Pela casa.

 

Abro os meus olhos e vejo na parede um opilião caminhando lentamente entre a parede e o teto do meu quarto. Fico deitado por um tempo observando aquele artrópode de corpo miúdo, redondo, de pernas finas e longas. Só observo o frágil invasor e nada mais.

A responsabilidade grita: Levanta, camarada! Obedeço imediatamente com um pulo da cama. Antes de ir ao trabalho, eu a observo mais uma vez. Deixo-a em seu nicho provisório e sigo para a labuta.  Aprendi, entre trancos e barrancos a respeitar o lugar do outro.

Abri os olhos e percebi que ainda estava escuro. Acordei assustado, aflito e com medo. Medo do invisível; medo das imagens criadas pelo meu cérebro infantil. De vez em quando, cerrava os olhos na esperança do homem velho sumir daquele ambiente confuso. Inútil. O velho deu lugar a mulher estranha, que por sua vez se transformou em algo mais estranho. Os fantasmas só desapareciam ao amanhecer, ou quando corria para a cama de meus pais.  Com o tempo, aprendi a driblar a pareidolia. Demorou, mas consegui.

Abro os meus olhos e deparo-me com aquela criaturinha completamente nua, totalmente livre, andando de um lado para o outro como se aquele espaço lhe pertencesse. Não era uma invasora; não era um fantasma, tampouco efeito da pareidolia. Era uma convidada. Uma pessoa querida. Pois é, complicado para um animal que gosta de ser solitário como alguns outros selvagens, dividir seu nicho; mas com o tempo, aprendi a compartilhar – já sabendo que era temporário.

Volto pra casa e a esperança foi por terra. Lá estava a inquilina silenciosa no mesmo lugar. 

Passaram se dias até que misteriosamente o aracnídeo não se encontrava mais. Mistério. Talvez o tédio da moradia obrigou-a a ir para outro lugar.

Abro os meus olhos e vejo surpreso que no lugar da elegante inquilina estava uma lagartixa.

Sorri e a dei bom dia. Fui trabalhar.

 

Amizade

Quando o ar se torna rarefeito, a angústia chega lenta e silenciosa. O desespero toma conta e a racionalidade é pulverizada num instante. É trágico, é assustador. Na psicologia é chamada de crise comum e que passa com o tempo. Pois é... Enquanto não passa, o ar pode faltar a qualquer momento e o pânico toma conta.

Valéria, minha irmã de alma, disse que é o cérebro sabotando e que na hora do pânico, o melhor é tentar usar operações de matemáticas simples, como contar números na ordem decrescente ou fazer contas de cabeça, pois ajuda a mente focar novamente.

Irene, amiga do coração, empresta seu ombro, sua orelha e seu tempo. Disposta a socorrer-me a qualquer momento.

Márcia Cristina e Paulo Henrique, meus compadres, não largam a minha mão nunca.

Claudia, mesmo morando em Barra de São João, não se esquece de mim. Aliás vou visita-la a qualquer momento.

Alexandre Mello, Ronaldo, Thiago Vinicius, Liane, Gutierre, Maria Luíza, Verônica, Valdir estão sempre procurando  saber de mim.

Hoje, descendo a rua para ir trabalhar, acabei me estabacando na calçada úmida pela neblina da madrugada. O tombo foi tão estranho que quando me vi no chão, todo torto, achei que tinha me quebrado todinho.  Demorei alguns minutos para me levantar. Senti-me o boneco Falcon – aquele todo articulado. Depois de muitos palavrões por causa da dor, tentei me levantar. Assim que levantei, o Mello chegou e Ronaldo já saiu do carro para me acudir. Sempre eles.

No trabalho, todos querendo saber o que tinha acontecido. Estava (ainda estou) mancando.

Quando estava saindo do trabalho, Victor – um debochado nato – falou:

- Paulo, não chega perto. Não tem ninguém mais azarado que você.

