gosta de rir
lá... não muito longe...
tem o que quero
a certeza
a melodia
o dia
a noite
lá, somente lá
estão os meus desejos.¨

Pelo visto, ela não desapegou dos meus textos. Que bom. Mas quando isso acontecer. Vou entender. Isso é coisa de Maria!

 

 

 

Lua amiga

 










A Lua encantava as noites quentes de verão. Adorava aquela convivência quase tribal. As esteiras de taboa improvisavam os nossos colchões. Todos no quintal, de papo pro ar, numa prosa sem fim. Observava as estrelas sem a pretensão de entendê-las, apenas as observava com olhos de menino. Os olhos no céu e as orelhas nas conversas dos adultos.

- Paulinho, tá vendo a Lua? Essa é Claudia, querendo compartilhar a emoção de vê-la brilhando no seu céu.

- Paulo, a Lua está tão linda. Você consegue vê-la daí? Essa é Maria a mais de cem quilômetros de distância compartilhando sua alegria lunar.

Ainda hoje, a Lua encanta as minhas noites de verão. Hoje, a Lua está em quarto-crescente – gosto de vê-la se transformando a cada noite até está totalmente cheia e linda. Hoje, já não deito em esteiras de palha. Aconchego-me na rede, observo as estrelas e a Lua e adormeço embalado por ela.

Ainda hoje, olho para o céu com os olhos de um menino.


Certezas

 











O vento chegou forte. Corri para fechar as janelas e portas. Com ele, veio a chuva. Com ela, vieram as trovoadas e relâmpagos rasgando o céu cinzento. Durou menos de uma hora, mas o suficiente para que as lembranças antigas brotassem da minha mente.

Os espelhos eram cobertos, as tesouras eram guardadas, as tomadas dos aparelhos elétricos eram desplugadas e o fósforo e um maço de vela ficavam esperando em cima da mesa caso a luz fosse embora de repente. Geralmente ia.

Engraçado, depois de décadas a eletricidade ainda cai quando há relâmpagos. É claro que desligo tudo, no entanto, as velas foram substituídas por lanternas.

Confesso que em dias assim de muita chuva, fico mais absorto, desligo-me do caos lá fora e visito os mais profundos dos pensamentos. Lembro-me dela rezando baixinho a cada trovoada ou relâmpago. Achava estranho um adulto sentir tanto medo de uma coisa tão natural. Hoje, entendo o seu pavor. Só quem passa por determinadas situações provocadas por temporais sabe a força que a natureza tem.

Um dia desses, Gabriela – amiga do trabalho - alertou-me sobre as quedas frequentes de energia na cidade e que era interessante eu usar aparelhos contra surtos de energia. Saí comprando vários desses dispositivos. Melhor prevenir que remediar, já dizia os antigos.

Sempre que chove forte na cidade, Maria liga pra saber se está tudo bem comigo. Antes, achava divertida tamanha preocupação. Hoje, se ela não liga sinto falta. Só quem passa por determinadas situações sabe a força que uma amizade verdadeira tem.

Estou aqui, escrevendo o texto e esperando o celular tocar. Sei que ele vai tocar.

Cena

 

Imagem da internet








Ele olhou pra mim e metralhou:

- Veja bem! Não estou nem aí pra determinadas coisas. Faço-me de desentendido pra não me aborrecer com tanta imbecilidade. Quem conversa com porta é maluco.

"Quem dera fosse verdade!"

Continuei a ouvi-lo. Falou de futebol, do trânsito, de políticos, praguejou a sua ex-mulher, reclamou do filho mais velho e de repente:

- Você não fala muito né?

Olhei para aquela cara vermelha de nariz pontudo e o respondi com um sinal apontando para minha garganta e falando baixinho e rouco:

- Garganta inflamada.

O vermelho abanou o braço pra cima, resmungou alguma coisa e saiu falando sozinho.

Olhei sério para o dono do bar do outro lado do balcão, e depois de alguns segundos, danamos a rir.

Falei alto e bom som:

- Desce uma cerveja bem gelada pra tirar a poeira da garganta.

A mocinha sentada perto de  mim exclamou:

- Vixe! dá trela pro senhor vê.

Gargalhei mais uma vez.

Cotidiano

 



 





Não dá mais pra adiar. Entro na cozinha e vejo a louça empilhada na pia. Não tenho problema em lavar louças, até gosto. Mas tem dias que até o que gosto quero longe de mim. Como dizem por aí que quem canta seus males espanta, ligo o som e começo a lavaria – emulsificando os engordurados, dando brilho no inox. Em poucos minutos tudo lavado; a harmonia sempre volta depois do caos. Um suspiro de alívio e um sorriso de satisfação sempre chegam depois de uma tarefa feita.