Rindo, já pegando minhas coisas para guardar no meu armário, pensei: Como posso ser azarado com tanta gente querida ao meu redor. Impossível, Victor! Impossível...

Como é bom ter gente boa ao nosso redor!

Quem disse?

 Que friaca! Nos últimos dias foi a frase que mais ouvi. Sempre que ouvia essa gíria, eu ria por causa da sua sonoridade: fri-a-ca. Têm palavras que são engraçadas ou soa estranho como: siricutico, faniquito, gororoba, borogodó. Para mim a palavra Songamonga é muito estranha, ofensiva - fica à beira do preconceito.

Há muito tempo, li um comentário de uma blogueira portuguesa a respeito de um texto de uma brasileira em seu blog, por ter se referido as crianças como tralha. Ela ficou horrorizada. Aí choveu comentários com frases engraçadas usando a palavra tralha. Fazer o quê!? Somos brincalhões por natureza.

Mas que está muito frio por aqui, não tenha dúvida. É um tal de: Quando esse frio vai embora? Odeio esse tempo! Gente, tá na hora desse inverno ir embora! Mas a frase que mais gosto é quando usa a famosa gíria carioca: Caraca que frio!

Só quero ver quando chegar o verão, aliás nem precisa, basta o sol da primavera para começarem a reclamar: Que calor dos infernos! Aí eu respondo: quem disse que lá é quente?

- Nunca estamos satisfeitos, não é mesmo!?


OBSERVADOR

 

Pois é... hoje o dia foi tenso. Têm determinados exames médicos que ninguém merece. Fazer o quê? ¨Se não fazê-lo como sabê-lo¨? – já parafraseando o Poeta.  Mas o que me impulsionou a escrever esse texto não foi a minha visita ao médico. Consultar-me, fazer exames periódicos já faz parte de minha rotina. Toda vez que reclamo as minhas idas ao consultório lembro da frase de minha vizinha Verônica: “Quem manda ficar velho!”

Determinadas rotinas são boas, agradáveis, como as caronas do Mello às quintas e sextas-feiras na ida e vinda do trabalho, mesmo ouvindo as piadas velhas e trocadilhos sem graça do Ronaldo – outro colega caroneiro, gente boa, tão gente boa que com sua sensibilidade sacou imediatamente que eu estava infartando ao entrar no carro. Salve-Salve amigo se estiver lendo este texto. Ir ao bar do Guty também é legal, mesmo para uma água mineral. Lá tem personagens interessantíssimos, dignos de um texto. Sou um observador silencioso? Talvez! Na semana passada, Guty chamou Liane – sua mulher - para ver a lua. Acabou indo uma galera para a calçada admirar a lua laranja pousada na silhueta da montanha. Estava linda mesmo. Lua para se admirar.

Por causa da lua, acabei falando para Tereza – uma frequentadora do bar – sobre os meus textos que têm a lua como protagonista. Ela ficou curiosa sobre os meus blogs. Falei que hoje pouco escrevo; que estou um tanto quanto desanimado. Mencionei do último texto – Dia a Dia que fiz para Irene – e que uma colega de Blog, a Nelma Ladeira, comentou a preocupação de não mais me ler. Talvez tenha sido o comentário dela que me incentivou a escrever este.

Será que vou voltar a escrever? Escrever como antes? Ou vou narrar de quando em vez uma passagem ou outra do meu dia a dia? Adoro mesclar o passado com o presente; A ficção com a realidade; mudar as cores das coisas e transportá-las para outros lugares.

Nelma, obrigado por alertar-me. Talvez, mesmo sem querer, eu esteja num momento sabático.




Dia a Dia

Você pediu e aqui está: um texto. O começo de algo que, sinceramente, não sei no que vai dar. Pensei em escrever sobre esse domingo triste sem sol. Mas quando olhei a data, percebi que mesmo com toda a luminosidade solar, ele seria triste ainda assim – É aniversário de quem partiu. Geralmente, não guardo datas. Sou péssimo em medir o tempo. A exatidão não é uma qualidade que eu possa gabar-me. Principalmente quando escrevo. O cinza fica mais cinza; o azul pode desbotar-se como um passo de mágica, ou transformar-se no mais celeste já visto.

Confesso que escrever sem uma direção, sem um mote, é como ziguezaguear, sem fôlego, numa pista de quatrocentos metros. Será que chego; ainda que em último lugar? Agora, estou a me perguntar porque estou aqui, nesta tela luminosa, querendo escrever algo coerente e bonito para deixar-te mais colorida e brilhante.

O domingo daqui a pouco irá embora. A segunda chegará com mais uma aniversariante.

Lá fora, a cerração cobre a rua, esconde as árvores e molha os telhados das casas de meus vizinhos. O céu nos deixa órfãos lunar - esconde a nossa lua gibosa que daqui a pouco estará cheia, inteira. Nós a veremos logo num eclipse lunar?

Já é segunda.  Manhã fria, sem promessa de dia quente. Mas pouco importa. Meu compromisso hoje é terminar o texto e ir à clínica no começo da tarde para um exame médico de rotina. 

Acordei bem. Uma caneca de café quentinho tem a função de preparar-me para encarar o dia.

Um dia desses Irene me confessou que dormiu até ao meio dia. Ri, porque percebi seu constrangimento. Disse a ela:  - Que nada! É muito bom acordar sabendo que o corpo e a mente estão revitalizados. Dormir faz bem. Ultimamente estou dormindo pouco – carência de vitamina D e B12.

Pois é... passei por maus bocados. Um combo de consequências graves por carência dessas vitaminas. Antes de saber o real motivo de tanta brabeza deixei alguns amigos preocupados.

Hoje, já estou dormindo um pouquinho mais, respirando um pouco melhor; as dormências e câimbras sumiram e o meu humor está voltando ao normal. Semana passada, ri muito com Irene. Aliás, com Irene é só coisa boa – a sinceridade é primordial. Conseguimos rir até dos nossos perrengues. Um dia desses, comentei com alguém, não me lembro quem, uma façanha de Irene lá em Ouro Preto, quando um guri meteu a mão na sua câmera fotográfica e saiu correndo dentro da Igreja. Ela, a Irene, numa fração de segundo, pensou e gritou para o moleque: - Pare!! Eu compro a máquina de volta! O moleque parou, olhou para trás e resolveu ir até ela. Entregou a máquina na esperança de ganhar um dinheirinho. E ganhou. Quando perguntei o porquê de tal atitude, ela me disse: “A máquina tudo bem, mas as imagens eram únicas.” Coisas de Irene! Em setembro estará em São Paulo. Tem exposição de Miró.

Vou parar por aqui, senão começarei a escrever coisas de outros amigos.





 

 



Passatempo

Não me aborreço em filas. Antes, sempre tinha um livro de bolso na mochila para aproveitar o tempo – vicio adquirido desde pequeno. Não as grandes filas, mas os livros. Ler, enquanto esperava a minha vez, era um método eficaz para evitar o estresse.

De quando em vez, surgia um humano furioso falando alto, discutindo com aquele que nos atenderia, reclamando da demora, do calor ou de qualquer outra coisa pequena – vergonha alheia.

Quando a fila está incompatível com o meu tempo, simplesmente recuo, volto num outro horário ou em outro dia. Simples assim.

Está bom! Sei que a tecnologia facilita a vida de muitos: temos os códigos de barra, os QR Codes e sabe lá o que mais, conectando-nos ao ambiente virtual. Mas nem tudo, por enquanto, é tecnológico. Sou das antigas. Vídeochamada jamais vai substituir a emoção do cara a cara, dos olhos nos olhos. Ameniza, eu sei!