Quando posso, adio mesmo. Os amigos não contam mais comigo. Convidam sabendo que dificilmente irei. Eventos corporativos nem pensar. Festinha de empresa de final de ano quando aparecia era por pura obrigação, nunca por educação. Na primeira oportunidade saía à francesa. Hoje, nem uma coisa nem outra. Simplesmente digo não. Deixo os burburinhos para os outros. Adoro meu silêncio, minha rede, minha varanda e meus livros.

Ultimamente ando procrastinando quase tudo: em visitar uns, em receber outros. Estou sempre adiando alguma coisa. Não é mesmo, Maria?!

Hoje a natureza foi minha cúmplice. A listinha de tarefas foi adiada porque choveu pesadamente e continua. Restou-me escrever o texto, assistir alguns filmes e até ligar pra a amiga Irene.

Agora estou aqui ouvindo a chuva batendo na calçada. Incidental nesse meu mundo tão previsível.

Realidade

 













Os meus sonhos recorrentes sobre a matemática cessaram faz um tempinho. Espero que seja pra sempre. Era o mesmo sonho por décadas. Se tivesse que escolher, preferiria os pesadelos com palhaços – nunca gostei da imagem desses mascarados. A palhaçaria que me perdoe, mas que dá medo... Ah! isso dá! A taquicardia causada pelo pesadelo sobre a matemática era tão forte que ao acordar não conseguia dormir de novo, era uma confusão entre o real e o virtual.

A velha gorda, moradora da casa antiga, sentada numa poltrona puída próxima à janela continua aparecendo – no entanto não me causa medo, mas pena!

Um quintal claro, florido, tão lindo e ela à sombra daquele ambiente melancólico e empobrecido. Será castigo? Punição? Um tipo de autoflagelação? Toda vez que tenho esse sonho, acordo pensativo. Pois, não consigo ver o seu rosto. Tenho a impressão que a conheço, que a velha gorda pertence ao meu passado. Não o meu passado de infância onde as mulheres eram extravagantes, quase fellinianas. Um passado mais recente. Será que ela existiu e eu apaguei da memória e agora me aparece fragmentada? Sei lá! Mas que ela é esquisita não tenho dúvidas. Será que a velha gorda, com aquele cabelo escorrido é um fantasma?!

A chuva

 


Antes que a chuva caia. Todo verão era sempre o mesmo mantra: Volte antes do temporal, ouviu! Era quase certo termos chuva no finalzinho da tarde – a famosa chuva de verão.

Estávamos quietos, deitados no chão da sala, cada qual com seu pensamento, quando o céu rompeu o silêncio num estrondo absurdo anunciando temporal. Não demorou pra chuva chegar molhando a vida.

Levantamos daquele sossego quase espiritual e fomos direto para a cozinha fazer o café da tarde. É quase um ritual prepará-lo; grãos torrados moídos na hora, passado com a água quase fervendo pelo coador de pano. A casa sempre fica impregnada com aquele aroma de café vindo da serra de Minas gerais.

Comecei a voltar no tempo, falando das chuvas que marcaram a minha infância. Ríamos de minhas travessuras, de histórias de outras pessoas testemunhadas por mim, ou simplesmente ouvidas por um garoto curioso.

Contei da minha estratégia quando o trânsito ficava parado por causa da chuva. Descia do coletivo na primeira oportunidade e parava num bar ou qualquer outro lugar que tivesse cerveja. Esperava de gole em gole a chuva passar, o trânsito fluir.

Quando a perguntei se tinha lembranças sobre a chuva, ela disse-me que adora sentir a água da chuva lavando seu corpo numa tarde quente de verão. Que o cheiro da terra molhada entrava pelos seus poros e a transportava ´por uma época alegre e ingênua. E Num suspiro profundo concluiu: Mesmo sendo caça de olhos famintos!

Voltamos pra sala e silenciosamente ficamos ouvindo a chuva lá fora. Certamente ela passará!

 

Presente

 

Abro as minhas mensagens no celular e leio:

- Paulo, gostou da surpresa?

Pergunta corajosa pra quem sabe que surpresa não é pra mim. Principalmente no dia do meu aniversário. Sei que é difícil pra muitos que eu queira estar sozinho nessa data. Posso até festejar depois, mas o dia é só meu. Não sei  ou não me lembro de já ter escrito sobre este assunto. Mas não importa. O que importa é ter quem queira transgredir essa regra.

Mensagem de parabéns pelo celular? Talvez retribua a mensagem com atraso – vai depender do meu humor. Não, atoa, que muitos me chamam de ranzinza, rabugento e outros adjetivos. Quer saber: ¨Tô nem aí! ¨

Antes que você tente me analisar por esse texto, já vou lhe dizendo: Não vem que não tem!