Ultimamente, gosto mais de observar a paisagem ao meu redor – imaginar personagens a partir das características de cada uma delas: é o magro alto e narigudo; a senhora de olhos e faces redondos; a jovem de calça larga, com fone de ouvido rosa contrastando com seu cabelo azul; as duas amigas rindo com o que estão vendo no celular de uma delas; o homem de terno com a cara cansada; um outro de bermuda e chinelão, mexendo na carteira. E assim passo o meu tempo, observando e absorvendo morfologia, estilos e comportamentos. Sim, sou um observador de gente.

Ontem, na fila do mercado, a distração tomou conta de mim. Estava longe, numa viagem pra lá da realidade. De repente,  um toque leve no meu braço. Não sei se demorei para perceber, mas quando olho para quem estava me chamando, tomo um susto, um susto bom. Era ela, amiga que não via há anos. Abrimos um sorriso que iluminou a alma; iluminou o mundo.

- Assunto para um outro texto

Sobre as águas

Depois de um pé-d´água, corríamos para ver o rio bufando de cheio. Ficávamos debruçados no guarda-corpo da ponte, apontando admirados com o que aparecia naquela água turva. Surgia de tudo: pneus velhos, galhos e troncos de árvores, móveis quebrados, sacolas de lixos e vários outros objetos. A molecada se divertia com qualquer coisa. Nada pescável. Tudo que se via era para se admirar com espanto ou não. Gostoso era estar lá. Unidos, rindo numa algazarra em decibéis acima do suportável - coisa de gente inocente.

Quantos rios passaram em minha vida! Cada qual com sua particularidade. Uns navegáveis, outros impossíveis. Uns para serem acariciados, outros respeitados. Uns pedindo sombras, outros camuflados.

Os meus rios, até agora, não chegaram a ser a Ribeira do Pessoa, muito menos o seu Tejo; os meus rios, pairam em mim, num ciúme Veloso de arrepiar.

Os meus rios não são o Amazonas, o Paraná, o Madeira, o Purus, o São Francisco, o Tocantins ou o Araguaia. Os meus rios são outros, tão importantes quanto ,porque neles eu sonhei e naveguei em poesias,  prosas e até pesquei.

Hoje, toda vez que há um temporal, não corro para a ponte de um rio. Sigo para o meu quarto, onde me debruço em pensamentos e pedidos que só Ele pode me atender.

Lua tua

 

Olhar digital

Deixo a Lua pra ti. Aqui, onde estou, geralmente, perco-me com a beleza do céu. Têm noites que não me escapa nenhuma estrela.

- Paulo!!!

- Lua do caçador hoje à noite, a Lua mais próxima da Terra...melhor visão após as 23h00. Ela tá linda!

Quando li esse recado, corri para o quintal na esperança de ver e sentir o mesmo que ela. Mas não foi desta vez. Aqui, não tinha estrelas, não tinha Lua. A bruma cobria minha cabeça intensamente, escondendo a Lua de mim, não me deixando um fio de esperança em poder vê-la.

 A vida é assim mesmo. Um dia a gente ganha, no outro só nos resta a esperança. Outras Luas virão; outras Luas farão a sua, a minha, a nossa felicidade – amantes lunares, amantes celestes.

Maria, dizem os religiosos, que é na Lua cheia, a fase perfeita para fazer simpatias voltadas para o amor. Que bom que não precisamos disso. A nossa amizade é eterna.

No momento, fico por aqui, esperando uma nova Lua pra admirarmos juntos, mesmo estando do outro lado da montanha.

Como o céu permanecerá encoberto por mais alguns dias, deixo a Lua para ti.

Estio

Ao abrir os olhos, eles sorriram numa espontaneidade quase infantil. Viram a esperança de um dia de sol. Menos roupa. Mais liberdade para andar e observar o dia numa claridade azul. Não gosto de dia cinzento – entristece-me; não gosto de dia molhado – diferente dela que me disse adorar andar na chuva, molhar o corpo, mesmo que totalmente vestida. Meu corpo enrijece e teima em querer ficar na cama em dias assim. No inverno, torço pra chegada do veranico; no inverno, sonho com a primavera – ainda que não seja a estação preferida.

- Menino, vai vestir um casaco! 

Sempre que ouvia essa frase, perguntava-me: Pra quê? Vou tirar na primeira oportunidade. Moleque que brinca na rua, não sente frio, não está nem aí se o céu está cinza ou azul. O lema era brincar e brincar. E se o frio apertava, uma fogueirinha de papel e gravetos bastava para uma nova diversão.

Hoje, fecho os olhos na esperança de poder caminhar entre as cores da próxima estação.

Hoje, fecho os olhos na esperança de um amanhã de sol. Já não corro mais e nem faço fogueirinha de papel. 

Temo as nuvens escuras.

 

Sempre olhava pra cima nas tardes longas de verão, não por medo, mas na esperança das nuvens escuras ainda estarem longe dos meus olhos. Um olho na brincadeira e o outro no céu. Uma orelha nas conversas com os amigos e a outra na expectativa de meu nome rasgar o vento. Pois, quando elas chegavam era sinal de voltar pra casa. Caso contrário, meu nome ecoava por todo o bairro, sinalizando que eu estava encrencado.

É no lusco-fusco que os vampiros começam a despreguiçar. É no lusco-fusco que as luzes dos postes acendem para melhor enxergarmos o caminho de volta.

Cansei-me de Ziguezaguear por caminhos pedregosos ou lamacentos em noites frias e sem brilho. Hoje, prefiro a lucidez do dia à escuridão. Deixo-a do lado de fora de minha casa.

Temo as nuvens escuras. Não pelos os mesmos motivos de outrora, mas por saber que já se foi mais um dia.

Segredo

Faço da poesia minha arma do dia-a-dia. Quando a saudade chega rasteira, envolvo a alma com canções de amor só para intensificar a danada da dor. Masoquismo amoroso. Eu sei! Coisa minha.

Faço da lua minha companheira. Na tristeza, na alegria, ela está sempre presente. Confidente, amiga que ilumina as retinas. Que desfaz os caminhos marcados em minha pele manchada e envelhecida.

Faço das nuvens meu mar. Mergulho em sonhos numa queda quase infinita como descarga elétrica repentina. Efeito causado pelo acúmulo afetivo. Culpa minha.

Divinal

 

O outono nascera camuflado de inverno; sem o sol do meio dia, sem o brilho azulado disfarçando o ventinho frio no final da tarde. O cinza dominara o dia. A bruma cobrira as nossas cabeças e embaraçara os nossos olhos.

O dia foi contínuo, sem surpresas, sem a típica incerteza do surgimento repentino do sol, da chuva ou do vento. Coisas do nosso outono tropical.

As mantas surradas vestiram-me todo o dia, os caldos, previamente preparados, aqueceram e derreteram a minha alma faminta, o chocolate quente alegrou o tédio de uma tarde encolhida e o vinho tinto deixou a noite mais colorida.

De repente tudo mudou.

Ela chegou frenética, invadindo meu edredom, agitando a minha alma, estimulando meus músculos, arrepiando minha pele e respirando o mesmo ar. Ela chegou acesa, iluminada. Minha deusa Bhadrakali. Clarão da minha vida.

Ontem, o outono nascera camuflado. Hoje, pelo que me parece, ele será apenas outono. Não pelo clima, mas pela falta que ela me faz.

Dia curto.

 











Sabe aqueles dias que você não quer botar a cara pra fora do lençol? Pois é, hoje foi um desses dias. O sol chegou pelas frestas da janela anunciando que um novo dia chegara. Não estava nem aí. Virei para o outro lado e escureci o ambiente com a supertécnica de cerrar os olhos. Ao abri-los de novo, a claridade sumira como mágica. Qual foi?! Não seria um raiozinho solar que me obrigaria sair da condição dono de mim.