Antes que  me chame de esquisito, já vou lhe dizendo: Não vem que não tem!

Antes de achar que eu fico isolado, triste, com pena de mim, já vou lhe dizendo: Ledo engano, pessoa!

O aniversário é meu. Faço dele um dia especial pra mim. Às vezes, dependendo do dia, vou ao cinema, teatro; faço uma caminhada no parque, saio pra tomar cerveja, converso com estranhos, ou simplesmente tomo uma taça de vinho, assisto a um bom filme ou maratono uma série. Por favor, não me acorde com congratulações. Continue me acordando com beijos quentinhos.

Mas por que estou escrevendo sobre isso? É que esse ano aconteceu uma coisa que não estava nos meus planos. Volto a pergunta do começo do texto. Quando recebi por mensagem a pergunta, quase fui mal-educado na resposta. Respirei, respirei profundamente antes de responder – técnica boa para não ter arrependimento depois.

A priori não gostei da transgressão, mas levei na flauta como um bom brasileiro. Depois de tanto tempo de insistência de muitos para comemorar a data de meu aniversário,  acabei entendendo que pra eles aniversário é festa, pra mim, reflexão.

Pois bem, uma amiga de muitos anos acabou se hospedando num hotel na minha cidade para fazer-me a tal surpresa. Ela sabia do risco que corria. E por pouco não conseguiu encontrar-me, porque estava temporariamente incomunicável – celular desligado. No entanto, como precisava confirmar um compromisso, acabei ligando o aparelho para ver se tinha mensagem. Daí a surpresa. Ela estava na cidade. Acabei indo ao seu encontro.

Agora, vou aproveitar esse momento para respondê-la com o coração aberto e no pé de sua orelha: Surpresas me incomodam, mas você não. Gosto de ficar sozinho, mas pra você sempre abrirei uma exceção.

Talvez, surpresa seria se eu não fosse ao seu encontro – sou óbvio demais.

Agora quem faz a pergunta sou eu:

- Gostou da surpresa?

 


Distração

 


Coisa boa está na varanda, deitado na rede, colocando a leitura em dia com músicas boas de fundo. Dane-se as louças na pia – mais tarde, certamente, serão limpas. Hoje, independentemente que dia seja, ele será o meu domingo: dia de procrastinar, deixar o compromisso pra outro momento.  Por ora estar com os autores preferidos, cantoras queridas e minha escrita esquisita é o que importa. Olhar o céu quase transparente; vagar em pensamentos até o cochilo ser interrompido pelas maritacas cantando; não ter hora pra nada é o que importa.

Hoje é dia de transgredir. Taça de vinho, comida por entrega e celular desligado. Pois a manhã será um novo dia – dia de labuta. A realidade sempre vem pra nos acordar.

Quando dei por mim, o azul, aos poucos fora se desfazendo, transformando-se em cinza que por sua vez dera lugar ao preto. A paisagem colorida sumira na mesma ordem. Lá estava o dia, lá estava a paisagem, escondidas pela noite sem estrelas. Torno-me, temporariamente cego, absorto em meus pensamentos tolos.

Acaso

 Do nada, ela vem com essa pergunta:

- Paulo, porque você nunca sorri nas fotos?

Respondi à pergunta citando Cecília:

- ¨Longe, num barco,

deixei meus olhos alegres,

trouxe meu sorriso amargo. ¨

Aí sim, sorri. Sorri não pela minha resposta, mas pela cara engraçada que ela fez. Dei um pulo da cama e fui até a estante, peguei o livro de Fernando Pessoa e recitei Sorriso audível das folhas:

¨Sorriso audível das folhas,

Não és mais que a brisa ali.

Se eu te olho e tu me olhas,

Quem primeiro é que sorri?

O primeiro a sorrir ri.

Ri, e olha de repente,

Para fins de não olhar,

Para onde nas folhas sente

O som do vento passar.

Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando

Onde não olha, voltou;

E estamos os dois falando

O que se não conversou.

Isto acaba ou começou? ¨

Ao término da declamação, o quarto transbordou-se de gargalhadas. Rimos numa inocência juvenil. Como é bom quando um sorriso chega inesperadamente. Ele sempre alivia, enaltece e fortifica a alma.

Claro que sorrio. Talvez, menos que outrora, mas ainda sorrio. Às vezes, o meu sorriso fica retido, represado no peito e vaza pelos meus olhos miúdos. Ontem mesmo aconteceu esse sorriso silencioso que me fortalece: estava indo pra casa e surpreso, vejo sentado em um banco do ponto de ônibus, entre duas senhoras, Manoel, marido de minha amiga Valéria. Continuei a viagem com sorrisos nos olhos.