E na cama, a prostração abraçada com a procrastinação acariciavam-me suavemente. Coisa boa, um espreguiçar aqui, outro acolá. Uma soneca, um acordar. E assim a manhã passou mansa, delicada, como deveria ser todas e quaisquer manhãs.

Agora, com essa energia armazenada, com a alma tranquila, escrevendo esse texto no começo da noite me deu uma vontade danada de voltar pra cama. Não pra procrastinar, não pra ficar prostado. Pelo contrário. De olhos bem abertos assistir aos raios lunares entrando pelas frestas da janela entrelaçado com você.

- Que tal uma taça de vinho e muitos beijinhos nessa noite lunar?

Escolha.









O negócio é o seguinte: Estou aqui curtindo a lua, contando estrelas, sorrindo com a brisa gelada batendo na minha cara, balançando na minha rede, ouvindo músicas antigas – as preferidas- e degustando um vinho tinto que guardei por tanto tempo. E antes que você venha com aquele papo que a minha solidão é coisa de gente doida, digo que ficar aqui jogado, mandando sem medo o mundo pastar é muito bom. Ah! Quem me dera pudesse não mais procurar pelas horas, esquecer os compromissos, acordar a qualquer tempo e continuar nu debaixo do lençol, lendo os meus autores preferidos sem a preocupação se o dia vai ser ensolarado ou chuvoso.

O papo é reto: Não significa que não seria bom você estar aqui. Seria sim. As nossas conversas sempre foram leves e divertidas, sem cobranças, sem problematização. As complicações sempre ficaram lá fora. Nós dois sempre nos bastávamos. Mas no momento quero ficar aqui, egoisticamente, sem fazer porra nenhuma. Eu seria uma péssima companhia agora. Quem sabe depois?

Lembra quando fui ao seu encontro? Foi bom, diferente, estávamos à procura de algo que não estava em nós. Até voltei pra ter certeza que não estávamos enganados. Pena! O sonho durou pouco. Mas foi bom. Sem arrependimento, né?

Lembra quando a nossa viagem foi cancelada por você um dia antes de viajarmos em pleno carnaval?  Mochila pronta jogada por semanas no canto do quarto. Cê sabe que não aconteceria nada, que ele não iria ao seu encontro. Mas o medo foi maior que a aventura. Sempre que me lembro desse episódio dano a rir.

Lembra quando nos reencontramos depois de um tempo separados. Sabíamos que não iria além do tesão do momento. E por isso, a despedida foi suave, doce como uma canção.

 Para concluir: Calma! Concluir o texto. Você sabe que de um jeito ou de outro seremos eternos. Fazer o quê?! Somos assim, despudorados e felizes. Dane-se os que acham que somos sem vergonhas. Até porque somos mesmo. Por isso o vento não desgastará, o sol não craqueará, a chuva não apagará o que temos e o que somos.

Vou pra dentro. A lua foi para trás da montanha, o vinho está acabando, a música parou e o sono está chegando.

Ah! Já ia me esquecendo de dizer: Caraca! vê se para de aparecer nos meus sonhos todos as noites. Já disse. Quero ficar aqui na minha solidão provocada.

Rindo.

 

 

 

 

Incerteza


Talvez não escreva mais sobre as minhas Marias. Farei uma força enorme para que isso aconteça. Por isso começo a frase com um ¨talvez¨; pois elas são tantas que é quase impossível não as escrever. As Marias fazem parte de mim desde o nascimento. Elas permearam em minha vida entre a claridade e a escuridão.

Algumas surgiram do barro, outras eram o meu sal. Algumas açucaradas, outras éteres. Poucas foram grená, muitas foram azuis. Algumas foram minhas pontes, outras meus cais. Poucas me abrigaram, muitas me abandonaram. Algumas me disseram adeus, outras nem isso. Muitas foram a cura, poucas deixaram cicatrizes.

Talvez não escreva mais sobre as minhas Marias. Não relate as nossas intimidades, as nossas vontades, as nossas decepções. Possivelmente as guardarei na derme, tatuadas no peito, fechadas em meu coração.

Mas o que eu não posso prometer é se uma nova Maria aparecer. Certamente escreverei sobre ela, mesmo sabendo que a efemeridade é vital.

Por enquanto não escreverei mais as coisas de Maria. Fica registrado assim.


Coisas de Maria

 


Sentado na varanda da minha casa, ouvindo minhas músicas preferidas; esperando o ocaso chegar. Abro o pacote enviado por uma amiga querida que logo vai viajar.  Dentro da caixa tinha um terço de madeira, tinha um galo português, tinha um par de canecas, tinha um caderno para anotações, tinha um pote de aniz estrelado, se não estou enganado tinha uma mandala para pôr na parede.

Ela vai pra Portugal, Espanha e Itália. Diz que não sabe quando volta, vai ficar pra mais de mês. Maria não vai com as outras. Maria faz o que dá na telha. Um dia está no Rio, noutro em Sampa, de repente em Curitiba ou em qualquer outro lugar.

Um dia desses liguei pra ela. Estava ocupadíssima. Disse-me que estava destralhando, separando algumas coisas para doação. Perguntou se eu queria a sua coleção de filmes e outras ¨cositas más.¨ Ri com o tamanho desapego.

Ah! Já estava me esquecendo. Dentro da caixa tinha uma poesia minha:

 
¨Sentimento
Lá em baixo tem uma luz
luz diferente
não é amarela nem é azul
lá, lá longe...
tem um brilho
azul, não é
amarelo, também não
lá... Debaixo das nuvens
tem o aconchego de um amor
uma cantiga
mãos que afagam
boca que beija
corpo que esquenta
lá longe, muito longe...
tem alguém
que gosta dos astros
que gosta de sexo
que gosta de rir
lá... não muito longe...
tem o que quero
a certeza
a melodia
o dia
a noite
lá, somente lá
estão os meus desejos.¨

Pelo visto, ela não desapegou dos meus textos. Que bom. Mas quando isso acontecer. Vou entender. Isso é coisa de Maria!

 

 

 

Lua amiga

 










A Lua encantava as noites quentes de verão. Adorava aquela convivência quase tribal. As esteiras de taboa improvisavam os nossos colchões. Todos no quintal, de papo pro ar, numa prosa sem fim. Observava as estrelas sem a pretensão de entendê-las, apenas as observava com olhos de menino. Os olhos no céu e as orelhas nas conversas dos adultos.

- Paulinho, tá vendo a Lua? Essa é Claudia, querendo compartilhar a emoção de vê-la brilhando no seu céu.

- Paulo, a Lua está tão linda. Você consegue vê-la daí? Essa é Maria a mais de cem quilômetros de distância compartilhando sua alegria lunar.

Ainda hoje, a Lua encanta as minhas noites de verão. Hoje, a Lua está em quarto-crescente – gosto de vê-la se transformando a cada noite até está totalmente cheia e linda. Hoje, já não deito em esteiras de palha. Aconchego-me na rede, observo as estrelas e a Lua e adormeço embalado por ela.

Ainda hoje, olho para o céu com os olhos de um menino.


Certezas

 











O vento chegou forte. Corri para fechar as janelas e portas. Com ele, veio a chuva. Com ela, vieram as trovoadas e relâmpagos rasgando o céu cinzento. Durou menos de uma hora, mas o suficiente para que as lembranças antigas brotassem da minha mente.

Os espelhos eram cobertos, as tesouras eram guardadas, as tomadas dos aparelhos elétricos eram desplugadas e o fósforo e um maço de vela ficavam esperando em cima da mesa caso a luz fosse embora de repente. Geralmente ia.

Engraçado, depois de décadas a eletricidade ainda cai quando há relâmpagos. É claro que desligo tudo, no entanto, as velas foram substituídas por lanternas.

Confesso que em dias assim de muita chuva, fico mais absorto, desligo-me do caos lá fora e visito os mais profundos dos pensamentos. Lembro-me dela rezando baixinho a cada trovoada ou relâmpago. Achava estranho um adulto sentir tanto medo de uma coisa tão natural. Hoje, entendo o seu pavor. Só quem passa por determinadas situações provocadas por temporais sabe a força que a natureza tem.

Um dia desses, Gabriela – amiga do trabalho - alertou-me sobre as quedas frequentes de energia na cidade e que era interessante eu usar aparelhos contra surtos de energia. Saí comprando vários desses dispositivos. Melhor prevenir que remediar, já dizia os antigos.

Sempre que chove forte na cidade, Maria liga pra saber se está tudo bem comigo. Antes, achava divertida tamanha preocupação. Hoje, se ela não liga sinto falta. Só quem passa por determinadas situações sabe a força que uma amizade verdadeira tem.

Estou aqui, escrevendo o texto e esperando o celular tocar. Sei que ele vai tocar.

Cena

 

Imagem da internet








Ele olhou pra mim e metralhou:

- Veja bem! Não estou nem aí pra determinadas coisas. Faço-me de desentendido pra não me aborrecer com tanta imbecilidade. Quem conversa com porta é maluco.

"Quem dera fosse verdade!"

Continuei a ouvi-lo. Falou de futebol, do trânsito, de políticos, praguejou a sua ex-mulher, reclamou do filho mais velho e de repente:

- Você não fala muito né?

Olhei para aquela cara vermelha de nariz pontudo e o respondi com um sinal apontando para minha garganta e falando baixinho e rouco:

- Garganta inflamada.

O vermelho abanou o braço pra cima, resmungou alguma coisa e saiu falando sozinho.

Olhei sério para o dono do bar do outro lado do balcão, e depois de alguns segundos, danamos a rir.

Falei alto e bom som:

- Desce uma cerveja bem gelada pra tirar a poeira da garganta.

A mocinha sentada perto de  mim exclamou:

- Vixe! dá trela pro senhor vê.

Gargalhei mais uma vez.

Cotidiano

 



 





Não dá mais pra adiar. Entro na cozinha e vejo a louça empilhada na pia. Não tenho problema em lavar louças, até gosto. Mas tem dias que até o que gosto quero longe de mim. Como dizem por aí que quem canta seus males espanta, ligo o som e começo a lavaria – emulsificando os engordurados, dando brilho no inox. Em poucos minutos tudo lavado; a harmonia sempre volta depois do caos. Um suspiro de alívio e um sorriso de satisfação sempre chegam depois de uma tarefa feita.

Quando posso, adio mesmo. Os amigos não contam mais comigo. Convidam sabendo que dificilmente irei. Eventos corporativos nem pensar. Festinha de empresa de final de ano quando aparecia era por pura obrigação, nunca por educação. Na primeira oportunidade saía à francesa. Hoje, nem uma coisa nem outra. Simplesmente digo não. Deixo os burburinhos para os outros. Adoro meu silêncio, minha rede, minha varanda e meus livros.

Ultimamente ando procrastinando quase tudo: em visitar uns, em receber outros. Estou sempre adiando alguma coisa. Não é mesmo, Maria?!

Hoje a natureza foi minha cúmplice. A listinha de tarefas foi adiada porque choveu pesadamente e continua. Restou-me escrever o texto, assistir alguns filmes e até ligar pra a amiga Irene.

Agora estou aqui ouvindo a chuva batendo na calçada. Incidental nesse meu mundo tão previsível.